quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Protestos no Egito: um 1989 árabe?



É possível que estejamos vivendo um "1989 árabe", ou ao menos, magrebino. Depois da rebelião na Tunísia, os impressionantes protestos contra a ditadura de Hosni Mubarak no Egito levantam a chance de uma mudança importantíssima, com consequências para o Norte da África e para o Oriente Médio.

escrevi neste blog sobre o longo declínio do Egito nos últimos 30 anos. O país que foi um dos centros mais importantes do pan-arabismo tornou-se uma ditadura estagnada economicamente, com um regime decrépito e sem apelo ideológico. As especulações sobre a capacidade do general Mubarak em transmitir o poder a seu filho ganharam nova intensidade com o impacto da rebelião democrática na Tunísia, cujo efeito no Egito tem sido devastador.

Os protestos atuais são as mais impressionantes manifestações públicas desde os dias de Nasser - ainda mais significativos porque desta vez ocorrem contra o governo, o que não é pouca coisa diante de um regime autoritário com longo histórico de violência contra seus opositores, sejam os democráticos, sejam os fundamentalistas islâmicos - e o Egito é um dos berços do movimento.

À semelhança da Tunísia, a incipiente rebelião egípcia é motivada pela falta de oportunidades econômicas e pelo desgosto com a corrupção no governo. Internet, celulares e novas mídias desempenham papel importante na organização e mobilização dos manifestantes. A juventude tem sido protagonista, de modo trágico: enquanto escrevo, já foram seis os rapazes que atearam fogo ao próprio corpo, seguindo o exemplo do rapaz tunisiano cujo suicídio detonou a rebelião.

Há, porém, um elemento fundamental que torna o Egito um caso muito mais explosivo que a Tunísia: o país tem papel-chave no conflito árabe-israelense, sendo desde a década de 1970 um aliado dos Estados Unidos e tendo assinado um acordo de paz com Israel. A guinada diplomática veio após 25 anos de guerras e uma aliança malsucedida com a União Soviética, e custou a vida ao presidente Anwar Sadat. Seu sucessor, Mubarak, aprendeu a lição e reprimiu duramente os dissidentes, introduzindo reformas muito tímidas, sobretudo no sentido de um pouco mais de autonomia ao judiciário.

A teoria da paz democrática afirma que regimes dessa natureza não travam guerras entre si. Essa formulação foi feita pensando basicamente nos casos da Europa e da América do Norte e não num cenário regional marcado pela polarização política e intensos conflitos nacionais, religiosos e culturais. Uma mudança de regime no Egito provavelmente trará, pelo menos no curto prazo, mais instabilidade ao Oriente Médio, pois os líderes do país terão que lidar com fortíssimas pressões de sua base social para, digamos, ações mais decisivas em defesa dos palestinos em Gaza. Contrabalanceada pelo que será enorme campanha internacional para que o governo no Cairo mantenha sua posição diplomática diante das alianças da região.

Ainda é cedo para prever se os manifestantes conseguirão depor Mubarak, ou se o ditador conseguirá se manter no poder por meio de uma combinação de repressão e reformas pontuais. Mas me impressionou a declaração de um dos rapazes rebeldes, afirmando que quer mudar o regime, e não apenas o presidente. Ventos de mudança sopram pelo mundo árabe.

15 comentários:

Mário Machado disse...

Dr.

O Egito é mais complexo que a Tunísia por que tem a 'irmandade mulçumana' como força política organizada.

Hoje o regime voltou a reprimir com sua habitual eficiência.

Os próximos lances serão importantes de acompanhar.

Eu até o momento acho que a distância e o silêncio do ocidente serão importantes para não justificarem a repressão como no Irã.

Abs,

Mário Machado disse...

Dr.

Parabéns pela participação na Globo News, faltou só ensinar a eles que palestino não é árabe. Mas, tudo a seu tempo.

Mário Machado disse...

Dr.

Parabéns pela participação na Globo News, faltou só ensinar a eles que palestino não é árabe. Mas, tudo a seu tempo.

