segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ártico: a nova fronteira geopolítica



Uma das conseqüências um tanto imprevistas do aquecimento global é que o Ártico adquiriu grande proeminência política e econômica. Ao longo da última década, a região perdeu metade da espessura de seu gelo e o fenômeno tem acontecido três vezes mais rápido do que as previsões dos cientistas. Com isso, o Ártico se tornou navegável, abrindo um atalho entre os oceanos Atlântico e Pacífico, entre Ásia, Europa e América. Por exemplo, será possível navegar do Japão para a Holanda encurtando pela metade o caminho anterior mais rápido. Nas palavras de Scott Borgerson, o novo cenário regional:

... é análogo em significado histórico à abertura do Canal de Suez, em 1869, ou a seu primo panamenho, em 1914. Com essa mudança marítima, virão a ascensão e queda de portos internacionais, acessos recém-descobertos a quase um quarto das reservas mundiais de gás e petróleo que permanecem ocultas [Minha observação: essa é a estimativa do Serviço Geológico dos EUA] e o reordenamento do poder geo-estratégico.

As disputas e interesses no Ártico envolvem Estados Unidos, Rússia, Canadá e os países escandinavos – o excelente mapa preparado por Borgerson ilustra os pontos principais. As riquezas naturais e as rotas de navegação podem beneficiar muito essas nações, em detrimento de algumas regiões cuja importância estratégica consiste exatamente em sua importância para o controle das vias marítimas, como o Canal do Panamá e Cingapura.

Os conflitos gerados pelo potencial do Ártico têm rendido cenas inusitadas. Em 2007, equipe de exploradores russos cravou bandeira na plataforma continental submarina do Pólo Norte, a mais de quatro quilômetros de profundidade. A área é disputada por diversos Estados. O chanceler canadense reagiu, irritado, dizendo que não estamos no século XV. Não estou tão certo. Certos padrões em relações internacionais nunca mudam.



Na época dos Grandes Descobrimentos, a Igreja mediou com sucesso as disputas entre Portugal e Espanha, mas apenas na fase inicial. O Tratado de Tordesilhas foi para o espaço com a expansão dos bandeirantes brasileiros pela América do Sul, e as potências coloniais emergentes da época - Holanda, Grã-Bretanha, França – construíram seus próprios impérios manu militari, ou mesmo em nome de outra fé que não a católica.

No mundo contemporâneo, a exploração dos recursos naturais do Ártico é regulada pela International Seabed Authority, criada em 1994, que aplica os princípios da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. A maioria dos países com interesses na região é signatária, mas os Estados Unidos, não. A falta de regulação aumenta o risco de confrontos, em especial se pensarmos que as disputas em questão envolvem políticos do temperamento do primeiro-ministro russo Vladmir Putin, e da governadora do Alasca, Sarah Palin.

4 comentários:

Fernando Ludwig e Ramon Blanco disse...

Olá Professor, tudo bom?

A questão do Ártico é realmente bem interessante, e ainda vai causar grandes discussões. Fora as questões territoriais, algo que por si só já dá margem para muita discussão, algo que já vem causando desconforto é a questão da água na região. Com o aquecimento global, grandes blocos de gelo vêm se descolando e ficando à deriva em alto mar. O Canadá vem "pescando" esses blocos e isso tem causado muita discussão no tocante à propriedade do bloco e por conseguinte da água congelada. O Canadá afirma que se "pescar" em águas internacionais ou dentro da sua zona marítima é dele, já outros países vêm argumentando que o dono do bloco é aquele no qual o território esse se descolou. Enfim, causos nada fáceis da política internacional em tempos de aquecimento global.

Um abraço,
Ramon

Anônimo disse...

Recomendo a leitura do artigo ''Artic Meltdown'' publicado por Scott Borgerson na edição de março/abril da foreign affairs.

Pedro.

Anônimo disse...

O link: http://www.foreignaffairs.org/20080301faessay87206/scott-g-borgerson/arctic-meltdown.html

Pedro.

Mauricio Santoro disse...

Oi, Ramon.

Interessantíssima a história da "pirataria" do Canadá. Acho que ainda veremos muitos casos assim no admirável mundo novo do aquecimento global.

Pedro,

Muito obrigado pela indicação. Achei a abordagem do Borgerson fascinante, e fiquei com vontade de conhecer mais sobre o tema.

Abraços