segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma "Relação Global" entre EUA e Brasil



Na semana passada foi divulgado o relatório do Council on Foreign Relations (CFR) sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos. Elaborado por acadêmicos e ex-diplomatas, o documento argumenta que os EUA precisam reconhecer a ascensão brasileira ao status de ator global e defende que Obama tome várias medidas de boa vontade, como declarar apoio ao pleito do Brasil por vaga no Conselho de Segurança da ONU (como já fizeram França, Reino Unido e Rússia) e faciltar o acesso ao mercado americano do etanol brasileiro.

O CFR é o mais importante centro de pesquisa dos EUA em relações internacionais, e suas publicações têm bastante peso, expressando o consenso entre Democratas e Republicanos nas prioridades em política externa. O teor de suas recomendações sobre o Brasil não é novo: elas têm sido expressadas em maior ou menor grau por líderes dos dois partidos, inclusive pelo presidente Barack Obama e pela secretária de Estado Hilary Clinton. A importância do relatório reside na sistematização dessas propostas e na conjuntura atual, com a severa crise financeira nos Estados Unidos e na Europa.



O documento tem 125 páginas, o tamanho de um pequeno livro, e concentra-se na análise dos últimos 10 anos, com previsões para os próximos anos de que a economia brasileira continuará a crescer, baseada em agricultura, mineração, energia e na expansão da classe média. O relatório afirma que o Brasil será um dos países mais influentes da política internacional no século XXI e que é necessário que os EUA adaptem-se a essa ascensão, inclusive tratando o Brasil menos como um membro da América Latina e mais como um ator global de méritos próprios.

As maiores fragilidades do relatório estão na ausência de discussões sobre a história brasileira e sobre o sistema político doméstico. São fatores fundamentais para entender as ambições e frustrações do país, como sua busca por influência entre outras nações desenvolvimentos, a procura de um papel autônomo na África e no Oriente Médio ou a dificuldades dos governos federais em administrar o “presidencialismo de coalizão” e de implementar reformas abrangentes em áreas como infraestrutura e educação. Me parece que o CFR exagerou no voluntarismo, creditando à presidente Dilma Rousseff mais poder do que ela de fato dispõe, e errou ao acreditar demais em sua retórica, como na suposta reformulação abrangente da diplomacia de direitos humanos.

Seria interessante que alguma universidade ou centro de pesquisa brasileiro tivesse uma iniciativa semelhante e preparasse um um estudo sobre as transformações e crises nos EUA atuais, apontando as perspectivas para a política externa brasileira.

2 comentários:

Israel disse...

Bom tarde !

Sim, é verdade, falta um estudo mais profundo sobre os EUA e sua crise, por parte de nós - brasileiros-, mas tb penso que o própio curso de R.I no país é muito novo, mesmo que tenhamos uma tradição nesta área.

Há estudos sobre missõe de paz, energia nuclear, entre outros, todavia um específico sobre um dos principais parceiros comerciais do Brasil, não tem.

Enfim, foi uma boa observação, quem sabe sai daí o meu doutorado rsrsrs

Abs
Israel

Mauricio Santoro disse...

Salve, Israel.

Pois é, os cursos de RI são novos, mas é surpreendente que haja tão pouca reflexão brasileira sobre os EUA vinda de cursos tradicionais como História ou Ciências Sociais.

Apoiadíssimo no seu projeto de doutorado!

Abraços