quarta-feira, 16 de maio de 2012

Crise na Europa: Fase 2

Com as recentes eleições na Alemanha, França e Grécia a crise européia entrou em sua segunda – e mais turbulenta fase. Os eleitores rejeitam as medidas de austeridade e os pacotes de socorro internacionais, os extremos ideológicos crescem em força política. Meu palpite é que o resultado será a adoção de medidas de nacionalismo econômico e a saída grega do euro, seguida eventualmente de outros países na periferia européia.

Me baseio no excelente modelo criado pelo economista turco Dani Rodrik, segundo a qual na época atual os países vivem um trilema segundo o qual não podem ter ao mesmo tempo: a) Economia aberta; b) Estado-Nação autônomo; c) Democracia.

Apesar do crescimento do extremismo ideológico na Europa, golpes de Estado autoritários (ainda) não estão no radar. Talvez entrem no futuro. A alternativa B – um governo de tecnocratas indicados pela Comissão Européia em Bruxelas – não funcionou na Grécia, embora pareça ir melhor na Itália. Resta a opção A – fechar a economia e tentar blindar a sociedade das turbulências globais ou da competição externa, em particular da China. Qualquer um familiarizado com a história do século XX sabe que isso aconteceu em larga escala nos períodos que antecederam as guerras mundiais, com consequências trágicas, em particular na década de 1930: queda no comércio global, aprofundamento da Depressão etc.

O cenário eleitoral da Europa aponta, ao menos no curto prazo, para essa escolha. Mais protecionismo, um relaxamento das regras conjuntas da União e mais autonomia para cada país buscar sua própria saída da crise. Na França e Grécia, os resultados eleitorais foram claramente condenatórios das políticas de austeridade, ainda que um tanto ambíguos sobre a agenda que desejam que seja colocada no lugar (aqui minha entrevista sobre o tema, para a revista Carta Capital). Na Alemanha, mais uma derrota do partido da chanceler Angela Merkel, agora no maior estado alemão, mostram a rejeição da população a seu discurso de austeridade e aos custos de auxiliar as economias mais frágeis da UE.

Não há soluções à vista para a crise européia. No caso da Grécia, uma provável saída do euro acarretaria desvalorização brutal, queda no poder aquisitivo da população e seria acompanhada de moratória de parte considerável da dívida. Algo semelhante ao que houve na Argentina em 2001-2, mas sem a saída de um boom de commodities para reerguer a economia.

Talvez o apocalipse grego aponte medidas que sejam tomadas em maior ou menor grau por outras economias européias. Quaisquer sugestões, encaminhem para Bruxelas.

4 comentários:

Francisco Nixon disse...

Maurício,

Não creio que a Grécia saia da zona do euro, pois suponho que os reflexos negativos dessa hipótese sejam maiores que os positivos.

A Grécia representa algo em torno de 2% do PIB da zona do euro, o que considero uma fatia muita pequena da economia. Com sua exclusão, quanto a Europa ganharia ou deixaria de perder?

Além disso, essa "falência" não é exclusividade grega, pois Itália, Portugal e Espanha também se encontram em situação crítica.

Assim, se a Grécia sair e a crise persistir o que impede desses outros países serem excluídos também?

Poderia ser o fim da União Européia e tudo o que ela representa de avanço econonômico.

Não acha?

Fernando H disse...

Excelente foto ilustrando a materia. Lideres europeus procurando uma saida, olhando para todos os lados... Genial. Gostei tambem da materia em si e do comentario do Francisco. Pessoalmente, espero que a Europa caminhe na direcao da felicidade. Por mais que argumentem com sofismas, o fato e' que nossa dita civilizacao tem mais que o suficiente para a paz e o conforto de todos. Basta gastar menos com armas e principalmente gastar menos com vaidade, e pronto. Todavia, estou sendo utopico. Melhor calar a boca.

Diogo Terra disse...

Também não acho que a Grécia deixa a zona do euro, mas temos que analisar o contexto.

Por um lado, compromissos devem ser honrados. Não se trata de exaltar calotes apenas porque o sistema é injusto.

Mas o povo, que não criou as dívidas, sofre horrores enquanto meia dúzia de tubarões se esfalfam.

Isso a grande imprensa evita tocar. Por que será?

Sempre lembrando que o governo grego não cortou um centavo dos gastos militares - algo que pode ser interpretado como uma exigência dos banqueiros alemães, dada a proximidade grega com a sempre indesejável Turquia.

Obama já disse hoje que as políticas de austeridade podem comprometer ainda mais a economia europeia, o que faz sentido. Por mais que ele obviamente tema um efeito do agravamento da crise em suas chances eleitorais...

Berlusconi e Sarkozy já caíram. Angela Merkel vem de derrota em pleitos regionais. Já que o mercado financeiro é insensível aos piores sofrimentos desencadeados pela crise, as urnas podem dar o recado.

Maurício Santoro disse...

Salve, Nixon.

A importância da Grécia para a UE é política, mais do que econômica. Se ela deixar o euro, aumentará as pressões sobre outras pequenas economias, como Portugal e Irlanda. Provavelmente detonará uma corrida bancária nesses três países.

Itália e Espanha estão em má situação econômica, mas não tão endividados quanto os menores países.

Caros Fernando e Diogo,

Essas são questões que estão pegando fogo na Europa - e em alguma medida, nos EUA também. A austeridade não tem sido para todos, muitos grupos e instituições mantêm seus privilégios. Por exemplo, as igrejas católica e ortodoxas gozam de enormes isenções fiscais na Itália e na Grécia.

Abraços