quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma Noite em 67 e Dzi Croquettes


Cultura, contracultura e o dinamismo artístico do Brasil durante a ditadura militar. Estes são os temas de dois ótimos documentários recém-lançados: “Uma Noite em 67” e “Dzi Croquettes”.

O primeiro foi dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra trata do III Festival da Canção, realizado pela TV Record. Os eventos eram famosos por reunir a nata da então nascente MPB e o de 1967 foi marcado pelo surgimento da revolução do Tropicalismo – um impacto tão grande que ainda hoje inquieta e desnorteia os protagonistas.

O filme contrasta as imagens da época com entrevistas com os principais artistas e organizadores do festival. Hoje são senhores de 60 e 70 anos, mas na ocasião eram inacreditavelmente jovens, levando em conta a qualidade de sua produção artística. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque tinham pouco mais de 20 anos quando compuseram clássicos absolutos da MPB como “Alegria, Alegria”, “Domingo no Parque” e “Roda Viva”. Já Sérgio Ricardo parece mesmo um moleque, na inesquecível sequência em que quebra o violão e o lança sobre o público, após uma longa vaia.

A platéia vibra, vaia, aplaude e participa de modo fantástico – bem, talvez o auditório da TV fosse o único espaço público para manifestações disponível na ditadura... Com direito aos exageros da época, como a passeata contra o uso de guitarras elétricas. Mas a televisão brasileira parecia muito mais velha. A pompa dos jornalistas e o estilo formal (cantores de MPB se apresentando de smoking, Caetano sendo chamado de "Veloso"!) mostra o quanto a cultura brasileira se transformou. Em grande medida, sob o impacto da contracultura e de movimentos como o Tropicalismo.

É patente a mágoa de Chico Buarque e Edu Lobo porque eram considerados “velhos e conservadores” diante de Caetano, Gil e dos Mutantes, embora fossem todos da mesma geração. A desorientação com os tropicalistas também atingiu a Jovem Guarda – uma das melhores cenas do documentário são os integrantes do MPB4 contando uma conversa com Erasmo Carlos, no banheiro de uma boate onde Caetano se apresentava, e todos confessando não entender nada do que acontecia. E como é curioso ver Roberto Carlos cantando samba, em pleno festival!




Se em 1967 a revolução nos costumes apenas começava, em meados da década de 1970 ela já havia explodido, e é disso que trata “Dzi Croquettes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que faz um retrato afetuoso do grupo que misturava teatro, dança e música e lançou o embrião de uma guinada irreverente nas artes cênicas. Formado por 13 homens, homossexuais, que se apresentavam vestidos como mulheres mas com símbolos de virilidade, as Dzi Croquettes desafiavam esteriótipos e lotaram casas de espetáculo do Rio de Janeiro a Paris. A ditadura levou um tempo até perceber o que ocorria – seus shows não tocavam em temas abertamente políticos, mas eram desafios ao conservadorismo do regime autoritário

Tatiana é filha de um dos cenógrafos do grupo e destaca bastante o aspecto de “grande família”, que permeava as Dzi Croquettes – todos moravam juntos, por exemplo. Há um forte esforço de memória, de lembrar a importância de pessoas como o ator e humorista Wagner Ribeiro e do bailarino e coreógrafo Lennie Dale, um bad boy da Broadway que acabou em Copacabana, apaixonado por Bossa Nova e pela música brasileira - impressiona ver como muitos dos entrevistados choram ao se lembrar dele.

Oito das Dzi já morreram. Quatro por AIDS, um por aneurisma e três assassinados. Mas, curiosamente, a mensagem subversiva e questionadora do grupo se adaptou muito bem à TV, encontrando continuadores e difusores na geração de atores e humoristas formados no teatro do Besteirol – pessoas como Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Cláudia Raia, todos entrevistados no documentário. A própria Tatiana foi atriz da Globo, e hoje vive em Nova York e trabalha no mercado financeiro. Talvez seja o caso de inverter o famoso verso de Caetano Veloso: de perto, todos são normais. Dolorosamente normais.

2 comentários:

Rafael disse...

Assisti "Uma Noite em 67" e algumas coisas me chamaram a atenção:

- Você observou que o Sérgio Ricardo, que era o mais velho da turma, "parece mesmo um moleque", e é curioso notar, por outro lado, a maturidade demonstrada naquelas entrevistas de bastidores pelos demais jovens de 21, 22 anos. Principalmente o Caetano e o Edu Lobo me espantaram pelo desassombro, não estavam deslumbrados com aquilo tudo;
- a postura do Caetano no palco. De novo, ele tinha apenas 22 anos e enfrentou aquela turba inicialmente hostil de maneira absolutamente serena, até um pouco recatada. O contraste com o caráter performático das suas apresentações nos anos 70 é interessante;
- não sabia que Roberto Carlos tinha sido um dos finalistas em 67 e fiquei impressionado com a qualidade da sia apresentação;

É interessante notar como, mesmo nessa época em que a comunicação de massa engatinhava no Brasil, os executivos de TV já tinham uma idéia bem clara de como conduzir os shows de entretenimento. Descontando o óbvio talento daquele pessoal, a confissão do diretor da Record de que os finalistas eram escolhidos de acordo com certos perfis de fácil assimilação para o público não fica muito longe da cuidadosa seleção que se faz hoje nos Big Brothers da vida. Desconfio até que essa relação era de mão dupla, às vezes parece que os artistas se encaixavam voluntariamente nos seus papéis, mas o Chico diz que ele não sabia de nada disso. Enfim, fim dos anos 60 não foi uma época inocente e aquela atmosfera não dava espaço para amadores.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Rafael.

É verdade, A maturidade do Caetano e do Chico, mesmo aos 20 poucos anos, impressiona. Bem como o talento, a facilidade em se expressar etc. Curiosamente, Gil parecia mais à vontade com a fama naquele momento (apesar das histórias de pânico de palco) do que hoje em dia. Ao menos, suas entrevistas eram mais claras.

A TV ainda dava os primeiros passos no fim dos anos 60, mas os seus pioneiros eram veteranos do rádio e/ou do teatro, e entendiam bastante de espetáculo. Originalmente, afinal, os Festivais deveriam ser apenas bons programas de TV. Mas viraram algo mais importante do que isso, pela conjuntura da época, mas também por sua qualidade técnica.

abraços