sexta-feira, 25 de maio de 2007

Istambul



Ela havia sido a capital de grandes impérios e por seus palácios que se estendem por dois continentes passaram os dignatários romanos, bizantinos, otomanos, cruzados em busca de Jerusalém, mercadores que sonhavam com as especiarias da Ásia, artistas atrás de aventuras exóticas no Oriente e militares para quem seus estreitos eram peça fundamental em guerras quentes e frias. Os gregos a chamavam Bizâncio, os romanos, Constantinopla. Os conquistadores otomanos adotaram a corruptela grega da expressão “na Cidade” - para eles, só uma pólis era digna do nome - e a nomearam Istambul. Ohran Pamuk, o escritor turco que recebeu o Nobel de literatura deste ano, a transformou no personagem principal de seu fascinante livro “Istambul: memória e cidade”.

Esta é uma obra cuja criatividade desafia as separações usuais entre os gêneros. Os capítulos misturam memórias de infância e adolescência (“Eu”, “A minha avó”, “Primeiro amor”, “Uma conversa com minha mãe”), comentários sobre o ambiente urbano (“Explorando o Bósforo”, “Ahmet Rasim e os outros colunistas da cidade”, “A turquificação de Constantinopla”) e ensaios a respeito dos escritores franceses que visitaram Istambul, como Flaubert, Nerval e Gautier.

O que une a miscelânea de textos é o tema da hüzün, a melancolia coletiva que os habitantes da cidade sentem por viverem o período de decadência de Istambul, quando ela não é mais o centro de um império multicontinental, e sim apenas mais uma metrópole do terceiro mundo, superpovoada, pobre, assolada pelo desemprego e pelas ruínas de um passado glorioso que se esfregam como ofensa aos moradores atuais, que não conseguem viver à altura de seus ancestrais.

A família Pamuk é parte da narrativa do declínio. À época do avô do escritor eram prósperos industriais, parte da elite de modos europeus da cidade. À medida que o menino Pamuk cresce, precisa lidar com a incompetência financeira do pai e do tio, com as constantes lamentações da mãe e com a avó que rege o clã como matriarca. Não faltam as cenas de humor, em particular com os esforços dos Pamuk para continuar a freqüentar a alta sociedade, ao mesmo tempo em que criticam a falta de cultura dos novos ricos.

Embora a saga familiar seja interessante, o que me motivou a ler “Istambul” foi o entusiasmo dos meus alunos com relação ao debate se a Turquia irá ou não entrar na União Européia. Um dos grandes temas do livro de Pamuk é exatamente o esforço frustrado da República turca de enterrar o passado otomano e abraçar a modernidade ocidental.

Com freqüência essa política de redefinir a identidade nacional pela ação do Estado culminou em perseguições e massacres das minorias étnicas e religiosas (armênios, gregos, curdos, judeus) fazendo com a que cidade perdesse seu caráter cosmopolita. A elite a qual pertence Pamuk adotou superficialmente os hábitos da Europa ou dos EUA, mas permanece a sensação de mal-estar e de inautenticidade, como se fossem atores mal-interpretando um papel.

A questão não é uma querela acadêmica ou um recurso poético, pois muitos dos maiores impedimentos à entrada da Turquia na UE vem das atrocidades do Estado contra as minoriais e das disputas políticas para reprimir o Islã – o Exército, guardião do secularismo da República, volta e meia intervém por meio de golpes ou intimidação para afastar políticos islâmicos.

Pamuk é um dos críticos dos desmandos dos governos turcos e por conta das ameaças de assassinato que sofreu, teve que deixar Istambul e hoje vive nos EUA. Imagino que imerso em hüzün e com saudades agridoces de sua pólis sem igual.

6 comentários:

Geraldo Zahran disse...

Maurício,

Não li o livro mas posso dar um depoimento pessoal. Até dois meses atrás concordaria com tudo que está escrito no seu texto, e não via perspectiva nenhuma da Turquia ser aceita na UE.

