domingo, 16 de outubro de 2011

Um Pensageiro em Bruxelas



Por Ramon Blanco
Doutorando em Política Internacional e Resolução de Conflitos pela Universidade de Coimbra, em parceria com o Centro de Estudos Sociais (CES).
Blogueiro Convidado

A palavra ‘pensageiro’, cunhada pelo escritor Moçambicano Mia Couto, talvez seja a melhor forma de descrever a minha posição enquanto estive em Bruxelas durante o mês de Setembro deste ano. Durante esse mês, estive vinculado, enquanto pesquisador convidado, a um importante think-tank da capital belga ligado à área da Paz e Segurança Internacionais. Ao fundir as palavras ‘pensar’ e ‘passageiro’, Mia Couto ajuda-me a descrever o fato de que mesmo estando enquanto um mero passageiro, ou de passagem, em um assunto, situação, ou lugar, é inexorável a atividade de se pensar e refletir acerca deste momento, desta passagem. Mesmo esta sendo muito curta. Essa, obviamente, é uma interpretação, e certamente uma extrapolação, minha que muito provavelmente pouco, ou mesmo nada, tem a ver com a real intenção do autor Moçambicano ao ter cunhado o neologismo. Entretanto, a forma simples com que descreve a posição em que estive é precisa demais para ser ignorada.

Assim, gostaria de deixar aqui registrado três pequenas observações que fui recolhendo enquanto um pensageiro em Bruxelas. A primeira delas é que não é necessário muito tempo para notar o quão fácil pode ser descolar-se da dura realidade do mundo quando se está em Bruxelas. Um simples passeio pelo centro da cidade leva o/a visitante a lugares faustos, históricos, e obviamente cheios de turistas. Ao se caminhar por áreas residenciais centrais, nota-se claramente que se está em uma cidade muito rica onde bons carros e excelentes casas são a regra. É muito fácil ficar preso/a na “Bolha de Bruxelas”, como normalmente é chamado o ambiente da cidade por aquele/as que nela residem. Contudo, basta ir para a parte mais periférica da cidade para perceber a difícil realidade vivida maioritariamente por imigrantes, de várias origens, sendo uma parte significativa de árabes e muçulmanos. Sendo essa uma realidade próxima, tão próxima quanto três pontos de ônibus em alguns casos – contudo invisível, e muitas vezes invisibilizada; não é difícil pensar na facilidade que é perder-se nos meandros e tecnicidades eurocratas enquanto o resto do mundo assiste à uma Europa lenta, indecisa, e muitas vezes letárgica.

Uma segunda observação tem a ver com a abertura com que as instituições européias, e não só, têm para conversar com a sociedade em geral. Obviamente esse ponto me foi facilitado pelo fato de estar vinculado a um importante centro de pesquisa da cidade. Contudo, pude notar que não é nada fora do comum para a sociedade em geral conversar com tais instituições, participar de reuniões e eventos, e sobretudo ter acesso à pessoas chave nos processos de decisão das políticas européias. No caso das políticas relacionadas à Paz, por exemplo, há um genuíno interesse por parte das esferas institucionais européias em conversar e trocar perspectivas com organizações não-governamentais, centros de pesquisa e acadêmicos em geral, incorporando-os assim no processo de realização das políticas. Obviamente, tal relacionamento poderia ser não só mais aprofundado, como também alargado a outras esferas sociais. Entretanto, o simples fato deste relacionamento existir, e ser estimulado, é muito significativo e demonstra um importante amadurecimento democrático.



A terceira, e para mim muito relevante, observação que tive foi a importância que a Paz internacional tem dentro da sociedade em geral. A Paz é notoriamente um assunto crucial e isso percebe-se nas mais diversas esferas. Nas esferas institucionais da União Européia, desde a Comissão e passando pelo Conselho e Parlamento, esse é um assunto central na agenda. Contudo, o mais significativo foi ver o quanto essa é uma temática que perpassa a sociedade civil como um todo, organizada e não organizada. É notório, por exemplo, o grande número de organizações não-governamentais, centros de pesquisa, associações e institutos exclusivamente ligados à Paz.

As pessoas em geral participam e contribuem com associações onde a Paz internacional é a preocupação primordial. Mais do que isso, as pessoas regularmente acompanham os debates internacionais acerca do tema. Uma discussão incontornável durante o mês de Setembro foi o pedido feito por parte da Autoridade Palestina junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o reconhecimento do Estado Palestino. Não era nada incomum esse ser assunto frequente em conversas entre pessoas das mais diversas idades e sempre com um acentuado conhecimento do mesmo.Uma das principais razões para a Paz ter essa elevada relevância me foi esclarecida por uma senhora, com pouco mais de oitenta anos, que conheci por lá. Ela explicava-me que Bruxelas foi uma cidade muito castigada durante as duas grandes guerras. Na opinião dela, as pessoas vêem que a Paz é algo que não deve ser tomado por garantido. Pelo visto, isso é algo que a cidade simplesmente não esquece, e nem tão cedo esquecerá.

2 comentários:

IgorTB disse...

Eu sempre acho curiosa essa capacidade europeia de pensar a paz dos outros e ignorar as mazelas sociais que ameaçam a paz interna.
Muito bacana falar de direitos humanos dos palestinos enquanto eles estão lá na Palestina, mas e os tais direitos humanos dos árabes que vivem em casa, dividindo o metrô, a rua, o mercado e a escola avec les belges (/européens) xénophobes et racistes?
Esses problemas menores a gente pode deixar para depois....

Mauricio Santoro disse...

Salve, meu caro.

Com certeza os temas ligados aos migrantes merecem muito mais respeito e atenção por parte da UE. Temo que a persistência da crise leve a um crescimento grande da extrema-direita.

abraços