terça-feira, 1 de julho de 2008

A História Oficial



En el pais del no me acuerdo
Doy tres pasitos y me pierdo.
Un pasito para alli,
no recuerdo si lo di.
Un pasito para allá
!Ay, que miedo que me da!

Maria Elena Walsh

Há muitos anos ouvia falar de “A História Oficial” como um marco na discussão sobre os direitos humanos na Argentina, e também como o único filme latino-americano a ganhar o Oscar de melhor produção estrangeira. No entanto, só no último domingo assisti a ele. Havia comprado o DVD em Buenos Aires, movido mais pela curiosidade, não imaginava que iria ver uma obra-prima, um roteiro magistral da primeira à última cena, escrito pelo diretor Luiz Puenzo e por Aida Bortnik e embalado por soberbas atuações do casal de protagonistas, Norma Aleandro e Hector Alterio.

“A História Oficial” foi lançada no já distante 1984, e é ambientado em 1983, na transição da ditadura para a democracia. A desastrosa guerra das Malvinas acabou, o regime militar vive sua agonia, os jornais e as ruas estão repletos de manifestações e denúncias e os exilados começam a voltar. Nesse cenário turbulento, Alicia é uma mulher de meia-idade, de alta classe média, casada com o diretor de uma empresa próxima à cúpula das Forças Armadas, que segue uma rotina pacata e conservadora, concentrada em cuidar de sua adorável filha de cinco anos e dar aulas de história argentina para jovens inquietos e questionadores numa escola secundária.

O filme abre com os alunos reunidos no pátio do colégio, cantando o hino argentino, que conclama a todos a ouvir o brado de liberdade que vem do Prata. Em seguida, Alicia diz aos estudantes que “a história é a memória dos povos”. Mas em sala de aula e em sua rotina privada, ela sempre acatou sem questionar a versão oficial, e fechou os olhos para o turbilhão que envolveu seu país. Essa aparente tranqüilidade começa a ser abalada quando se reencontra com uma amiga de juventude, que retorna do exílio europeu, e lhe conta como foi torturada, e como havia mulheres que tinham seus filhos roubados no cativeiro. Alicia é estéril e adotou sua filha, sem conhecer os pais biológicos da menina. Ela começa a desconfiar que a criança pode ter sido seqüestrada de militantes políticos e a dúvida a levará, finalmente, a pensar nos silêncios e cumplicidades que teceu ao seu redor durante a ditadura e ter um envolvimento relutante com as Avós da Praça de Maio.



Alicia é conservadora, politica e socialmente, e contrasta com o estilo rebelde do colega que leciona literatura. Os estudantes a provocam e uma das melhores cenas é uma discussão sobre o destino de Mariano Moreno, um dos líderes da independência argentina. Alicia alega que ele morreu de causas naturais, os jovens dizem que foi envenenado por seus ideais libertários. Quando ela nega a hipótese, na aula seguinte os alunos colam recortes de jornal que falam dos desaparecidos da ditadura. De fato, Felipe Pigna, um historiador argentino contemporâneo, dedicou seu popularíssimo Los Mitos de la Historia Argentina a “todos os patriotas que, desde os tempos de Mariano Moreno, têm sido atirados ao mar, assassinados, e enterrados em valas comuns, no vão intento de fazê-los calar”. De arrepiar.

Outro excelente momento é o tenso almoço na casa da família do marido. O sogro é um velho imigrante espanhol, anarquista, que sobrevive de uma oficina de fundo de quintal que toca com o caçula: “O país desmoronou, só quem prosperou foram os filhos da puta, os cúmplices e meu filho mais velho”. Que lhe responde que a guerra civil espanhola acabou e que “vocês [a esquerda] perderam”. Mas a corrupção e os negócios escusos em que se envolveu pesam como ameaça sob sua vida de conforto.

O roteiro primoroso de “A História Oficial” mistura política e vida privada com maestria. Parte da habilidade desta história está no fato de não dar lições acabadas ao espectador. O dilema de Alicia com relação ao que fazer com sua filha termina em aberto, assim como a Argentina se perguntava naquele momento em como seguir vivendo com as lembranças tão dolorosas de seus conflitos.

Posso imaginar o nível de catarse que “A História Oficial” provocou quando foi lançado, e finalmente trouxe à luz um debate sofrido que apenas se insinuava entre sussurros, obtendo reconhecimento internacional imediato com prêmios (Oscar, Globo de Ouro, Cannes, Berlim) para a obra, o roteiro e a atuação desta grande dama das artes cênicas argentinas, Norma Aleandro. A maior prova da alta qualidade do filme é que seu impacto emocional continua avassalador depois de quase 25 anos, com tudo o que avançamos na América Latina com relação a consolidar a democracia e recuperar a memória dos anos de ditadura.