Até que passei duas semanas viajando por Istambul e pelo interior do país. E minha percepção mudou completamente. Istambul e Ankara são duas capitais européias (Ankara na verdade é até mais parecida com Washington). O país me pareceu realmente secular e moderno.

Sai de lá com a impressão que é totalmente possível o acesso a UE. Mesmo as cidades no interior do país não são diferentes do que cidades menores na Romênia ou na Bulgária, por exemplo.

As manifestações de milhares nas últimas semanas vieram da sociedade civil contra uma possível influência islâmica no poder executivo, e não foram orquestradas pelos militares.

Claro que o país tem problemas enormes para realmente fazer parte do UE, como a questão do Chipre e da minoria Curda. Mas de maneira geral o projeto iniciado pelos militares depois da guerra funcionou: secularização e modernização.

Mauricio Santoro disse...

Sou mais cético com relação à possibilidade de a Turquia ingressar na UE. A situação econômica e política é pior do que em qualquer país europeu, mesmo os mais instáveis como a Hungria.

Tomemos o caso de Pamuk. Ele é o protótipo do intelectual moderado, classe média alta, ocidentalizado. E está ameçado de morte pelos extremistas simplesmente por criticar o óbvio, como os massacres contra curdos e armênios. Com o prestígio do Nobel e tudo, teve que fugir do país. Você conhece caso semelhante nos países da UE?

Não tenho dúvidas de que a adesão à União seria uma grande ajuda para os grupos turcos que defendem o secularismo e os direitos humanos.

Mas como conciliar democracia, secularismo e o respeito à enorme parcela da população (talvez majoritária) que defende uma sociedade mais próxima ao Islã?

Em todo caso, gostaria muito de ouvir os detalhes sobre a sua viagem, espero que você escreva sobre ela no blog. Não consigo acessá-lo do trabalho, porque o filtro anti-pornografia barra o "PICAdeiro Brasil". É sério...

Abraços

Igor disse...

Maurício, meu caro,

Lá vem vc querer bagunçar minha listinha de leituras!! Istambul está aqui, esperando meu tempo se afrouxar para eu mergulhar em suas páginas.

Depois desse post, acho que vou furar a fila! Hahaha

Meus estudos estão tentando se estabilizar. Estou no TTa de novo, sem saber se fiz certo ou errado. São tantas coisas...

Tínhamos que sentar para trocar um pouco de impressões sobre a vida. Saudade de conversar com meu amigo Maurício! Até porque o tal do professor Maurício já virou só uma boa recordação....hahahahaha!

Abraço bem grande

Mauricio Santoro disse...

Igor, meu caro.

O Daniel me convenceu esta semana a lecionar para a TTA, sabe Deus em que tempo, de modo que voltaremos a conviver em sala de aula.

Aceitei o convite da TTA basicamente pela idéia de implantar algumas medidas novas na turma, como o uso intensivo da literatura e do cinema como instrumentos de ensino.

Pode tirar o Istambul da cabeceira porque pretendo usar o livro para discutir a questão da Turquia na UE.

Aproveito para te pedir um favor: você poderia me enviar seu ensaio sobre o casamento de d. Pedro com a princesa Leopoldina?

Comentei o texto com os alunos da Candido deste ano e gostaria de repassar seu ensaio para eles, como um exemplo de como um trabalho da pós pode ser criativo e interessante.

Abraços

Anônimo disse...

Coincidencia ou sincronicidsde, estou em Istambull. Escrevi isso, espero que goste,

abc

Helio

ISTAMBLUES

Borges dizia que Buenos Aires é a capital de um império que nunca existiu. O que dizer de Istambul, capital de três que existiram por quase dois mil anos.

A sensação é aquela de outros sítios, como Peru e México, que ainda choram o leite derramado de seus respectivos impérios, só que elevada ao cubo, por conta do senso de fatalidade próprio dos muçulmanos e por um obvio sentimento de inferioridade em relação às metrópoles européias, que a cidade tenta copiar desde que o onipresente Ataturk fundou a partir das cinzas do impeio Otomano, a pequena e cidentalizada Republica da Turquia. Alias o fez no dia do seu aniversario, o que prova vez mais que o combustível da historia é mesmo o ego humano.

