sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A Canção de Le Carré



Tenho uma queda por romances de espionagem e no gênero meu autor favorito é John Le Carré, que escreveu o melhor do estilo (“O Espião que Saiu do Frio”), uma das mais interessantes variantes sobre o tema da traição (“Tinker Tailor Solider Spy”, ou, como foi batizado no Brasil, “O Espião que Sabia Demais”) e tem produzido ótimos livros sobre o mundo da inteligência no pós-Guerra Fria, no quais se destaca a visão cética de uma era sem ideais, ameaçada por paranóia, ganância e cinismo (“O Jardineiro Fiel”, “Amigos Absolutos”). Seu mais recente livro acabou de ser publicado na Europa: A Most Wanted Man, crítica às torturas e ao programa de “rendições” da CIA, a Operação Condor destes tempos de 11 de setembro. Enquanto o romance não chega ao Brasil, fico com seu penúltimo, recém-lançado por aqui: “O Canto da Missão”, sobre a guerra na Repúplica Democrática do Congo.

Os fãs de Le Carré encontramos nesse livro suas marcas características: a extrema ambigüidade do herói, uma mistura de idealismo, ingenuidade e excitação do protagonista ao se envolver com o mundo do serviço secreto, uma sexualidade conflituosa, que encontra sua redenção no relacionamento com uma mulher de classe social mais baixa do que a do herói, e que o arrasta para o compromisso com uma causa social, ou simplesmente para reavaliar suas atitudes diante da vida.



O romance é narrado por Bruno Salvador, o filho bastardo de um missionário irlandês no Congo, que se tornou um renomado intérprete nas diversas línguas faladas no leste daquele imenso país. Seus talentos raros o tornaram muito requisitado pelas grandes empresas mineradoras que operam na região e ele acaba recrutado pelo serviço secreto britânico para um trabalho numa conferência de delicadas negociações entre chefes da guerra congoleses e um conglomerado empresarial, interessados num acordo político que permita a exploração dos recursos naturais da área e elimine concorrentes indesejados da jogada. À medida que prosseguem os diálogos, Bruno começa a questionar a moralidade da trama.

Não conto mais para não estragar as surpresas de eventuais leitores, adianto apenas que Le Carré construiu personagens extremamente verossímeis para retratar a pior tragédia humanitária do nosso tempo. Esqueça Iraque, Afeganistão ou mesmo Darfur. A guerra no Congo matou talvez quatro milhões de pessoas, em cerca de 15 anos. A maioria morreu de fome ou de doenças. Por coincidência, o conflito está novamente nas manchetes, agora que o líder rebelde Laurent Nkunda ameaça a cidade de Goma, principal abrigo dos refugiados dos massacres congoleses.



O conflito no Congo começou em função do genocídio na vizinha Ruanda. Os líderes hutus que haviam perpretado aquela atrocidade fugiram para as terras congolesas e seus inimigos tutsis levaram a guerra até eles. As batalhas se juntaram ao contexto mais amplo de colapso da ditadura de Mobutu, que governava o país desde a década de 1960. O poder central se fragmentou em dezenas de etnias rivais e os países vizinhos – Ruanda, Uganda, Angola e Zimbábue – intervieram militarmente a pretexto de manter a paz, mas na prática saqueando os recursos naturais congoleses. Não é à toa que o conflito vem sendo chamado de “a primeira guerra mundial da África”.

O Congo tem a maior missão de paz da ONU em campo atualmente, com cerca de 16 mil soldados. O número pode parecer impressionante, mas é irrisório diante de um território do tamanho da Europa Ocidental. Os capacetes azuis recebem um tratamento bastante hostil no romance de Le Carré, seu consolo é que o mesmo retrato é aplicado pelo escritor a todos os protagonistas desta guerra sem heróis. Ainda assim, Le Carré consegue encontrar esperança, a partir das expectativas e ações das pessoas comuns. Ao fim das contas, um olhar mais ameno que em seus últimos livros.

5 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

" (...)e tem produzido ótimos livros sobre o mundo da inteligência no pós-Guerra Fria, no quais se destaca a visão cética de uma era sem ideais, ameaçada por paranóia, ganância e cinismo (...)"
´
Bela crítica. Aliás, esse trecho acima reproduzido foi no alvo.

Miguel do Rosário disse...

oi santoro, uma leitora do meu blog, Vera Pereira, me sugeriu ler o seu blog, do qual gostei muito, tanto que vou até linkar no meu, com sua permissão. Também sou um leitor do Le Carré. Comecei com seu principal clássico, O Espião que Saiu do Frio, e li alguns outros. Comprei recentemente The Russian House, que ainda vou ler.

Grande abraço e boa sorte.
oleododiabo.blogspot.com

Marcelo disse...

Maurício, parece que nos nossos dias as piores tragédias humanitárias se fossem feito um ranking seria Dafur, seguido da Palestina. O Iraque e o Afeganistão apesar de tudo ainda existem regras humanitária.

Estranho é a falta de notícias ou um posicionamento mais forte da grande mídia que durante muito tempo pressionou os governos ocidentais a não se calassem contra esses descalabro, hoje não faz nada para impedir o apoio dos mesmos ao Sudão ou Israel, só não sei se é fruto da geopolítica atual ou pura simpátia por essas chacinas.

Marcelo

Mauricio Santoro disse...

Caros Hugo e Miguel,

Obrigado, realmente gosto muito do Le Carré. Torço para o novo romance dele chegue logo ao Brasil.

Salve, Marcelo.

Há poucos dias assisti a um debate na CNN em que ativistas africanos de Direitos Humanos criticavam muito a cobertura da imprensa à guerra no Congo, acusando-a de ser parcial aos rebeldes.

É muito difícil abordar esses conflitos de maneira objetiva, por incrível que pareça às vezes a literatura e o cinenma se saem melhor.

Abraços

o morto disse...

engraçado, moro em brasilia desde sempre e nunca pensei neste céu como um mar, mas você tem razão. um mar carregado com as chuvas de novembro...

também adoro os livros de john le carré, mas acho que a adaptação cinematográfica de 'o jardineiro fiel' conseguiu ir além dos livros, da trama de traição para a aventura íntima e o posicionamento ético consequente do personagem de ralph fiennes.

um abraço,

parabéns pelo blog.

j.