Anônimo disse...

salve, santoro,

parabéns pela participação na globonews por volta das 15:20h.

só faltou desenhar no quadro-negro, se houvesse, pra moça da televisão entender a situação histórica-política atual do magreb.
o mário machado também notou os apuros da jornalista que, infelizmente, não se preparou com afinco para a entrevista.

em todo caso, a "aula" do professor foi por demais esclarecedora.

carlos anselmo
fort-ce

Mauricio Santoro disse...

Salve, Mário, salve Carlos.

Nossa, vocês estão bem atualizados com a Globonews!

Como vocês viram, falei da Irmandade na TV, até o momento ela está fora dos protestos, mas é claro que pode entrar no redemoinho do conflito no Egito.

abraços

Mário Machado disse...

Eu trabalho com a TV em mute na globo news dai a agilidade..hehe..

Sazinha disse...

Desde quando palestino não é árabe?

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Terrível a situação no Oriente Médio. No caso do Egito, até agora também me está fazendo lembrar ao 1989... não pela queda da URSS, senão pelo Tiananmen.
Você pensa que poderia ter implicâncias em paises menos desenvolvidos como o Sudã, ou só nos do mediterrâneo?
Abraços

Patricio Iglesias

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Terrível a situação no Oriente Médio. No caso do Egito, até agora também me está fazendo lembrar ao 1989... não pela queda da URSS, senão pelo Tiananmen.
Você pensa que poderia ter implicâncias em paises menos desenvolvidos como o Sudã, ou só nos do mediterrâneo?
Abraços

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

O Sudão está no fim de um longo processo de crise, que deve culminar com a separação do sul do país, onde ocorre um referendo pela independência.

A parte norte, árabe, foi citada pela Foreign Policy como um dos locais onde a crise do Egito pode repercutir, mas sou cético com relação a isso. O ditador local é bastante popular.

Abraços

Anônimo disse...

oi, santoro.

a título de informação.
a al jazeera tv, http://english.aljazeera.net/, já dá conta de manifestações populares em sana, iemen, a exemplo do egito e da tunísia.

por falar no egito, nota-se pelos vídeos que as forças de segurança estão evitando confrontar os manifestantes nas ruas. seriam ordens da presidencia ou desobediência dos policiais? sei não, viu?

aqui prá nós. a grande mídia nacional, como não tem mais correspondentes por questões financeiras, salvo raras exceções, creio eu, não produz nenhuma análise sobre os acontecimentos. se limitam a reproduzir as agencias internacionais de notícias. uma pena. só a blogosfera, feito o professor, se encarrega de tentar destrinchar tais fatos.

abçs

carlos anselmo-fort-ce

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos.

Vi há pouco as notícias sobre o Iêmen, que me surpreenderam, pois o país tem uma sociedade bem menos desenvolvida (em termos de tamanho da classe média) do que o Egito e a Tunísia. Vou checar as informações disponíveis sobre o país e continuo a análise pelos próximos dias.

Abraços

"O" Anonimo disse...

"faltou só ensinar a eles que palestino não é árabe."

What the fuck?

André disse...

Vendo os protestos se espalhando por todo o Egito na Al Jazeera.
É difícil descrever. Cenas dramáticas. Os manifestantes parecem estar ganhando em Alexandria e em Suez, muitos protestos em tudo quanto é cidade do país. Policiais abandonando o regime e se juntando aos protestos em Alexandria, soldados abraçando o povo no Cairo. Tudo está acontecendo muito rápido.

Estou confiante, que seja revolução no Egito!

Mário Machado disse...

Sazinha, "O" Anônimo,

Eu não posso ignorar o nacionalismo palestino que busca sua identidade própria. Ainda que haja evidências da participação árabe na formação étnica e sobretudo cultural da população palestina. Toda sua luta tem esse componente de diferenciação. Como sou adepto do respeito do direito de autodenominação que uma população tem acho inapropriado chamá-los de árabes.

(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0104-71832003000100010&script=sci_arttext) nesse link há um estudo curto de antropologia que pode ajudar a clarificar minha posição, que julguei ser mais difundida.

Abs,