quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Liberdade Segundo Jonathan Franzen



Os Berglunds eram a família modelo num pacato subúrbio residencial do estado de Minnesota, sempre dispostos a ajudar os vizinhos e com dois filhos inteligentes e saudáveis. É certo que havia alguns questionamentos – por que Patty, a esposa,nunca visitava seus pais em Nova York? – mas eram questões menores. De repente, não mais do que de repente, as coisas saíram de controle. Talvez o 11 de setembro possa ser o marco, mas os atentados dificilmente explicam a saída de casa do filho caçula, Joey, ou a freqüência com que Patty passou a beber. E o que diabos representa para a família o músico-alternativo-que-virou-superstar, Richard Katz, o grande amigo de juventude de Walter, o marido? A mudança dos Berglund para Washington, DC, foi o prelúdio do desastre, mas ainda assim ninguém entendeu o perfil que o New York Times publicou do gentil Walter, associando-o à devastação do carvão e chamando-o de “notório arrogante.”

Freedom”, de Jonathan Franzen, é um romance sobre excessos – de liberdade, de dinheiro, de opções e como todas essas possibilidades acabam fazendo com que as pessoas se percam em meio às dificuldades da vida contemporânea nos Estados Unidos. Como seu best seller anterior, “As Correções”, é também uma crônica das desventuras de um casal de classe média por sua crise de meia idade. A novidade é que Franzen está mais político, satirizando o clima de “o vencedor leva tudo” que tomou conta da sociedade americana, e elaborando tramas a partir das negociatas no Iraque. Eu havia gostado das “Correções”, e “Freedom” é ainda melhor.



A trama acompanha a trajetória de quatro personagens: Walter, Patty, Joey e Richard, com olhares momentâneos sobre seus vizinhos, amigos, amantes, parentes e fãs. O que os quatro têm em comum é o desejo de mudar de vida, mas a permanente insatisfação com as escolhas que realizam. Walter abandona a empresa na qual trabalhou por muitos anos para tocar uma fundação filantrópica ambiental, de credenciais questionáveis. Patty se sente frustrada com sua rotina de dona de casa e lamenta os erros que cometeu. Joey vive as ansiedades da adolescência e do início da vida adulta, principalmente as tentações do dinheiro, ao ser apresentado à milionária família de seu colega de quarto. O personagem mais interessante, sem dúvida, é Richard. Sua carreira boêmia e errática sofre um baque violento quando ele se torna um sucesso de público. Mas talvez ser bem-sucedido não seja o que ele procure.

O romance consegue ser engraçado e amargo ao mesmo tempo, com passagens inesquecíveis, como Richard criticando a pose dos roqueiros, Joey refletindo sobre a importância da música em sua vida ou a relação de amizade, carinho, rivalidade e ressentimento que une e separa Richard e Walter, desde os dias da faculdade. Há também problemas, em especial uma certa agressividade que com freqüência aparece nas descrições dos personagens femininos. Mas é muito bom encontrar um romance que me emocione e me faça pensar.

2 comentários:

Renato Feltrin disse...

Maurício,

Recentemente, também li dos dois mais famosos romances do Franze. De um modo que não sei explicar muito bem, gostei do texto, mas achei os trabalhos longos demais.

Em regra, o texto dele é exempla. Frases precisas, nenhuma palavra fora do contexto, uma finura, enfim. O problema é que ele tende a se alongar demais nos capítulos.

A história se desenrola de modo lento, arrastado. Invariavelmente, cada capítulo termina de forma brilhante: as frases conclusivas são perfeitas. Mas a lentidão incomodou-me um pouco.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Renato.

Também acho os livros dele longos demais. Se Freedom e Correções tivessem, digamos, 200 páginas a menos, seriam romances bem mais fortes e interessantes.

Ainda assim, ele é o escritor contemporâneo nos EUA que mais me impressiona. Outras dicas e sugestões são muito bem-vindas!

Abraços