terça-feira, 1 de maio de 2007

Memória e Democracia



Uma das coisas que mais me emocionaram na Argentina foi o modo como país cultiva a memória da resistência à ditadura militar de 1976-1983. Contraste com o Brasil. O desconhecimento da nossa própria história é chocante em todas as classes sociais e níveis de escolaridade e tem muito a ver com a fragilidade de certos aspectos da nossa democracia. Lembrar não é apenas um exercício intelectual, é uma forma de participação na vida coletiva, na experiência compartilhada de um povo. Na América Latina, a memória caminha ao lado da democracia, a recordação dos crimes cometidos pelas ditaduras militares é a garantia do “Nunca Mais”.

No domingo, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou em seu suplemento cultural um pequeno ensaio sobre memória e democracia escrito pela historiadora Janaína Telles e por mim. Tratei dos trechos relativos à Argentina, ao Chile e ao Uruguai, destacando o quanto o tema está presente nas artes e na própria cultura de massas – por exemplo, na telenovela argentina “Montecristo”, que adapta a trama de Alexandre Dumas para o cenário do terrorismo de Estado dos militares. Minha co-autora aborda a situação no Brasil, a partir de seu trabalho acadêmico e de sua trajetória pessoal como filha de presos políticos. Reproduzo o parágrafo inicial:

Está em curso na Argentina, no Chile e no Uruguai uma nova onda de valorização da memória histórica sobre as ditaduras militares dos anos 70 e 80. A discussão ultrapassou os círculos políticos e acadêmicos e alcançou, de modo contundente, o cotidiano e a cultura popular. O processo se insere em um quadro político mais amplo: a ascensão às presidências sul-americanas de governos de esquerda, nesta primeira década do século 21, e os debates sobre o aprofundamento da democracia. No Brasil, passado mais um “31 de março”, é de se perguntar: e nós?

Há poucos dias dei palestra sobre “Sociedade Civil e Direitos Humanos no Mercosul” na semana de relações internacionais do Centro Universitário La Salle, em Niterói. Falei sobre vários aspectos do tema, mas me chamou a atenção como a maioria das perguntas foi a respeito da ditadura militar na Argentina – por coincidência foi na noite em que se decretou a prisão perpétua do general Videla. Os estudantes queriam saber porque o movimento da memória é tão forte no país vizinho.

Causa alguma surpresa entre os hermanos as posturas brasileiras, sobretudo do nosso governo, de jogar a poeira para debaixo do tapete e evitar falar sobre determinados temas. Quando Pinochet morreu, Lula chegou até a elogiar a ditadura militar do Brasil, que não teria sido tão ruim quanto a chilena.

Ora, minha senhoria era uma exilada do regime de Pinochet e comentou comigo as declarações do nosso presidente: “Sei que você me disse que várias pessoas de classe média têm preconceito contra Lula por ele não ter cursado a universidade, mas opiniões como essa mostram que lhe falta formação política”. Talvez, mas quem sabe fosse só oportunismo político, dizer aos militares brasileiros que não precisavam temer investigações sobre o terrorismo de Estado que cometeram entre 1964-1984, ao contrário de seus colegas de Cone Sul, que viram sua impunidade desaparecer.

Imagem: La Memoria, pintura do artista argentino Luis Felipe Noé.

5 comentários:

patricio iglesias disse...

Me chama muito a atençäo que, umos 10 anos atras, o mais lembrado da ditadura era a guerra das Malvinas e que agora säo as desapariçöes. Sem dúvidas, o ascenso de Kirchner colaborou com o debate sobre o terrorismo de estado nos '70, mas tambem há toda uma nova generaçäo no poder; quem era adolescente nissa época e perdiu a amigos ou estivo detenido agora lidera seitores no governo, nos médios, etc.
Espero que os "sureños" podamos lhes servir como exemplo a vocês, brasileiros, que sem dúvidas däo a nosso pais um modelo de diplomácia e de pensamento a longo prazo.
Abraços

tiago disse...

de fato, em diferentes esferas da sociedade brasileira, o cultivo da memória não é exatamente viçoso.

hoje, por exemplo, dia mundial da liberdade de imprensa, a Associação Nacional de Jornalistas publicou um anúncio de meia página no primeiro caderno de O Globo que traz o texto "dia de se revirar no túmulo" sob as fotos de Hitler, Mao, Stalin, Mussolini, Pinochet e Franco. Em letras miúdas, o anúncio explica a data e etc.

Me lembrei desse post quando vi isso. A ANJ, pelo visto, supõe que Medici, Geisel, Golbery e quetais feras brasileiras não fazem parte do clube de repressores da imprensa. E esses caras, que dão a entender que aqui não houve barbarismo de Estado ou censura, são os mesmos que ficam histéricos com o debate sobre o conselho nacional de jornalismo.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

A memória no Brasil é muito mais frágil do que na Argentina. Eventos como os que você participou na sua escola simplesmente não existem por aqui.

Não lembro se cheguei a comentar com você da minha admiração pelas ações da diplomacia argentina com relação aos direitos humanos, em especial a criação do Conselho Consultivo da Sociedade Civil, junto à chancelaria.

É muito mais avançado do que qualquer coisa que tenhamos no Brasil, embora eu concorde que nosso Ministério das Relações Exteriores tenha muito o que ensinar em vários aspectos.

Caro Tiago,

você tirou as palavras da minha boca, pensei exatamente o mesmo ao ler o anúncio. Cadê as ameaças à liberdade de expressão dentro do Brasil?

Aliás, hoje eu conversei com um amigo que pesquisa a reação da imprensa ao golpe militar de 1964 e ele me disse que foi muito difícil conseguir os editoriais do Estadão naquela época, o jornal não queria liberá-los, fez várias perguntas.

Pelo menos hoje eles publicam meu artigo contra as ditaduras. O tempo passa e as coisas mudam. Mesmo que devagar.

Abraços

Sergio Leo disse...

É mesmo curioso, Maurício, que, no Brasil, ao contrário, venha ocorrendo uma valorização dos aspectos positivos _ e os há _ da gestão dos militares; coisas como a política industrial de Geisel, que criou uma diversificada indústria de base, e condições para evitar um destroçamento da estrutura industrial brasileira, como houve na Argentina.

Acho que a relativamente mais branda atuação do aparelho repressivo, que limitou o alcance das atrocidades cometidas durante a ditadura brasileira, contribuem para que até alguns ex-presos políticos, como o Lula, tendam a ser condescendentes com o passado. Ao contrário do que ocorreu nos vizinhos do mercosul, a saída dos militares foi administrada, por eles próprios, e isso, acho, explica alguma coisa.

Essa revisão seletiva da herança de uma ditadura também ocorreu, de certa forma,no passado, com Vargas. Nos dois casos, a comparação com os governos medíocres ou corruptos que se seguiram ás ditaduras ajudaram a formar uma imagem de estadistas, calcadas nas qualidades dos ditadores e na amnésia sobre seus muitos defeitos...

Mauricio Santoro disse...

Salve, Sergio.

Sem dúvida a transição no Brasil foi muito negociada, bem mais do que na Argentina, onde a ditadura foi um desastre total.

O interessante é que no Chile a transição foi semelhante (embora o regime de lá tenha sido mais violento) e a força da memória é bem maior. Talvez por que a ditadura tenha sido bem mais personalista, centrada na figura de Pinochet?

Além da questão da memória, não é por acaso que o controle civil sobre os militares está mais consolidado nos vizinhos do Cone Sul do que entre nós. Nosso Ministério da Defesa, por exemplo, é pouco mais do que uma casca vazia para os comandos militares, que continuam autônomos.

Abraços