quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Racismo dos Outros



Certa vez trabalhei numa campanha contra o racismo cujo ponto de partida foi uma pesquisa de opinião pública na qual quase 90% dos entrevistados admitia a existência da prática no país, mas menos de 5% se consideravam racistas. A lembrança veio à tona diante do discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na conferência de revisão de Durban – que, de outro modo, talvez nem fosse destacada na imprensa.

Durban é o mais recente esforço da ONU em combater o racismo e demais formas de discriminação. Embora as Nações Unidas tenham se dedicado ao tema desde sua fundação e elaborado importantes tratados a respeito na década de 1960, o processo ainda é bastante frágil. A própria conferência de Durban terminou em fracasso com a retirada conjunta de Israel e dos EUA, em função das críticas dos países muçulmanos à situação na Palestina. Isso aconteceu em setembro de 2001, alguns dias antes dos atentados terroristas contra Nova York e Washington.

O mundo não ficou mais tolerante de lá para cá. As implicações raciais, religiosas e culturais da “guerra contra o terror” são bastante conhecidas, e a eclosão da crise econômica global provavelmente piorará o quadro, com imigrantes pobres (regulares ou não) tornando-se alvo de grupos xenófobos. Há muita gente assutada, com raiva, e à procura de um bode expiatório para seus demônios.

No Oriente Médio o racismo é uma moeda de grande legitimidade política, tanto para as relações internacionais quanto para a (quase sempre precária) estabilidade doméstica dos governos. A situação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia é uma bomba relógio de ódio étnico e religoso insustentável até mesmo no médio prazo, mas as nações da região também caminham no fio da navalha de tensões semelhantes – sunitas, xiitas (Iraque, Líbano), curdos (Iraque, Turquia), cristãos, muçulmanos (Líbano) e as profundas divisões culturais e religiosas dentro de Israel, em particular a dificuldade de absorver cerca de um milhão de imigrantes da antiga União Soviética.

O Irã ocupa uma situação especial. É herdeiro de um grande império da Antiguidade, que passou por humilhações profundas no século XX, como ocupação estrangeira e uma dinastia cossaca que tentou modernizar o país à força, com a consequencia de deflagrar a Revolução Islâmica de 1979. Os aiatolás expulsaram boa parte da velha e próspera comunidade judaica, mas surpreendemente persiste boa parcela desse grupo no país.

O discurso de Ahmadinejad acusando Israel de explorar a memória do Holocausto para justificar uma política externa agressiva, é amplamente consensual no mundo muçulmano. Curioso apenas que ele tenha reconhecido a existência do genocídio, já que até há pouco o negava e um jornal de seu país chegou a organizar umbizarro concurso de charges ironizando o tema. Ao abordar o assunto com tanta fanfarra, o presidente iraniano está tentando lançar credenciais de liderança regional, com base na oposição a Israel.

A ambição é compreensível diante do colapso do principal rival do Irã, o Iraque, e do papel internacional crescente de Teerã como mediadora de conflitos, inclusive no Afeganistão. Mas sua base é frágil, pois tradicionalmente os países árabes tiveram no império persa seu grande inimigo. E a revolução xiita dos aiatolás é profundamente perturbadora tanto para as conservadoras monarquias do Golfo (Arábia Saudita, Iêmen, Emirados Árabes Unidos) quanto para os regimes autoritários mais seculares, como a Síria. O discurso de Ahmadinejad provocou a saída de delegados de diversos países ocidentais. Resta saber o que terão a oferecer às populações muçulmanas, na próxima crise, seja ela onde for.

4 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
Concordo totalmente. O racismo sempre é "dos outros". Aqui uma estadística dizia o mesmo da "viveza criolla": os argentinos somos corruptos, mas o "piola" é sempre o outro. Vejo que em nossos paises a discriminaçäo é contra gente de outros paises da América do Sul; valorando o aporte de européus e näo de bolivianos ou paraguaios. Mas claro, quem contrata ilegalmente a bolivianos é "racista" e o que näo intenta fazer amigos paraguaios é "prudente".
É muito boa a apreciaçäo do que o Irä é "inimigo histórico" dos árabes; é um dado geralmente desconhecido que os persas estäo muito mais vinculados lingüística e racialmente com os européus (a famosa "família indoeuropeia") do que com os árabes, semitas, além de que os árabes säo mais bem sunitas do que xiítas.
Já save, como argentino discutir é mais forte que eu ("que eu" ou "que mim"? Como se diz?)... Iêmen é uma república (no nome oficial e no sentido de que näo é monarquia, claro)http://pt.wikipedia.org/wiki/I%C3%A9men
Saludos, amigo!

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Ha ha ha. Como dizia o poeta mexicano Octavio Paz, "Eu achava que a coisa mais apaixonante do mundo era uma tourada, até o dia em que vi dois argentinos discutindo sobre política."

Foi bem notada a contradição do racismo de nós mesmos, latino-americanos. Aqui no Brasil também reclamamos do tratamento que os europeus e norte-americanos nos dão, mas temos muitos esteriótipos ruins sobre paraguaios, bolivianos etc. Para não falar da discriminação interna no Brasil com relação a etnias/regiões/religiões... Ufa!

Abraços

Rafaela Rodrigues disse...

A Revolução Iraniana é o marco da ascenção mundial do ativismo muçulmano, como um todo. De fato, o Irã joga um papel central nos conflitos geopolíticos da atualidade, uma vez que "a questão iraniana" tem se projetado como um poderoso fator de crise política mundial, pela via da instabilidade do Oriente Médio.

Mauricio Santoro disse...

Pois é, Rafa. E o Brasil está se aproximando do Irã, em função da importância crescente da república islâmica no Oriente Médio. Mas a posição brasileira na conferência foi muito correta. Em breve volto a escrever sobre o tema, talvez quando o presidente iraniano visitar o Brasil, daqui a duas semanas.

Beijo