sábado, 19 de maio de 2007

Entre os Irmãos



“Afinal, Maurício, qual é sua nacionalidade?”, me perguntava o colega paraguaio. Dei uma risada porque a pergunta reflete algo que tenho buscado: fugir dos limites estreitos impostos pelas fronteiras e pensar as questões internacionais de perspectiva mais ampla.

Ao longo das duas últimas semanas tive muito trabalho na organização e realização do seminário da pesquisa sobre juventude e integração sul-americana, minha principal atividade profissional neste ano. O encontro destes dias reuniu as equipes dos países do projeto, para discutir a metodologia do estudo, as situações que serão examinadas e o cronograma.

A sensação geral é a mesma que experimentei ao mergulhar na história argentina: muito do que eu julgava particular e exclusivo ao Brasil é uma realidade comum a maior parte dos países da América do Sul. Há variações locais e cada nação tem sua própria tradição de lutas políticas, mas o que nos une é muito mais forte do que aquilo que nos separa.

Desde o primeiro momento em que comecei a trabalhar na pesquisa, disse a meus colegas que nosso projeto não é simplesmente um estudo comparativo entre países como, digamos, China, Arábia Saudita e Alemanha. Abordamos a realidade social de nações que são vizinhas e estão engajadas num amplo processo de integração regional, portanto é necessário que sejamos capazes de dialogar com essa iniciativa e alimentá-la, fermentá-la.

Chamei a atenção para os espaços instituticionais existentes no Mercosul que facilitam nossa tarefa: a Reunião Especializada em Juventude, o recém-criado Parlamento (e sua Comissão de Direitos Humanos) e os programas de treinamento para funcionários do bloco, que também iniciaram recentemente. Com todos os problemas, há um clima favorável ao entendimento com a sociedade civil por parte dos governos da região. É uma excelente oportunidade que pode não durar muito.

Para as próximas semanas, terei bastante trabalho. É preciso alterar os instrumentos metodológicos e documentos da pesquisa, para incorporar as sugestões que apareceram no seminário. Levantar dados e estatísticas dos governos nacionais, da Comissão Econômica da ONU para a América Latina e da Organização Iberoamericana de Juventude. Ler estudos especializados preparados pelos parceiros e supervisionar o trabalho de campo.

Lá para junho e julho devo cair novamente na estrada e fazer algumas viagens pelos países da pesquisa, para acompanhar as atividades dos parceiros e a preparação dos relatórios nacionais. Ainda não sei quais me caberão.

Além do seminário, outra coisa importante da semana foi a visita ao Brasil da minha orientadora na Argentina. Ela veio dar palestras no Rio de Janeiro e aproveitei para vê-la na PUC. Foi muito bom reencontrá-la e participar novamente de um debate com ela. Meu orientador brasileiro e eu a convidamos para estar na minha banca de defesa e ela foi extremamente gentil. Agora é preciso completar a tese, claro, mas o trabalho caminha bem.

O que me preocupou no debate da PUC foi que a discussão praticamente se restringiu a nós, professores. Os alunos pouco participaram e fizeram perguntas ruins. Isso contrastou com o papo depois da palestra, onde algumas das mestras da casa estimulavam os estudantes a se dedicarem às relações internacionais para ganharem uma perspectiva mais ampla do mundo, lembrando a eles que serão a elite brasileira de amanhã.

Tudo isso está certo, mas me causam apreensão as deficiências de formação dos alunos que chegam à universidade. Pouca cultura geral, problemas de interpretação e redação de textos, atitude provinciana em relação aos grandes temas da atualidade. O retrato da classe média brasileira acuada diante de transformações sociais que não consegue compreender, e sem bagagem intelectual para romper sua bolha de isolamento.

5 comentários:

Bruno Ricardo disse...

só uma pequena correção, mauricio. o nome do diretor de H56 é Silvio DA-RIN.

vc leu o artigo do Ratton defendendo batismo de sangue? se nao, e quiser ler: www.cantodoinacio.blogspot.com

Patricio Iglesias disse...

A futura élite brasileira? Há lá minorias acadêmicas que considerem ser parte duma "aristocrácia"? Eu quase nunca vi uma pessoa que disse ser parte duma élite ou que crea ver num jovem capaz ao futuro do pais. Você viu no Di Tella ou na Argentina em geral sentimentos assim?
Um abraço

Mauricio Santoro disse...

Salve, Bruno.

Obrigado pela correção do nome do Da-Rin e pela indicação do blog do Inácio Araújo, que eu ainda não conhecia. Os textos e os debates de lá estão ótimos, vai direto para a coluna dos favoritos.

Caro Patricio,

nas universidades brasileiras existe, acredite, essa cultura de que "somos a elite do país". Isso porque algo em torno de 10% dos jovens brasileiros chegam ao ensino superior. Ao que me consta, na Argentina a proporção é quatro vezes maior.

De fato, não vi em nenhum lugar no seu país, nem na Di Tella a pretenção a ser parte de uma elite intelectual. O máximo que ouvi foi a frase "O Barrio Norte não é a Argentina", mas era mais a expressão de uma elite social e econômica.

Acho que isso se explica pelo fato de que na Argentina, a qualidade da educação ainda é muito alta, apesar de todas as crises. Você não imagina o quanto ela é ruim no Brasil.

Abraços

Paulo Gontijo disse...

Maurício meu caro,
Quanto tempo.
Tenho tido algum contato com diferentes movimentos jovens e o que me impressiona é a atitude "cheia de si mesma". Desde jovens secundaristas "engajados" a militantes dew causas específicas vejo uma atitude desafiadora com pouca substância.
Abs

Mauricio Santoro disse...

Meu caro Paulo,

sabe aquelas pesquisas internacionais comparativas, que sempre indicam a educação brasileira nos últimos lugares? É claro que isso tem um impacto no modo como as pessoas se comportam, embora na minha experiência o desinteresse pelas questões públicas seja mais amplo do que a arrogância. Mas muitos dos meus amigos professores se queixam exatamente dos pontos que você mencionou.

Abraços