segunda-feira, 14 de maio de 2007

Cinzas do Norte



“A obediência cega ou a revolta”

Garimpei na feira do livro o romance “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum. Gostei muito – é sem dúvida um dos melhores da literatura brasileira contemporânea. Trata-se da história de uma revolta profunda, em meio à devastação que a ditadura militar executa na Amazônia.

O romance é narrado por Olavo, que conta sobre seu amigo Raimundo, filho de um dos empresários mais ricos de Manaus. Mundo, como é chamado o rapaz, é introvertido e tímido, sonha em se tornar artista plástico e enfrenta a fúria do pai, que deseja que ele assuma a todo custo os negócios da família, centrados na exportação de juta. Os núcleos desse mundo são o palacete que possuem na capital e uma imensa plantação à beira da ilha de Parinstins, a Vila Amazônia.

Olavo é uma espécie de “primo pobre” da família e cresce à sombra da dinastia. Seu tio Ranulfo, um boêmio meio rebelde, meio vagabundo, é o grande amor da mãe de Mundo, Alícia, uma mulher que está no centro de uma rede de teias de paixão, ciúme e intriga.

O romance começa em 1964, quando Olavo e Mundo se conhecem na escola e termina em 1985, com o fim da ditadura. A revolta de Mundo contra o pai e contra o que ele representa se torna cada vez mais dolorosa, com expulsões de colégios, surras e brigas intermináveis, que levam Mundo a fugir de Manaus e viver num semi-exílio no Rio de Janeiro, em Berlim e em Londres, tentando sem sucesso se estabelecer como artista. Simultaneamente, Olavo progride, mas de maneira medíocre, formando-se em Direito e trabalhando como advogado de porta de cadeia.

O contraponto aos amigos é Arana, um artista de talento duvidoso e oportunismo comercial que de mentor do jovem Mundo vira uma espécie de especialista em exotismos para turistas e para as empresas estrangeiras que se instalam na Amazônia, enquanto defende uma suposta “arte nativa autêntica” e zomba dos intentos do ex-discípulo em se vincular às vanguardas européias.

“Cinzas do Norte” é um romance amargo, da desilusão e do desencanto. O retrato da decadência de Manaus é impressionante, com a cidade se tornando um pólo inchado de miséria e a agroexportação servindo de fonte para negociatas entre o regime autoritário e seus capangas empresariais locais.

A excelente crítica de Vinícius Jatobá situa Hatoum como o “último grande modernista”, porque sua obra é “uma amorosa carta de despedida a um romance que vai se tornando estrangeiro ao gosto do público, aos desejos intranqüilos das novas vozes, e até à imagem que o Brasil quer ter de si mesmo“. Aliás, visitem seu blog, “Outra Babel”, repleto de suculentas resenhas sobre os autores que quero devorar quando terminar minha tese.

De fato, Hatoum segue a tradição dos “cronistas da casa assassinada”, como os chamou Sérgio Miceli, os romancistas que abordam a decadência das famílias de grandes proprietários rurais, que perdem espaço ou se modificam diante das transformações econômicas do Brasil do século XX.

4 comentários:

Idelber disse...

O Milton Hatoum é realmente extraordinário, Mauricio. Este ano, incluí o Relato de um certo oriente, em tradução ao inglês, num curso para iniciantes em literatura. Temi por um desastre, porque a prosa dele realmente é muito densa. Que nada! Foi um sucesso, adoraram. Cinzas no Norte é outra obra-prima. Agregue-se o fato de que o único entre os grandes escritores brasileiros a ter coragem de falar contra as atrocidades perpetradas por Israel. Grande figura, sem dúvida. Abraços,

Mauricio Santoro disse...

Grande Idelber,

também li muito elogios ao "Relato" e mais ainda a "Dois Irmãos". Com certeza irei atrás de outros romances dele, fiquei impressionado com sua capacidade de construir um universo e me arrastar para dentro dele.

Abraços

vinicius jatoba disse...

Maurício, obrigado pela generosidade de falar de minha crítica. Abs,

Mauricio Santoro disse...

Vinicius,

generosidade nada, é apenas constatação! Fiquei só chateado por saber do fim do seu blog, espero que você possa retomá-lo brevemente.

Abraços