quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Tragédia do Rio



A idéia era escrever um post sobre as oportunidades de negócios no Rio de Janeiro, depois que o estado conquistou o grau de investimento, na semana passada. Mas as tempestades destes dias mudaram a abordagem. Em 24 horas, choveu 282mm no Rio, o dobro do que em geral cai em todo o mês de abril. Quase 200 pessoas morreram e pelo menos o mesmo número está desaparecida ou soterrada. A capital estadual e Niterói foram as cidades mais atingidas. A maioria das vítimas está nas favelas, mas também houve deslizamentos e enchentes em bairros de classe média e alta.

A tragédia no Rio foi fruto de uma tempestade particularmente forte, mas também das deficiências do poder público, tanto na prevenção da catástrofe quanto na reação à crise. Ao longo da última década os gastos com contenção de encostas diminuíram bastante e os pontos de alagamento frequente no Rio e nas cidades vizinhas são célebres há décadas. Ainda assim, os governos se sucedem sem que consigam solucionar o problema. Como sempre ocorre nestas situações de emergência, a polícia militar e a guarda municipal desaparecem. Motoristas presos em engarrafamentos e alagamentos são assaltados, ou passam a noite nos veículos porque não há orientação sobre como resolver os nós do trânsito.

Meu bairro foi bastante atingido. Muitos mortos, árvores caídas. Estou sem luz há três dias, mas diante das tragédias que ocorreram nesta semana, é uma dor de cabeça trivial. A operadora de energia só dá respostas genéricas, mas o boato na vizinhança é que houve queda de postes e/ou destruição de transformadores.

Como fica o caos dos últimos dias à luz dos grandes eventos esportivos que o Rio sediará entre 2011 e 2016? A meu ver, a questão crucial não é a segurança pública, como tantas vezes se afirma, e sim a infraestrutura. Estradas, ruas, energia elétrica, obstáculos no trânsito. A região metropolitana do estado do Rio caminha sempre na linha da navalha, e basta um pequeno empurrão - um acidente mais grave numa via expressa importante, chuvas fortes, maior movimento em função de feriado prolongado - e temos o colapso do sistema. Oxalá o grau de investimento possa trazer os recursos necessários para a modernização local.

6 comentários:

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Morei por vários anos em uma cidade que sempre que chove dizia que a chuva bateu records e tinhamos alagamento, ia no fim de semana a uma cidade a 1/2 metro do mar e nada, só ressaca...tive um bate-boca homérica em sala de aula com um secretário de negócios jurídicos, por puro desconhecimento dele da cidade onde foi lhe dado o cargo nessas composições políticas...por causa de uma simples pergunta sempre fica no ar, qual é a recorrência do fenômeno, para ser exato de quanto em quantos anos ocorre uma precipitação concentrada como tivemos esse ano em São Paulo (por sinal, ele veio dizendo que foi um record), Angra, e Rio de Janeiro.

Sem responsabilizar os governos (apesar do meu desprezo aos malufistas e quem os servia naquele vergolhoso desmonte de máquina pública que ocorreu em São Paulo) há uma aceitação com o normal, nunca se previne para o acima da média, afinal se existe média, a lógica diz que poderá haver algo acima desse ponto ou não?

Acredito que seja essa a questão, qual cidade está preparada para aguentar o pico do gráfico que foi tirado a média?

No mais é velar pelos mortes, torcer para transtorno acabem para população atingida, e rezar para que a média dure por muito tempo para que não tenhamos notícias trágicas.

No mais boa sorte e que retorne o sol.

Mariana Cabral disse...

Sem falar na necessidade de investimento em educação e saneamento,que evitariam o despejo do lixo doméstico em locais inadequados. Os bueiros foram feitos para dar vazão à agua, em qualquer quantidade!! Beijos!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Marcelo.

No que diz respeito a esta semana, o volume de chuvas foi tão grande que teria desorganizado qualquer região. Mas creio que os problemas foram agravados pelas deficiências do poder público nas cidades atingidas.

Cara Mariana,

Corretíssima.

abraços

Gabriela disse...

Caro Mauricio,
moro no Rio de Janeiro desde que nasci e fico impressionada como algumas questões não tão importantes são tratadas aqui com tanta prioridade. Toda essa trajédia da chuva é consequência de muitos anos de descaso e falta de iniciativa para melhorias na infra estrutura do Rio. Como planejar a Cidade da Música e deixar de investir em educação e saúde? Como gastar milhões em marketing e propaganda para conquistar o título de futura cidade olimpíca e deixar de resolver problemas atuais (e antigos) do Rio?
Concordo em gênero, número e grau sobre o que você disse. Acredito (infelizmente) que essa não será a última tragédia decorrente das chuvas, mas quero acreditar que haverá soluções e ações para impedi-las e ameniza-las.
E boa sorte a todos nós cariocas!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Gabriela.

Infelizmente é verdade, e vemos no caso de Niterói como o poder público teve responsabilidade pela tragédia ao estimular a ocupação irregular de áreas de risco.

Abraços

P.R. disse...

nossa, gente. nem sei o que dizer disso tudo.