sexta-feira, 4 de março de 2011

Panorama da Guerra Civil



A guerra civil na Líbia prossegue com vitórias importantes para os rebeldes, tanto nos campos de batalhas quanto na frente diplomática. No entanto, começam a ficar claras as fissuras políticas que apontam para uma complexa transição após Kadafi.

O fato militar mais significativo da semana foi a derrota da ofensiva das tropas leais a Kadafi para tentar reconquistar a cidade de Brega, na rota dos poços de petróleo. Há relatos da fragilidade das Forças Armadas da Líbia, com informações sobre caças sem condições de voar e estimativas que os soldados de Kadafi talvez sejam apenas 10 mil. São rumores verossímeis que explicariam por que o ditador tem recorrido a mercenários de outros países africanos.

No front diplomático, os rebeldes conseguiram apoios importantes dos aliados internacionais. A ONU iniciou distribuição de ajuda humanitária, congelou ativos financeiros de Kadafi e de figuras-chave do regime e o Tribunal Penal Internacional iniciou os procedimentos para levar o ditador ao banco dos réus por crimes contra a humanidade. O cerco aperta contra ele.

Kadafi sentiu o golpe e reagiu agarrando a oportunidade que o presidente venezuelano lhe ofereceu, de uma comissão para dialogar com a oposição. A proposta foi rejeitada pela União Européia e mesmo a Liga Árabe se mostrou bastante receosa. Não está clara se ela será implementada. Chávez e Kadafi tem longa relação, o venezuelano recebeu inclusive o Prêmio Kadafi de Direitos Humanos (sim, existe um) e há alguns meses denuncia um suposto plano ocidental para tomar o controle do petróleo líbio.



Atualmente, a Líbia produz apenas 1% do petróleo mundial e a Arábia Saudita anunciou o aumento de sua própria produção para tentar conter a especulação que levava ao aumento dos preços. Desde que as revoltas democráticas no mundo árabe começaram, o preço do barril subiu cerca de 20% e fechou em US$116 na quinta-feira à noite. Naturalmente, pode disparar caso os distúrbios chegem à Arábia Saudita, onde um importante clerigo xiita foi preso nesta semana, e correm rumores de protestos sendo organizados pela Internet.

Se os rebeldes líbios avançam contra Kadafi, deparam-se também com o acirramento de suas divisões internas. Por enquanto, seu principal porta-voz é o ex-ministro da Justiça de Kadafi, Mustafa Abdel Jalil, um idoso líder tribal respeitado por manifestar discordâncias com relação ao ditador. Mas os jovens que formam parte importante dos revoltosos se insurgiram contra ele e nomearam seus próprios representantes. Também há uma reorganização dos grupos islâmicos, que no entanto permanecem minoritários.

O xadrez tribal da Líbia apresenta suas próprias dificuldades. Kadafi mantém o controle de apenas duas cidades importantes: a capital, Tripoli, e Sirte, bastião de sua própria tribo. Ele também possui clãs aliados no interior, entre os grupos beduínos, mas até o momento seu maior trunfo tem sido a abstenção dos Wafala, a maior tribo do país - um milhão de membros, para uma população de cerca de 6,5 milhões de líbio. Esse grupo tentou um golpe contra Kadafi em 1993 e foi selvagemente reprimido quando ele falhou. É compreensível que estejam cautelosos em se lançar numa nova aventura política.

2 comentários:

Carolina disse...

Não sei o que me chocou mais, o fato de existir um prêmio Kadafi de direitos humanos, ou o Chavez ter recebido o dito cujo. De fato, a imaginação humana não tem limites...

Mauricio Santoro disse...

Querida,

Como já dizia Einstein, existem duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. Não tenho certeza quanto ao universo.

beijo