Kemal Mustafá, a.k.a Ataturk,literalmente o pai da patria, cujos retratos e cartazes brotam das paredes e as estatuas do chão, é uma mistura de Abraham Lincoln, George Washington, De Gaulle e o Zequinha das balas (aparece nas fotos nadando, beijando crianças, passando as tropas em revista, tirando leite de cabras, em roupas de caça, enfim,) com uma colherada de Stálin, pelo trato que dispensou as minorias que não aderiram a seu projeto ocidentalizante. Fechou os haréns e conventos dos dervixes, proibiu o uso de roupas típicas e línguas exóticas, obrigou as pessoas a usarem sobrenomes. Dá nome a praticamente tudo por aqui, e me faz lembrar a Aracaju das minhas férias na infância, onde tudo se chamava Lourival Batista.

Apesar de todo culto a personalidade ser condenavel - embora diferentemente de Saddan, Stálin ou o tiranete Chaves, os retratos e estatuas aqui não são instalados por ordem do retratado, já que ele perdeu a voz ativa em 1928 - reconheço uma atitude valida do governo, que, ao promover sua figura à exaustão, exalta o caráter secular do atual regime as vésperas de uma eleição ainda incerta que pode, em tese, levar a Turquia pelo caminho do Irã.

Alias esse e o dilema dos paises muçulmanos que ainda se mantém razoavelmente democráticos (existe outro alem da Turquia?), pois eleições livres e limpas trarão cedo ou tarde os radicais islâmicos ao poder, dado a bomba relógio demográfica. O pendulo nesses lugares sempre vai das ditaduras militares ao Islã mais cruel. Bush tentou, parece que em vão, quebrar esse ciclo e criar uma terceira via, não importa se com mais ou más intenções.

Israel, o único enclave democrático do Oriente Médio, também corre o mesmo risco já que os judeus ortodoxos de Jerusalém e dos assentamentos se reproduzem quase que por divisão celular, enquanto os habitantes americanizados de Haifa e Tel-aviv cultivam um acertado planejamento familiar. Parece que o futuro da região (e da religião) é mesmo tão negro quanto as burcas islâmicas e as roupas dos ortodoxos.

A primeira coisa que impressiona quando se sai do Aeroporto (Ataturk, naturalmente) é a quantidade de navios de todos os tipos e tamanhos esperando na fila para atravessar o Bósforo. Aqui ninguém se importa em virar uma esquina e dar de cara com um super cargueiro. As pessoa que moram a margem do canal, estao acostumadas a servir cha aos tripulantes das sacada.

A segunda coisa é a silhueta branca e preta da cidade, grandiosa e melancólica, capital de império nenhum, se equilibrando por sobre a ruína de vários. Quem quiser saber do que falo, pare de ler aqui e corra comprar Istambul do Nobel Orhan Pamuk que define melhor do que eu jamais poderia, essa atmosfera que impregna a cidade, que chama de harzun. Arrisco–me no máximo a uma traduçao pessoal e idiossincratica, Istamblues. Coincidência, ou sincronicidade como quer Paula, Pamuk é a palavra turca para algodão.

