quarta-feira, 27 de julho de 2011

EUA: crises não se improvisam



As últimas semanas foram dominadas pelo debate sobre se democratas e republicanos conseguirão chegar a um acordo para aumentar o teto da dívida pública dos Estados Unidos. A questão é séria, mas a discussão deixa em segundo plano as causas do problema. Como diria mestre Nelson Rodrigues: “subdesenvolvimento não se improvisa. São necessários séculos de prática.” Ou ao menos décadas.

Nos últimos 20 anos, tem havido uma grande divergência entre as taxas de crescimento econômico das nações ricas e dos países em desenvolvimento. Como mostra o gráfico abaixo, potências emergentes deram um salto impressionante em termos da velocidade de seu progresso. Vale sobretudo para China e Índia, mas também para Brasil, Turquia, África do Sul.



O Nobel de Economia Michael Spence argumenta que a raiz da crise que os Estados Unidos, a União Européia e o Japão enfrentam hoje é exatamente a dificuldade estrutural de adaptação à nova economia global, na qual as potências emergentes despontaram como competidores bem-sucedidos em diversos setores. Ele afirma, por exemplo, que a ascensão da China e da Índia enfraqueceram de tal modo o setor industrial de baixo valor agregado nos países desenvolvidos que gerou forte aumento do desemprego entre os trabalhadores de baixa e média qualificação. De fato, esses são os segmentos em pior situação nos EUA atuais.

Em outros textos aqui no blog, já mencionei o problema da desigualdade social crescente nos Estados Unidos, e de como essa tendência se manteve em todos os governos dos últimos 30 anos, agravada por diversas decisões políticas, sobretudo o corte de impostos para os ricos. Aliás, a combinação de déficit crescente com incapacidade de taxar os cidadãos mais abastados faz os EUA de 2011 parecerem a França de 1789. Reparem, pela tabela abaixo, que a elevação do teto da dívida tem sido constante e foi mais grave sob republicanos do que com os democratas.



O curioso é que o contraste entre Estados Unidos em crise e América Latina em crescimento provocou situações inusitadas. Os EUA são hoje mais desiguais do que países como Uruguai e Venezuela, e tem maior percentual de pobres do que Argentina, Chile e, novamente, Uruguai. Aguardemos os desdobramentos da crise da dívida americana.

3 comentários:

Flavio Faria disse...

Fala Maurício,

Em primeiro lugar parabéns pelos excelentes artigos que você publicou no último mês. Adorei a sua matéria sobre o Sudão do Sul, sobre os protestos no Chile e sobre o massacre na Noruega. Ótimas críticas e links sobre o assunto. Espero que o blog continue à todo vapor.

Sobre essa matéria, discordo de alguns pontos contigo se você me permite. Achei equivocado a comparação dos EUA com a França pré-revolucionária. Os ricos pagam impostos como qualquer cidadão. Por que eles precisam pagar mais pela crise de toda a sociedade. Na França, cleros e nobres não pagavam absolutamente nada. Por que apenas os camponeses deveriam arcar com as dívidas do Estado? Não sei se me fiz entender. O certo seria a redução da máquina pública burocrática e corte nas despesas do governo. Não aumentar os impostos de uma minoria.

Outro ponto que achei estranho é a comparação dos EUA, com cerca de 300 milhões de habitantes, com pequenos países como o Uruguai, que têm apenas 3 milhões. Acho complicado qualquer relação entre os dois países, pois apresentam problemas econômicos e demográficos bem diferentes.

Bom, talvez eu esteja errado também. Mas queria compartilhar isso contigo.

Um forte abraço Maurício, nos veremos em breve.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Flavio.

Os ricos pagam imposto nos EUA, mas num percentual bem menor do que os mais pobres e a classe média. Essa é uma situação nova que começou na década de 1970 e acompanha a concentração de renda e a desigualdade social no país.

Basicamente, os ricos usaram seu poder político para pagar menos impostos e, claro, construíram ideologias que justificam esse privilégio como algo que supostamente beneficiariam toda a sociedade, por meio do estímulo à economia.

Ela cresceu tanto nos EUA que tornou essa nação mais desigual do que alguns países da América Latina, que é a campeã mundial de desigualdade. Isso para não mencionar

Há algo de errado, muito errado, com uma sociedade tão rica que não consegue resolver problemas sociais básicos e fica para trás até com relação ao que um terrorista noruguês chamaria de "países desfuncionais" da América Latina.

Abraços

Murillo Victorazzo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.