segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Exibição Naval da China


Há dez anos, o aniversário de 50 anos da Marinha da China comunista foi celebrado de maneira discreta, com a emissão de selos especiais. Na semana passada, os 60 anos da frota de guerra foram comemorados em grande estilo, com impressionante exibição naval no porto de Qingdao. Sinal dos tempos e do papel de liderança internacional que os chineses vêm assumindo.

A criação de uma Marinha com capacidade oceânica, de projeção de poder em outros continentes, é um dos elementos essenciais da afirmação de uma grande potência. Isso é válido não só para impérios marítimos tradicionais (Espanha, Holanda, Grã-Bretanha, Japão) mas igualmente para nações cujas tradições militares estão mais ligadas ao poder terrestre (Rússia, Alemanha, EUA e China).

A extraordinária expansão econômica chinesa depende da importação de recursos fundamentais – petróleo, matérias-primas, alimentos – do Oriente Médio, da África e da América Latina. Além disso, o país tem uma série de disputas envolvendo a exploração de recursos marítimos com as nações vizinhas, e o sempre presente problema de Taiwan, com a necessidade de controlar o estreito que separa a ilha da China continental.



O mapa acima, publicado em ótimo artigo da The Economist, ilustra as preocupações dos militares chineses. A linha vermelha é sua linha principal de defesa, junto à costa. A linha azul é para onde esperam desenvolver capacidade de atuação naval, com a atual expansão em curso na Marinha.

O aumento da capacidade naval da China tem sido financiado de forma inteligente, por meio de combinação entre a compra de antigos destróieres russos (como os que abrem o post) e construção de embarcações próprias, em particular submarinos nucleares, que abriram o desfile (foto abaixo). A exibição em Qingdao mostrou publicamente, pela primeira vez, alguns desses barcos, mas os modelos mais avançados ainda são segredo de Estado.



A China não possui porta-aviões, mas considera-se que em breve o país terá uma embarcação desse tipo. Sua construção é coerente com a estratégia chinesa, que tem dado grande atenção ao desenvolvimento da aviação de caça e de mísseis navais – alguns de seus armamentos nessa área são os mais sofisticados da Ásia.

Há muita discussão nos sites americanos e britânicos sobre os riscos que a expansão naval chinesa representa para a segurança regional asiática, mas me parece que boa parte do debate é simplesmente disputa por influência na área. Afinal, os chineses têm desenvolvido boa cooperação com as marinhas de países do continente, em particular com a russa e a paquistanesa, mas também com a indiana. E navios chineses também foram enviados à Somália, como parte da força internacional que combate a pirataria no Chifre da África.

8 comentários:

Marcos disse...

Um porta-aviões que seria apenas para exibição, engraçado, a China estava fazendo um aparelhamento inteligente, apostando principalmente em submarinos para agora querer o maior alvo-flutuante que existe?

No War Nerd tem um artigo bem interessante sobre a total e completa inutilidade de porta-aviões: http://exiledonline.com/the-war-nerd-this-is-how-the-carriers-will-die/

Anônimo disse...

Os porta-aviões ainda são úteis se contam com boa escolta de contra-torpedeiros. Além disso, geralmente os Estados que usam porta-aviões também usam submarinos nucleares (exceção do Brasil, por enquanto!).

Quanto a China. Lembro-me de ter lido análises sobre o poderio militar chinês de dez anos atrás afirmando que a tecnologia de defesa chinesa era no máximo a alcançada na época do fim da guerra fria. Não creio que tenha mudado tanto assim. Principalmente porque essas análises precisam ser comparativas, e comparando o poder naval chinês com o japonês fica fácil perceber as fragilidades chinesas. os japoneses usam Destroyers com sistema Aegis, o estado-da-arte em sistema integrado de mísseis, muito superior em acurácia a qualquer outro. Foi desenvolvido em conjunto com os EUA.
O avanço para o pacífico me parece também sobrevalorizado, pois a Sixth Fleet dos EUA, localizada em Okinawa, é talvez a mais poderosa em atuação. Adicione-se a isso os vários problemas de disputas territoriais que os chineses tem com os países da Indochina e veremos uma configuração de contenção da China por todos os lados.

pequenos exemplos:
http://japanfocus.org/-Richard-Tanter/1700

http://mondediplo.com/2006/04/09japan

http://www.fas.org/news/japan/jst94016.htm



abraços amigo,

Helvécio.

Mauricio Santoro disse...

Rapazes, estou é aprendendo com os comentários!

Abraços

Anônimo disse...

Mauricio:
excelente seu blog!
No mapa pontilhado, me chama a atenção o fato de a linha azul (até onde a China quer chegar) pegar metade do Japão.
É isso meso, será? Japão e China são antagonistas históricos, será que o Japão permitiria este "avanço"??
abs,
Rogério

Anônimo disse...

Mauricio:
excelente seu blog!
No mapa pontilhado, me chama a atenção o fato de a linha azul (até onde a China quer chegar) pegar metade do Japão.
É isso meso, será? Japão e China são antagonistas históricos, será que o Japão permitiria este "avanço"??
abs,
Rogério

Anônimo disse...

Além da Coréia do Norte a outra preocupação dos japoneses é com a expansão do poderio militar chinês.

A contenção da China é basicamente feita pela aliança entre Japão-EUA.
O elemento histórico é um irritante na relação entre os dois países e há sempre um dilema entre cooperar ou competir.

A Marinha Japonesa (MSDF) é superior à Marinha chinesa, mas o poder terrestre chinêsé superior ao poder terrestre japonês.


Helvécio.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Rogério.

O Helvécio, que responde às suas perguntas, é um especialista na política externa do Japão, de modo que é super abalizado para os comentários. Acrescento apenas que pela primeira vez em muito tempo (séculos) temos, simultaneamente, China e Japão muito fortes. O que virá daí?

Abraços

Carlos disse...

caro santoro,

voce tem toda razão.
juntei seu excelente post e os precisos comentários da matéria, resultado: respeite a aula que assisti.

parabéns, moçada.