quarta-feira, 25 de abril de 2007

Equador



As ilhas de São Tomé e Príncipe ficam em frente à costa do Congo, marcadas pelo calor e pela umidade, com a tristeza se acumulando no ar feito camadas de poeira. Para aquele desterro sua majestade el-rei de Portugal enviou como governador Luís Bernardo Valença, protagonista do excelente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares.

Sousa Tavares é jornalista, filho da célebre poeta Sophia de Mello Andersen e autor de livros de reportagens e de crônicas de viagem. “Equador” é seu primeiro romance, e que estréia! Eles no dá de presente, de uma só tacada, uma trágica história de amor, uma narrativa dos últimos anos da monarquia portuguesa e uma fina análise política das disputas coloniais no início do século XX, pela ótica do decadente império de Portugal, ameaçado pela cobiça dos britânicos e alemães.

Seu herói Valença é um acomodado burguês de Lisboa, que chegou à meia-idade numa vida mansa feita de aventuras amorosas, festas gastronômicas e algum diletantismo intelectual. Adepto, com ceticismo, dos princípios liberais mais avançados da época, ele escreve uma série de artigos defendendo métodos mais modernos para administrar as colônias portuguesas na África, antes que impérios mais eficientes assumam a tarefa. Seu textos chamam a atenção da Corte, que precisa de um homem para desempenhar uma espinhosa missão em São Tomé e Príncipe.

As ilhas vivem da exportação de cacau e café e irritam os concorrentes ingleses, que acusam os portugueses de explorarem trabalho escravo nas lavouras e ameaçam com um embargo comercial. A escravidão havia sido abolida há décadas, mas a prática era um tanto mais nebulosa, marcada por castigos físicos, intimidação e a ausência de contratos efetivos com os trabalhadores. Valença logo descobre que se quiser cumprir as leis, poderá inviabilizar o sistema econômico da colônia, cujos altos lucros permitem a seus donos ausentes viverem como magnatas em Lisboa e Paris.

O novo governador precisa lidar com os colonos hostis, com rebeliões de trabalhadores e com a estranheza que causa seu comportamento sofisticado de intelectual lisboeta, que gosta de ouvir ópera no terraço e se ressente da solidão e da mesquinharia da vida na colônia. Para piorar as coisas, o cônsul que a Inglaterra envia para investigar o trabalho escravo é casado com uma mulher belíssima, por quem Valença se apaixona perdidamente.

“Equador” é um romance espetacular, com os aspectos políticos e românticos da trama se complementando maravilhosamente. Sousa Tavares é um entusiasta da África e seu amor pelo continente transparece nas descrições da natureza e da empatia com os africanos. As discussões sobre comércio e direitos humanos do romance são muito atuais, parecem os debates na OMC sobre “dumping social” da China.

Para um fã de Eça de Queirós como eu, é fascinante acompanhar as referências à obra do mestre espalhadas por “Equador”, como os cafés lisboetas freqüentados pelo protagonista e a veneração de seus amigos pelos “Vencidos da Vida”, o grupo de intelectuais ao qual pertencia o grande escritor de Portugal.

Para um professor de relações internacionais, é um estímulo ver o cenário dos conflitos imperialistas que precederam a I Guerra Mundial tratado com brilho e inteligência, em língua portuguesa, pela ótica de um cidadão de um país periférico aos grandes acontecimentos. Penso em utilizar trechos do livro com meus alunos. É bem mais saboroso que os argumentos áridos da teoria da dependência.

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