quarta-feira, 29 de abril de 2009

Vida e Época de Raúl Prebisch



Meu amigo Rogério me emprestou o excelente “The Life and Times of Raúl Prebisch”, do pesquisador canadense Edgar Dosman. Há muito eu buscava uma biografia do economista argentino que comandou a CEPAL e a Unctad, e o livro de Dosman cobre muito bem a lacuna, contando as inovações intelectuais que Prebisch levou para o debate sobre comércio e desenvolvimento, e ajudando a explicar o isolamento do economista em seu próprio país. O maior problema do livro é grande quantidade de pequenos erros factuais, que embora não comprometam a obra pedem por revisão mais atenta.

Prebisch iniciou a carreira acadêmica ao fim da década de 1910, quando a Argentina vivia período de expansão econômica acelerada, impulsionada pelas exportações de carne e cereais para o império britânico. Como jovem estudante de economia, Presbisch já se destacava e começou a frequentar importantes círculos acadêmicos e políticos, como o dos irmãos Alejandro e Augusto Bunge, este último um dos líderes do Partido Socialista. Mas foi a oligarquia que deu ao rapaz seu primeiro emprego de destaque, preparando informes para a toda-poderosa Sociedade Rural Argentina.

A carreira do economista foi marcada por muitos revezes, em função de seu hábito de afirmar coisas que os patronos não queriam escutar, mas em meio aos problemas ele avançou rapidamente e ao longo da Grande Depressão da década de 1930 se consolidou como um tecnocrata que representava a Argentina nas fracassadas cúpulas internacionais que tentaram lidar com a crise - há paralelos perturbadores com as dificuldades atuais. Porém seu maior feito foi interno: a criação do Banco Central da Argentina, com excelente equipe técnica.



A instabilidade da época venceu os esforços de Prebisch. Sua ascensão se deu em meio à “decada infame”, marcada por golpes, ditaduras, ou regimes autoritários que se mantinham no poder por eleições fraudadas. Foi criticado por sua decisão em servir tais governos mas seu biógrafo não aprofunda a discussão, preferindo considerá-lo como um “técnico apolítico”, interessado apenas no bem da pátria. Como no mundo real as coisas não são tão fáceis, o meteórico crescimento do peronismo lançou Prebisch no ostracismo, como um odiado símbolo da velha guarda agrária.

A década de 1940 foi difícil para o economista, que recusou várias ofertas de emprego no exterior porque continuava a sonhar com a chance de retornar a uma posição de poder na Argentina. Mas em meio às expectativas frustradas, começou a viajar pela América Latina como consultor, o que resultou em projetos importantes, particularmente no México, que aos poucos lhe deram ampla visão da realidade regional.

Isso foi fundamental para que Prebisch se tornasse secretário-geral da Comissão Econômica da ONU para a América Latina e Caribe (CEPAL), onde aplicou sua experiência para formular uma doutrina sobre a necessidade de industrializar o continente, baseado na deterioração dos termos de troca do comércio exterior – a tendência dos produtos agrários em diminuir seu valor face aos manufaturados. Dosman narra bem como tais ideias, subversivas para a época, enfrentaram a oposição dos Estados Unidos e de intelectuais conservadores na região, mas acabaram por influenciar a agenda de governos desenvolvimentistas em diversos países e até gozar de breve prestígio na Casa Branca, com Kennedy e sua Aliança para o Progresso.



Os projetos da CEPAL esbarraram nos conflitos políticos, como a radicalização entre esquerda e direita, e acabaram relevados a segundo plano por ditaduras militares que viam com desconfiança alguns de seus pressupostos (como a integração latino-americana) e pela nova geração de acadêmicos, que formulava a teoria da dependência e considerava as doutrinas cepalinas muito tímidas, por demais temerosas de ofender os governos que as patrocinavam. Esse é um ponto que poderia ser mais explorado no livro, ao final Prebisch contratou vários dos dependencistas mais célebres, como Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto.

Apesar das frustrações na América Latina, Prebisch continou com prestígio internacional crescente e se tornou o secretário-geral da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), que nas décadas de 1960 e 1970 levou ao plano multilateral muitas das ideias que a CEPAL formulou para a América Latina. Eram os tempos áureos do terceiro-mundismo, do G-77 e dos debates sobre uma Nova Ordem Econômica Internacional.

Um empreendimento tão vasto dificilmente seria bem-sucedido e de fato o fim da vida de Presbich foi algo melancólico, pois se deu em 1986, em meio à crise da dívida na América Latina e ao colapso dos modelos desenvolvimentistas em boa parte dos países do sul global. Contudo, restou ao economista o consolo do retorno à Argentina, onde assessorou Alfonsín na dura tarefa de restaurar a democracia e a prosperidade àquela nação.

Prebisch, Guevara, Alfonsín... Abril está um mês argentino neste blog.

3 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Caro amigo:
Muito interessante e informativa a descriçäo do Prebisch, um dos economistas mais importantes do século XX, como o Pinedo, mas com una visäo ainda mais ampla pelo panorama internacional.
Saludos!

Mauricio Santoro disse...

Mais um dos argentinos universais, não é?

Abraços

Luiz Eduardo disse...

Já leste o livro do Carlos Iñiguez?
Se quiser, posso lhe indicar a referência completa.

luizedu@hotmail.com

Abraços