quarta-feira, 9 de maio de 2012

Estados Unidos e América Latina: novos (des)equilíbrios

Na quinta-feira passada fui palestrante na VI Rodada Latino-Americana do Laboratório de Estudos da América Latina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Falei a respeito das relações entre a região e os Estados Unidos nestes tempos em que os equíbrios de poder mudam em detrimento dos países desenvolvidos e favorecem os emergentes.

A América Latina representa cerca de 20% do comércio exterior dos Estados Unidos e esse número cresceu pouco mais de 3% entre 1996 e 2009 (gráficos abaixo). É menos do que se poderia esperar, visto que nesse período houve a assinatura de diversos acordos de livre comércio com a região. Além disso, 60% do total está concentrado no intercâmbio com o México, e metade do restante fica com Brasil, Colômbia e Venezuela.

Ainda assim, podemos argumentar que a América Latina está se tornando mais importante para os Estados Unidos, porque o país está vendo dimunuírem suas fatias dos mercados na Europa, Ásia e até no vizinho Canadá.

Da perspectiva latino-americana, o cenário é oposto. A região depende cada vez menos do comércio com os Estados Unidos. Ao longo da década de 2000 as exportações para lá caíram de 57% para 40%, e as importações, de 50% para 30%. A grande responsável por esse declínio percentual é a China, que chegou até mesmo a se tornar o principal parceiro econômico de países latino-americanos como Brasil e Chile. Ela também já é o 3º maior investidor, atrás apenas dos Estados Unidos e da Holanda. Os gráficos abaixo contam essa história:

As assimetrias entre Estados Unidos e América Latina continuam enormes, mas diminuíram. A região está mais próspera, virou uma área de renda média, com bolsões de pobreza na América Central, Bolívia e Paraguai. Há problemas sociais sérios, como desigualdades (as maiores do mundo), violência e Estados ineficazes e corruptos.

Embora se possa questionar a sustentabilidade do crescimento – ainda muito dependente dos ciclos das commodities – ele possibilita uma inserção internacional mais assertiva, como se manifesta no ressurgimento do nacionalismo, em particular quando aplicado ao controle dos recursos naturais pelo Estado. É uma visão política bastante diferente do liberalismo que esteve em voga na década de 1990.

A agenda externa dos Estados Unidos pós-11 de setembro foi pouco significativa para a maioria dos países latino-americanos, com exceção da Colômbia, que tem seu próprio problema interno de terrorismo. As nações da região se queixam do desinteresse de Washington por suas dificuldades e têm se posicionado contrariamente às principais abordagens americanas para o continente, como a guerra contra as drogas e a tentativa de manter Cuba isolada dos organizações hemisféricas.

Os Estados Unidos tratam o Brasil cada vez mais como um interlocutor para temas globais, acima de ser uma nação-chave na América Latina. Mas ambos os países parecem não saber o que querem um ou do outro, para além de constantes queixas pelas suas divergências internacionais, sobretudo no Oriente Médio. A política externa brasileira também tem o desafio de conviver com um desequilíbrio de poder crescente a favor do Brasil na região. A identidade internacional do país têm pendido para o lado da potência emergente ou BRICS, esforçando-se para se afastar da imagem de instabilidade e turbulência de muitos dos vizinhos.

4 comentários:

Anônimo disse...

Critique-se o que se deva criticar nos governos latino-americanos, aqui e acolá, mas isentar a política externa norte-americana de erros - como a grande imprensa brasileira costuma fazer - chega a ser leviano.

Para ficar num exemplo, se não fosse pelo "sagrado" direito dos americanos traficarem armas, talvez a guerra civil pelo tráfico de drogas no México não teria as amplitudes de ferocidade e hediondez que tem. E não dá para botar a culpa no Chávez - bufão, errático e autoritário, mas eterno bode expiatório - neste caso.

Nixon disse...

Maurício,

Embora o tempo tenha sido curto, gostei de sua apresentação, da qual selecionei alguns dados atualizados para minha pesquisa.
Já estou esperando a próxima!
Abc

"O" Anonimo disse...

Vale sempre lembrar que o Brasil, apesar de ser um pais de gente camarada e com consciência social e não ter uma "guerra civil" hedionda como o México teria, ainda tem taxas de homicídio substancialmente mais altas que o México (ainda que bem menores que aquelas da Republica Bolivariana da Venezuela).

Maurício Santoro disse...

Caros,

A situação no México merece um post à parte, que espero escrever em breve, mas a piora na segurança tem a ver mais com fatores internos. Basicamente, o país deixou de ser apenas um corredor para exportar drogas aos EUA e virou um mercado significativo para as drogas. As quadrilhas passaram a querer controlar território.

Contudo, ainda é menos violento do que o Brasil. O que diz muito sobre onde estamos...

Caro Nixon,

Obrigado, seguimos conversando!

abraços