sábado, 18 de abril de 2009

A Cúpula das Américas


O país que será mais discutido na Cúpula das Américas, que acontece entre os dias 17 e 19 de abril, não fará parte dela. Cuba, ainda suspensa da participação no sistema interamericano, provavelmente será o principal tema de debate num encontro internacional em que se destaca a expectativa (moderada) de que Obama mostre mais sensibilidade e disposição para o diálogo do que seu predecessor. O aperto de mãos com Hugo Chávez é um símbolo importante.

O discurso de Obama propondo "um novo começo" nas relações entre Estados Unidos e Cuba é a mais promissora declaração na agenda entre os dois países em décadas, no entanto é difícil acreditar em algo mais concreto do que concessões humanitárias, como as iniciativas que facilitam remessas de imigrantes para Cuba e viagens à ilha. Suponho que o governo cubano possa respondê-las com a libertação de alguns presos políticos. Mas é improvável, muito improvável, que se avance no sentido de superação do bloqueio econômico a Cuba.

Contudo, tenho minhas dúvidas com relação à viabilidade dos Estados Unidos manterem Cuba suspensa do sistema americano. Washington nunca esteve tão isolada nessa posição política. A vitória de partidos de esquerda na maior parte do continente deu a Havana uma série de aliados por toda a região, e cerca de 40% de seu comércio exterior se dá com outras nações latino-americanos, recorde absoluto em sua história. Mesmo políticos conservadores - como o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe - insistem pelo retorno de Cuba, e o mesmo solicita a Organização dos Estados Americanos, cuja aquiescência automática às demandas dos EUA ficou no passado.

O descompasso entre os Estados Unidos e a América Latina não é novo. Desde a Segunda Guerra Mundial Washington prioriza em suas relações hemisféricas a agenda de segurança internacional, enquanto as capitais ao sul do Rio Grande preferem discutir desenvolvimento econômico. A distância ficou ainda maior no pós-11 de setembro e não parece que vá mudar. Apesar da crise global, a agenda regional de Obama tem dado destaque à "guerra contra as drogas", que tem tido resultados trágicos na América Andina e no México. Não obstante o fracasso das iniciativas de militarização do problema, os EUA propõem sua expansão para a América Central, onde quadrilhas de traficantes mexicanos têm buscado refúgio.

O México seria o principal beneficiado de uma reforma nas leis de imigração nos Estados Unidos, bem como de um pacote econômico que o auxiliasse nessa situação de emergência. Nada disso será resolvido nos breves dias da Cúpula, mas quem sabe os EUA possam dar indicações positivas nesse sentido.

3 comentários:

Rafaela Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafaela Rodrigues disse...

Olá Maurício, tudo bem?

Li seu post e estive pensando: você acha que o discurso de Obama (que vem se mostrando muito mais global do que unilateral)irá mudar as relações com a Venezuela e Irã, por exemplo? O presidente do Irã vive se queixando que o discurso só não basta, e muitas pessoas acreditam que Obama apenas tem um discurso diferente, mas que isso não trará mudanças significativas, talvez mudará poucas coisas.

Qual a sua opinião?

Um beijo!
Rafaela.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Rafa.

Acredito que as coisas irão melhorar com a Venezuela, que passa por uma situação econômica complicada e poderia se beneficiar da normalização das relações com os EUA. O Chávez está inclusive enviando um novo embaixador a Washington.

Com o Irã a agenda é mais complexa, porque para Teerã é muito mais vantajoso continuar com o programa nuclear, construir a bomba e negociar a partir de uma nova posição de força, que irá alterar o status internacionais do país, transformando-o na principal potência do Oriente Médio.

Abraços