Coincidentemente, na semana passada vivi três situações nas quais as questões suscitadas pelo filme estão presentes, e como! Uma foi minha reunião no Ministério do Desenvolvimento Social da Argentina, numa sala decorada com fotos das Mães da Praça de Maio e dedicada a reuniões com elas. Um dos funcionários me contou, emocionado, que é filho de desaparecidos, e que teve sua verdadeira identidade recuperada graças ao trabalho das Avós. Pouco depois foi o Dia Internacional contra a Tortura e uma das minhas colegas de trabalho, ex-presa política, foi homenageada em Brasília, com o julgamento de seu caso pela Comissão de Mortos e de Desaparecidos. Em cerimônia tocante, ela narrou os suplícios que sofreu e o Estado brasileiro lhe pediu desculpas, oficialmente. Simultaneamente, a revista Carta Capital deu matéria de capa à situação de um torturador que, entre outros crimes, assassinou o irmão de outra de minhas colegas.

Um dos personagens do filme discute com a professora e diz que a verdadeira história não é aquela que está nos livros didáticos, que muitas vezes são escritos pelos assassinos. Ele provoca a docente a mergulhar na vida, onde existe algo de esquivo, sombrio e infinitamente precioso que precisa ser desvelado e trazido para a luz, para fazer parte da memória dos povos.

6 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
Exelente, como sempre. Ainda näo vi o filme, mas espero ve-lo em breve.
A propósito, e talvez um pouco pessoal, Você chega lembrar algo da ditadura no Brasil? Aunque näo creia, uma das minhas mais antigas lembranças é a trágica morte do seu compatriota Ayrton Senna.
Saludos!

Su Khalil disse...

Olá Mauricio!

Realmente, nesses poucos meses em que estou morando em Buenos Aires, pude notar que esse ainda é um tema muito fresco e presente na memória de todos. Até pq seus efeitos ainda se fazem sentir em nossa geração.

Conforme conversamos quando você esteve aqui, não é incomum que surja o assunto da ditadura, das torturas e do desaparecimento de pessoas no dia-a-dia bonaerense, pelo contrário. Vc sempre conhece alguém que teve um parente desaparecido, que tenha estado exilado do país durante a ditadura ou que possua alguma história (fatalmente trágica) para contar sobre essa época, ou vê um mural com fotos de desaparecidos, como na UBA.

Uma amiga com quem gosto muito de conversar é a antropóloga forense de quem te falei. O trabalho que é realizado aqui tem sido muito importante e muitos filhos de desaparecidos políticos já foram localizados, embora esse número muito provavelmente esteja bem distante do total real de casos.

Um filme e um documentário que vi recentemente e que recomendo são: Cautiva, que trata sobre a história de uma adolescente que descobre da pior maneira possível ser filha de desaparecidos políticos (http://www.cinenacional.com/peliculas/index.php?pelicula=3193), e Trelew, que trata sobre a tentativa de fuga de presos políticos da Penitenciária de Rawson e o massacre que se passou (http://www.cineismo.com.ar/criticas/trelew.htm).

Beijos!

Mauricio Santoro disse...

Hola, Patricio.

Eu tinha apenas 6 anos quando acabou a ditadura militar brasileira, e não tenho lembranças da época, porque minha família não era envolvida com política. Ainda assim, me recordo do dia em que morreu o presidente eleito Tancredo Neves, algumas semanas depois do reestabelecimento da democracia.

Olá, Su.

Sim, é uma memória muito mais presente, mas também devido à violência na Argentina ter sido bem mais elevada, e ainda por cima a questão das Malvinas...

Abraços

Patricio Iglesias disse...

Sim, é verdade que em Buenos Aires é muito comum que todos falemos sobre o tema. Mas no interior é distinto; säo mais conservadores e ainda hoje, com todas as investigaçöes sobre a época, é comum que digam "Ah, sí, pero los desaparecidos no eran ningunos santos", "Habrá habido excesos, pero lo de la guerrilla era insostenible y había que hacer algo", "Los desaparecidos no son tantos como dicen y por acá hubo muy pocos" e coisas assim.
Abraços!

Guilherme disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme disse...

O filme é maravilhoso, Maurício! Eu nunca tinha ouvido falar dele até vê-lo à venda em uma banca de jornal, aqui mesmo no Rio, por R$ 10. Pelo tema, com esse preço, achei que valia a pena arriscar. O filme é perfeito, emocionnte, contundente. Está na minha listinha de filmes preferidos no Orkut, hehehe. 8o)
Abração