quinta-feira, 17 de julho de 2008

Rio das Flores



O primeiro romance do escritor Miguel Sousa Tavares, “Equador”, virou best seller traduzido para dez línguas, ao contar uma trágica história de amor tendo como pano de fundo disputas sobre comércio internacional e direitos humanos na África, nos anos finais da monarquia em Portugal. Numa das viagens de divulgação do livro, um piloto da TAP contou ao romancista a história do avô, que havia viajado ao Brasil no dirigível Hindenburg e comprado uma fazenda de café. A cena incendiou a imaginação do artista e serviu de inspiração para “Rio das Flores”, uma saga familiar ambientada na época da ascensão do nazi-fascismo, com a ação entre Portugal, Brasil e Espanha, além de passagens na Alemanha e na França.

A nova obra não é tão boa quanto “Equador”, mas ainda assim é um trabalho que impressiona e se destaca pela alta qualidade. O centro do romance é a rejeição de um grande proprietário rural do sul de Portugal, Diogo Ribera Flores, ao regime ditatorial que se consolida em torno do Estado Novo de Salazar. Vendo a liberdade crescentemente cerceada na Europa, Diogo se encanta cada vez mais com o Brasil, ainda que perceba que Getúlio Vargas também está em vias de instalar seu próprio Estado Novo.

Ao redor de Diogo gravitam alguns personagens que formam o núcleo do clã dos Ribera Flores, e que administram a propriedade da família. O mais importante é Pedro, seu irmão, que embora lhe seja muito próximo tem opiniões políticas opostas e se torna um ardoroso defensor dos fascismos, chegando a lutar na guerra civil espanhola no lado de Franco – aliás, um dos melhores capítulos do livro é a narrativa de sua participação no conflito.

Diogo, o intelectual liberal e progressista insatisfeito com os horizontes mesquinhos de seu cotidiano, tem muito em comum com o protagonista de “Equador”, Luís Bernardo. Mas este era arrastado para a ação por uma história de amor que lhe rendia os momentos mais trágicos, ainda que mais significativos, de sua vida. Diogo não tem a mesma urgência. Despreza Salazar, mas é tão rico e influente que pode se dar ao luxo de criticar o regime e até bater boca com a polícia política. Ao mesmo tempo, esse é o limite do que ele está disposto a fazer para se opor à ditadura. Ele nunca faz nada concreto contra o regime, a não ser ajudar amigos que estão com problemas com a lei.

O mais interessante para o leitor brasileiro é o pano de fundo histórico do romance, abordando um Portugal que pouco conhecemos deste lado do Atlântico – por nossos livros escolares, parece que a vida lusitana acabou em 1822, com a independência desta colônia. Sousa Tavares toca em pontos que me interessam bastante, como a cumplicidade e a acomodação dos intelectuais portugueses com Salazar – incluindo o mestre dos mestres Fernando Pessoa – e o equilíbrio diplomático precário que Portugal estabeleceu entre a velha “aliança inglesa” e a postura para lá de simpática do regime salazarista com o Eixo nazi-fascista e a Espanha de Franco.

A parte brasileira do romance, infelizmente, decepciona. Em grande medida o que aparece no livro é um Brasil de clichês turísticos de cartão-postal, como o Copacabana Palace, as fazendas de cafés e, naturalmente, a mulata sensual que enlouquece o herói português. Também avalio que ele interpretou mal o regime de Getúlio Vargas, vendo no Estado Novo daqui uma réplica do modelo lusitano. Embora isso possa se justificar no que diz respeito à repressão das liberdades civis e políticas, deixa de lado o amplo escopo de reformas sociais e econômicas que lançaram o Brasil no caminho de se tornar uma potência industrial.

4 comentários:

W disse...

Oi Mauricio!

Uma amiga me indicou o seu blog e eu adorei. Parabéns!
Fiquei mto curiosa para ler este livro pois é ambientado durante o Estado Novo. Fiz minha monografia sobre a p.e.p. do Estado Novo até a entrada de Portugal na CEE. Realmente nos livros escolares parece que a vida lusitana termina em 1822. A Revolução dos Cravos é pouco discutida.

Bjs

Mauricio Santoro disse...

Bem-vinda, W.

A Revolução dos Cravos é um ótimo exemplo do nosso desconhecimento da história portuguesa contemporânea. Basta dizer que o melhor livro disponível no Brasil sobre o tema foi escrito por um americano, é "O Império Derrotado", de Kenneth Maxwell.

Abraços

W disse...

Eu usei "O Império Derrotado" na minha monografia (aliás meu orientador é um amigo seu).

Bjs

Mauricio Santoro disse...

Cara W,

os professsores de relações internacionais, no Rio, somos uma maçonaria reduzida, não muito além de João Daniel, Bruno, Oscar, Fabiano, Paulo e este que vos escreve.

Abraços