quarta-feira, 13 de junho de 2012

Getúlio Vargas: ascensão ao poder

O jornalista Lira Neto publicou o primeiro volume dos três de sua biografia de Getúlio Vargas. “Getúlio – Dos Anos de Formação à Conquista do Poder” cobre o período de 1882 à Revolução de 1930 e traça um retrato excepcional do homem e de sua época, usando diários, cartas, livros de memórias e a imprensa da época. Esforço rico, análogo ao que Robert Caro faz por Lyndon Johnson nos Estados Unidos. Acompanhamos a educação de Vargas no ambiente rústico e violento da fronteira gaúcha no início do século XX, entre lembranças das guerras platinas e a vivência de duas guerras civis, a influência intelectual do positivismo, sua breve passagem pelo Exército e sua ascensão na máquina política da República Velha.

Vargas nasceu numa família de militares e de criadores de gado. Seu pai foi à guerra do Paraguai como soldado voluntário e voltou capitão, sendo promovido a general honorário pelo marechal Floriano Peixoto por sua liderança na repressão à rebelião federalista, no início da República. Vargas quis seguir seus passos, mas se entediou com a vida dos quartéis, que largou no fim da adolescência, quando ainda estava na escola preparatória para a academia de oficiais. Optou pela tradicional carreira do Direito, e já na faculdade se destacou como líder estudantil e jovem quadro da estrutura partidária comandada com mão de ferro pelo veterano Borges de Medeiros.

Lira Neto retrata um Vargas de muitas qualidades: inteligente (a abrangência de suas leituras e a solidez de seu preparo intelectual impressionam), sério, dedicado, mas ao mesmo tempo bonachão, simpático, habilidoso em dialogar e negociar. Características raras em sua família: seus irmãos estavam constantemente em problemas com a lei, por brigas, violência e corrupção na pequena cidade de São Borja, que dominavam. Vargas usava sua influência junto a Borges de Medeiros para ajudá-los, mas foi construindo sua carreira por méritos próprios: promotor, advogado, deputado estadual e federal. Ele participava dos jogos tradicionais de clientelismo, fraude e manipulação, mas não parece ter roubado para si mesmo, vivia frugalmente com a esposa e os filhos.

Vargas passou as décadas de 1900 e 1910 como uma personalidade local na política gaúcha, mas nos conturbados anos 1920 tornou-se alguém de projeção nacional, primeiro como o grande articulador dos interesses do Rio Grande do Sul junto ao governo federal, no momento de crise do pacto do café com leite (São Paulo e Minas Gerais) da República Velha, da eclosão das rebeliões tenentistas e do crescimento da inquietação social do país. Ele chegou a ser ministro da Fazenda do presidente Washington Luís, mas por breve período – logo largou o cargo para assumir o governo do Rio Grande do Sul.

Vargas foi uma figura chave para pacificar o estado, negociando a trégua – e posteriormente aliança – entre a oligarquia liderada por Borges de Medeiros e os setores liberiais comandados por homens como Assis Brasil e Batista Luzardo. Vargas incorpou muitas de suas demandas de modernização econômica e promoção da indústria, primeiro no âmbito estadual, mais tarde no plano federal.

A segunda metade do livro é dedicada a narrar em detalhes as articulações políticas e militares que culminaram no desafio de Vargas ao pacto do café com leite, sua campanha eleitoral à presidência e a Revolução que o levou ao poder após sua derrota pelo voto – apesar das fraudes maciças, os dados que Lira Neto apresenta indicam que ele teria perdido mesmo numa disputa limpa. O resumo da ópera: o sistema tradicional da República Velha estava em ruínas e Vargas triunfou porque construiu uma coalizão de apoio entre os descontentes com o regime: lideranças regionais excluídas (Rio Grande do Sul, parte do Nordeste), grupos de classe média, dissidentes em São Paulo e Minas Gerais, e os tenentes revoltosos da década de 1920. A crise de 1929 foi o último prego no caixão do governo.

Vargas hesitou para assumir o papel e fez jogo duplo ou triplo com todos os envolvidos, numa narrativa que se lê como um romance de espionagem. Os personagens são fascinantes e Lira Neto apresenta jovens impetuosos que virariam líderes importantes do Brasil, como João Neves da Fontoura, Oswaldo Aranha, Luís Carlos Prestes.

Do ponto de vista ideológico, o retrato é de um Vargas cético diante do liberalismo e defensor de práticas oriundas do positivismo: um Estado forte e centralizador, capaz de agir com destaque na economia. Encampou as bandeiras de Assis Brasil e dos tenentes pelo voto secreto e por eleições limpas - mas deixou-as para trás quando tornou-se ditador. À espera dos próximos volumes, com a expectativa de que sejam tão bons quanto este.

7 comentários:

Renato Feltrin disse...

Maurício,

Confesso que dei uma folheada na livraria, mas não fui atraído pelo livro: achei o texto um tanto cansativo. Tentarei novamente.

Aliás, você viu a controvérsia sobre os dados que o autor usou no livro?

Abç.,
Renato Feltrin

Anônimo disse...

Quem acha que o Lula é uma figura polêmica, tem que conhecer a história do Getúlio. Só na minha família posso dar um exemplo: meu avô paterno, que Deus o tenha, o defendia ardorosamente; meus tios e primos o rejeitam completamente.

Ditador ou democrata, nacionalista ou liberal, conforme a conveniência. Antigamente políticos assim eram chamados de "raposas", hoje apelam a uma palavra alemã: realpolitik...

Maurício Santoro disse...

Salve, Renato.

Gostei bastante do texto, fluente. Não soube da controvérsia, vou procurar - aliás, me impressionou a pouca repercussão do livro, era de se esperar um debate muito mais intenso, dada a importância do Vargas.

Olá, Anônimo.

Na minha família foi parecido. E com certeza em milhões de outras.

abraços

Francisco Nixon disse...

Maurício,
Apesar de todos os seus defeitos, considero-o o melhor, especialmente, com relação à política externa.
Abc

zealfredo disse...

Caro professor,

Alguma coisa que pude ver acompanhando a Folha de São Paulo é que o livro se apropria de informações já publicadas, mas que andavam meio esquecidas.
O jornalista Juremir Machado da Silva do Correio do Povo (jornal aqui de Porto Alegre) faz crítica nesse sentido. Na década de 1970, o jornalista Fernando Jorge já havia publicado uma biografia de Getúlio, que me parece que é pouco conhecida e deve estar fora de catálogo. Este mesmo Juremir publicou uma biografia romanceada de Getúlio há alguns anos.
E Boris Fausto comentou que o livro não traz novas grandes revelações.

zealfredo disse...

Eu ainda não li, nem estou certo que lerei, mas, pela tua resenha, me parece que o mérito dessa obra seja mesmo ser uma obra de referência para consulta, sintetizando muito do que se conhecia, mas estava espalhado em obras diversas...
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Maurício Santoro disse...

Salve, Nixon.

Acho que é o presidente mais importante da história do Brasil, e um personagem histórico fascinante, em suas facetas positivas e negativas.

Caro Zealfredo,

Obrigado, irei me informar. Gostei muito do 1o volume e aprendi bastante com o livro, em especial sobre o Rio Grande do Sul na Velha República. Talvez sejam informações que os gaúchos já tenham.

Abraços