Passar pelas revistas e detectores de metais nos aeroportos, o que Hitckens chama de prestar tributo a Bin Ladem, aqui começa na porta da rua. Não importa se você vai buscar um passageiro ou tomar um café no saguão, tem de se prestar ao mesmo calvário de quem vai voar. E quem se hospeda em um hotel americano, como eu, é obrigado a ter o porta malas do táxi aberto e antes de entrar no lobby, passar de novo pelo detector. Como poderia ser diferente num país que faz fronteira a oeste com a Grécia, o berço da civilização ocidental, e a leste com seu tumulo, a dupla Irã /Iraque.
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Como não ser muitos numa cidade que se quer européia mas onde um dos bairros mais populosos fica na Ásia ? Como lidar com o fato de ter sido capital dos dois impérios que fundamentaram as civilizações antagônicas do presente? Apesar de noventa e tantos por cento da população ser muçulmana, e boa parte nostalgica do período otomano, se vem retratos de Ataturk o Reformador, em lugares onde fica claro que é por iniciativa das pessoas e não das autoridades somente. Muita gente que atender o chamamento para as quatro ou cinco rezas diárias, que nos dias anteriores ao relógio funcionavam como apito de fabrica, luta para manter a divisão entre estado e religião e participa das manifestações para que a Turquia seja aceita na zona do Euro. Só não sabem como construir uma sociedade que se encaixe na democrática e liberal Europa a que pretende se incorporar (a Rússia é a exceção), pois mesmo o viés laico dessa montagem social é autoritário e preconceituoso. Dias atrás o site You Tube foi tirado do ar por que alguém postou um vídeo onde se insinua certa homossexualidade no mito Ataturk e nos turcos em geral.

Meu guia na Hagia Sofia tocou no caráter iconoclasta da religião muçulmana, e mostrando que nas mesquitas, antes catedrais, os belos mosaicos bizantinos não foram arrancados, mas pintados por cima. Aquela historia de que só Alah cria, e que é blasfêmia representar, mesmo que de forma elogiosa os profetas. Mas de qualquer forma isso da a medida de como o Islã só involuiu e se radicalizou de lá pra cá. Hoje, nas mesmas circunstâncias, eles explodiriam tudo sem pensar, remember os Talibã e as estatuas dos budas gigantes. Cem anos depois da queda de Constantinopla, os espanhóis não deixaram pedra virada em Tetchuaclan ou Cuzco, mas aqui sob o julgo de Mehmet II, o Conquistador da cidade e na Jerusalém tomada aos cruzados por Saladino, se soube manter certa liberdade de culto. Alguns dos mosaicos foram recuperados, mas com os olhos invariavelmente riscados.

Curioso como as civilizações trocaram de papeis, a partir da Renascença. Apesar dos Cortezes e Torquemadas de ontem e dos Ratzingers de hoje, o sucesso ocidental é fruto da tolerância cristã, mesmo em paises da periferia, como o Br. Nos nada liberais anos 70, o Jaguar fez um cartum clássico que mostrava um dialogo entre Cristo e Maria Madalena, onde Ele da cruz diz - agora não Maria, eu estou pregado.

Ninguem foi crucificado por isso.

A grande ironia é que Istambul e não Jerusalém ou Roma é o verdadeiro nascedouro do cristianismo, o divisor de águas entre a seita secreta de poucos e a religião oficial de Roma. Constantino I tornou o império romano cristão logo depois de fundar a cidade. Mil anos mais tarde já no período Bizantino, outro Constantino - o décimo quarto - a perdeu para os muçulmanos, que a época detinham a tecnologia das armas.

Muito antes da própria fundação da cidade, a região era alvo de cobiça de todo o mundo conhecido. Fica próxima ao Helisponto, onde os gregos cruzavam para atacar os persas e vice e versa.

Quem a domina, controla o acesso ao canal do Bosforo, que foi, é e sempre será a único saída do Mar Negro - na verdade um lagão. Romênia, Bulgária e Ukrania assim como o sul da Rússia, transbordando gás e petróleo só chegam ao Mediterrâneo, cruzando Istambul.

O Império Otomano teve seu fim decretado quando da derrota da Alemanha, sua aliada histórica, na Guerra I. Tanto melhor pois em um outro contexto, poderia ter dado a Hitler todo o petróleo do mundo.

Depois da Guerra II , o Império Soviético teria dado o bigode de Stalin para ter o Bosforo, e só uma estratégica base de OTAN (leia-se USA) os desanimou.

Os romanos possuíam numa das praças próximas a belíssima cisterna subterrânea, um marco zero de pedra que ainda esta lá, a partir do qual mediam as distancias do mundo.

Não era à toa.

Anônimo disse...

necessario verificar:)