segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Sombra de Pinochet



Uma aluna que é amiga do político chileno Heraldo Muñoz me deu de presente seu excelente livro: “A Sombra do Ditador: memórias políticas do Chile sob Pinochet”. É uma mistura de análise e autobiografia que cobre do golpe militar contra Salvador Allende até a morte do general Augusto Pinochet, em 2006.

Quando Allende foi eleito presidente, em 1970, Muñoz já era um ativo membro do Partido Socialista, o mesmo do chefe de Estado. Em seu governo, exerceu o cargo de chefe de um sistema de lojas populares e recebeu (precário) treinamento para o caso da eclosão de uma guerra civil. O que veio foi um golpe militar clássico, mas inusitado para os padrões chilenos, onde as Forças Armadas se orgulhavam do respeito à lei e à democracia.

Pinochet era o típico oficial de carreira do Exército – um burocrata, não um fanático, e sua carreira havia sido conduzida de forma metódica, mas sem brilho. Ele se destacava pelo respeito e cordialidade aos superiores, inclusive por políticos de esquerda, como Allende e os prisioneiros comunistas que vigiou quando capitão, numa prisão no norte do Chile. Para Muñoz, Pinochet havia amargado uma vida de ressentimento e frustrações, que explodiram na forma de crueldade e fome de poder, quando se viu alçado à presidência.



A análise da ditadura no livro segue três eixos: o relato das principais atrocidades e massacres cometidos pelo regime (as execuções no Estádio Nacional, a Caravana da Morte, a Operação Condor, o assassinato de dissidentes nos EUA e na Argentina); as disputas pelo poder entre a cúpula das Forças Armadas e a guinada na política econômica, com a adoção do programa liberal dos “Chicago Boys”, e suas mudanças em momentos como a crise de 1982.

O mais interessante do livro é o relato autobiográfico de Muñoz sobre sua participação na formação da coalizão internacional contra a ditadura, focada na defesa dos direitos humanos no Chile. Durante o regime de Pinochet, o autor alternou temporadas no país, trabalhando como professor universitário, e períodos nos Estados Unidos, como doutorando e pesquisador. Era um jogo arriscado e ele escapou por pouco, muito pouco, de ser preso. Muñoz foi uma figura importante na reforma do Partido Socialista, trabalhando junto com Ricardo Lagos para a construção da Concertación, a aliança de centro-esquerda que governou o Chile de 1990 até o início deste ano.

Os capítulos sobre o retorno da democracia ao Chile são marcados pela presença de Pinochet no poder – ele continuou a comandar o Exército por muitos anos, e depois se tornou senador vitalício – e pela longa série de processos judiciais que começaram com a prisão do ex-ditador na Inglaterra, em 1998, por ordem de um juiz espanhol. Pinochet conseguiu voltar ao Chile, mas nunca mais teve paz. As investigações por violações de direitos humanos foram aumentadas pelas ações sobre corrupção – frutos, ironicamente, das leis anti-terrorismo nos EUA, que apertaram o cerco às fraudes financeiras.

Pinochet morreu sem ter sido condenado pelos tribunais. Mas algo do legado das investigações permaneceu. O recém-empossado presidente Sebastián Piñeira recusou a proposta da Igreja Católica em anistiar militares que cometeram violações de direitos humanos na ditadura.

4 comentários:

Mário Machado disse...

Dei uma receita em outro post nesse eu acrescento o sal grosso.

Pinochet - me conforta ser católico nessa hora por que esse sujeito está queimando no fundo do inferno esperando outros ditadores que cismam em viver.

Abs,

Mauricio Santoro disse...

Ha ha ha... Já tenho até medo de postar resenhas aqui!!!

Curioso o seu comentário, porque quando o Pinochet morreu eu morava na Argentina e a manchete do Página 12 foi uma foto do ex-ditador com a seguinte legenda:

"O que o inferno fez para merecer isso?"

Abraços

Mário Machado disse...

Até dá pra responder teologicamente, mas a expressão da manchete é verdadeira. Um ser (tenho dúvidas se humano) como esse merece uma manchete dessas. Creio que já houve um golpe no inferno por que só pra ficar no século XX, Stalin, Lenin, Mussolini, Salazar, Franco, Mugabe e outros pais dos pobres e salvadores da nação, da classe e da raça juntos.. não há capeta que dê conta..

Black Ace disse...

Pinochet é um libertador.

Comunista não é gente, e não é a toa que o inferno é vermelho.