segunda-feira, 20 de abril de 2009

Entre os Muros da Escola



Os franceses têm uma relação de amor e ódio com seu sistema de escolar, muito bem representada no excelente filme "Entre os Muros da Escola". Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ele adapta o romance de François Bégaudeau. Na literatura e no cinema, ele leva para a ficção sua experiência como professor de francês numa escola do ensino básico na periferia de Paris. A sala de aula, repleta de adolescentes da África, do Oriente Médio ou da nova pobreza branca, é um poço de tensões que com frequencia afloram em indisciplina, conflitos e até violência entre docente e alunos.

A universalização da educação pública foi uma das grandes conquistas da III República francesa, e o professor primário se tornou um verdadeiro herói civilizador, melhorando as oportunidades de ascensão social da população e a consolidação dos direitos de cidadania. A escola era parte do que os franceses chamavam de o "elevador republicano".

No entanto, o sistema escolar francês é marcado por um enorme grau de formalismo e pela distância entre professores e alunos. Há um círculo de Grandes Escolas de elite, que remontam à época de Napoleão, mas muitos colégios e universidades mantém um currículo defasado, excessivamente apegado às tradições e com dificuldade de lidar com as transformações sociais recentes. Os críticos mais radicais dessa estrutura, como os sociólogos Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, falam na escola como um mecanismo que acaba por reproduzir e legitimar as desigualdades, porque o sistema é tão estratificado que os centros educacionais de elite sõ são acessíveis aos estudantes de famílias prósperas, mas agora sua posição de domínio social é vista como fruto do mérito, e não mais de privilégios de sangue e nascimento.



Bourdieu teria gostado do filme. A escola retratada na história atende a alunos pobres, a maioria filhos de imigrantes. As famílias em geral não conseguem acompanhar o desempenho dos estudantes - alguns dos pais sequer falam francês, e uma das mães é deportada de volta para a China, deixando em dúvida o futuro de seu brilhante, mas algo isolado, rebento. A sala de aula talvez seja a única possibilidade desses adolescentes conquistarem um lugar ao sol na sociedade francesa. Mas tudo neles - seus nomes, aparências, histórias de vida - aponta para o deslocamento e a dificuldade de se adaptar.

Os professores são bem formados, mas seus esforços esbarram nas barreiras culturais. O currículo valoriza a herança cultural francesa clássica, porém discutir as conjugações do subjuntivo parecem não fazer muito sentido para jovens cuja experiência cotidiana está mais marcada pelo hip-hop, pela discriminação e pela violência latente, que sempre ameaça explodir. A atenção dos professores está mais voltada para manter a disciplina e a autoridade do que para reconhecer o potencial e a criatividade dos estudantes.

Não há heróis ou vilões em "Entre os Muros da Escola", apenas pessoas dolorosamente normais e que me soam incrivelmente próximas. Pensei muito nas histórias que ouvi durante a pesquisa sobre juventude sul-americana, o novo e o velho mundo muito mais parecidos do que poderíamos pensar à primeira vista.

8 comentários:

Rafaela Rodrigues disse...

Salve! Boa noite!

Bom, feriado prolongado...já viu né...me divirto (na verdade, me informo) nos blogs.

Outro dia estive conversando uma amiga francesa que veio morar no Brasil, e falamos justamente sobre isso. Ela comentou que a educação foi um assunto muito discutido durante a disputa entre Sarkozy e a Segolene Royal. Revistas famosas na França escreveram muitas matérias sobre o sistema escolar francês.

Imaginos que algumas tenham sido sensacionalistas, claro, mas de todo modo indicam um mal-estar em relação ao sistema escolar francês.

Eu penso que as tradições escolares francesas são de longa duração e estão ultrapassadas se considerarmos o mundo de hoje.

Mauricio Santoro disse...

Oi, Rafaela.

Nem acompanhei como o tema foi debatido nas eleições presidenciais, mas esse tem sido um assunto constante nas conversas que tenho com amigos - franceses, belgas e brasileiros - que estudaram nas universidades da França. Todos se queixam bastante do formalismo, do excesso de regras e de certo distanciamento do currículo com relação à realidade.

Abraços

Rafaela Rodrigues disse...

Querido, te enviei um email para aquele endereço do IBASE, mas retornou.

Qual endereço você está usando?

Abs,
Rafa.

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
Realmente näo tinha idéia dos debates dos que fala sob a educaçäo francesa. Aqui, na Argentina, depois da famosa Ley Federal dos tempos do Menem, alguns (seu servidor entre eles)falamos de que se "modernizou" excesivamente a educaçäo, no sentido de que virou todo muito prático, há matérias com nombres "modernosos" (TIC, SIC, Salud y Adolescencia) e baixa participaçäo de outras mais básicas como matemática, língua, geografia ou história. Sem dúvidas, depois de 100 anos os conteúdos näo podem ser os mesmos, mas há que ser o suficentemente "clássicos" pra manter as raices da cultura e näo cair, como dizia o ex reitor da UBA Jaim Etcheverry, no famoso "o que näo é inglês ou computaçäo, para qué sirve?".
Näo. Algumas instituiçöes säo ainda mais antigas do que nos tempos do Napoleäo. Veja a Escola Politêcnica, do 1794, em pleia revoluçäo e que tivo nos seus salöes muitas grandes figuras (Cauchy, Galois, etc.).
Saludos!

Patricio Iglesias

IcaroReverso disse...

infelizmente, o que posso saber da França advém muito do cinema, ou então da clássica atuação francesa que retiro dos textos de política. como contribuição global e perene que se faz na França, a discussão séria sobre o que o serviço publico deve legitimamente fazer, em face de uma sociedade política que lhe seja contemporânea. e isso todo pais deve fazer. quase assisti a esse filme ontem!

Mauricio Santoro disse...

Salve!

Rafa, meu email agora é o mauriciosantoro1978@gmail.com.

Patricio:

A Argentina é provavelmente o país latino-americano com melhor sistema educacional, apesar de todas as crises e violências desde a Noche de los Bastones Largos.

No caso do seu país, houve mesmo um esforço sério, começando com Sarmiento, de usar a educação para construir a nação e integrar às massas de imigrantes. Com todos os problemas e limitações. Nesse sentido, se parece um pouco com a experiência francesa.

Ícaro Reverso,

Assista ao filme, se puder. Você encontrará uma bela reflexão sobre o lugar e o papel da escola na sociedade contemporânea.

Abraços

Isabella disse...

Muito bom o filme. Simples, sem trilha sonora (!!) , mas que prende.
Sem dúvida são realidades próximas. Pessoas muito próximas já relataram suas experiências nas escolas públicas e é assim mesmo. Acho que um pouco pior.

Abs !

Mauricio Santoro disse...

Oi, Isabella.

É verdade, não há música no filme... Mas nem precisa.

O Globo publicou uma série de textos sobre experiências traumáticas de professores em escolas públicas, vale a leitura.

abraço