quarta-feira, 5 de maio de 2010

Revendo o TNP



A conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) começou segunda-feira em Nova York, em meio a um atentado terrorista frustrado em Times Square e poucas expectativas que os Estados Unidos consigam avançar em seus principais objetivos: obter apoio ampliado ao Protocolo Adicional e deter o programa atômico do Irã.

Isso ocorre porque a última década foi marcada pela proliferação nuclear de países que não são signatários do TNP (Índia e Paquistão) ou que o abandonaram (Coréia do Norte). Os países do Oriente Médio estão descontentes com a estagnação do projeto de transformar a região numa zona livre de armas nucleares. Embora temam o Irã, ressentem-se da aliança americana com Israel, que continua a desfrutar de apoio apesar de ter a bomba atômica e nunca ter assinado o TNP.

O governo Obama tem feito esforços significativos no campo do desarmamento. Conseguiu assinar o Novo START com a Rússia, o primeiro acordo do tipo em 20 anos, pelos quais os EUA reduzirão seu arsenal atômico de 5.100 para 1.500. Antes do TNP, o número chegara ao pico de cerca de 31.200. A conferência de segurança nuclear presidida por Obama implementou algumas medidas de controle de materiais sensíveis, basicamente para proteção contra terrorismo. Há possibilidades de que o Congresso dos Estados Unidos finalmente ratifique o tratado que proíbe testes nucleares (CTBT).



O Brasil tem se esforçado para que o Irã não seja submetido a sanções, e também se opõe ao Protocolo Adicional ao TNP. Esse instrumento, de caráter voluntário, foi criado em 1997 e estabelece inspeções bastante intrusivas, inclusive visitas sem aviso. Se aderissem a ele, as autoridades brasileiras teriam que ampliar o monitoramento de instalações como a Fábrica de Combustível Nuclear de Resende, centro da tecnologia própria de enriquecimento de urânio desenvolvida pelo país. A Agência Internacional de Energia Atômica tem acesso restrito ao local, para proteger os segredos industriais brasileiros.

10 comentários:

brunomlopes disse...

Imagine um país sentado na segunda maior reserva de gás natural do mundo. É difícil transportar esse combustível para o exterior, mas ele queima que é uma beleza, e é ótimo para produzir energia elétrica. Esse mesmo país pesquisa a energia nuclear freneticamente e diz que é para... fins pacíficos!

Para fins médicos não é preciso ter uma grande usina, e o Irã pode produzir toda sua energia com gás natural. O Brasil realmente precisa de energia nuclear, mas me sinto envergonhado em ver o país apoiando um país que tenta fazer um truque desses.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Bruno.

Acho que ninguém acredita que o programa nuclear iraniano é para fins pacíficos. Nem o governo brasileiro, apesar das declarações em contrário.

Mas impressiona a capacidade de Teerã em jogar com o TNP, há vários anos o regime iraniano tem conseguido levar adiante seus projetos, a despeito da forte oposição internacional.

Abraços

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio e Bruno, o Irã precisa sim do programa nuclear para economizar petróleo e assim vende-lo, o problema não seria o Gás e sim Petróleo.

O campo de gás de South Pars é o maior do mundo, mas também os iranianos sabem que graças a ele, a China tem sido um "bom" aliado e o comportamento oscilante da Rússia fica controlado, afinal se eles entrassem no mercado para valer o preço do produto iria ao chão.

Por isso, o Irã consegue, assim como a Corea, India, Paquistão e Israel fugir de maiores embaraços causados pelo TNP...ou seja, tendo padrinho vc faz qualquer coisa até terrorismo de estado e massacres sem grandes celeumas na imprensa livre, afinal o país com maior de presos sem nenhuma acusação dizem que é uma "democracia"

Sobre as razões de Brasil e África do Sul de não apoiar, vão não apenas de aspectos comerciais, mas muito se parece que depois do Irã outros países serão a bola da vez (principalmente o Brasil), por que a única garantia possível que vc não vá construir é não tendo programa algum.

Mesmo na India hoje há artigos que dizem que o governo tem que rever a sua posição a favor das sanções aos iranianos que interessa e muito um Irã forte que é um contraponto ao instável Paquistão.

E a posição americana ficou muito ruim, quando Israel negou-se a ir e Obama não fez nada...os indianos estão muito desconfiados com tudo.

Agora pensando nos membros do Conselho de Segurança, o Irã tem seguramente contra si:
França, Reino Unido, EUA, Aústria, México, Japão ...A seu lado Rússia, China, Brasil, Turquia, Libano, Nigéria.

Fica a posição ainda não declarada: Bósnia e Herzegovina e Gabão, Uganda. O primeiro deve estar louco para ficar neutro...já, os outros dois votos, os países apesar das pressões de Washington são grandes beneficiários investimentos chineses e a Organização Africana é controlada por Muammar Khadafi.


Agora com o Líbano tornando-se presidente do conselho é difícil pensar que vai haver alguma mudança a não ser essa guerra fria.

O impasse do Irã continua para desespero de Obama e os falcões.

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Não imagina todo o que aprendi com o artigo e os comentários!
Não savia que o Israel não tinha ratificado o TNP. Lembro que faz muiiiiiiiiiito tempo, numa revista infantil, digamos do ano 1999, tinha lido que o Israel estiva por firmar o TNP em breve, que a Índia não iva signar se o Pakistão não o fazia primeiro e que Pakistão não iva signar se a Índia não o fazia primeiro. E isso parece escrito no 2010! Que triste, realmente!
Beijos

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Salve, Marcelo.

Quando o xá começou o programa nuclear, se não me engano na década de 1960, o argumento era a produção de energia para fins pacíficos.

No entanto, o Irã se destacava na Opep por suas posições agressivas, em defesa do aumento da produção de petróleo, de modo que a questão não era exatamente encontrar uma alternativa aos hidrocarbonetos. Tratava-se mais de dominar uma tecnologia estratégica.

Tudo isso se agravou bastante com a ocupação estrangeira de dois vizinhos, Afeganistão e Iraque. É lógico que o Irã quer a bomba, eu também desejaria se estivesse em seu lugar.

É improvável que a Índia apóie o Irã, que é aliado tradicional do Paquistão, e inclusive contou com colaboração paquistanesa em seu programa nuclear.

Dom Patricio,

Muito apropriado que a promessa de desarmamento de Israel estivesse em um livro para crianças. Como dizemos no Brasil, contos de fada!

Abraços

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Eu concordo com vcs que o Irã quer a bomba atômica, mas que existem bons argumentos internos para tecnologia de fins pacíficos.

Todo país precisará investir em tecnologia nuclear para fins pacíficos.

Agora que o governo deles quer para ter bombas e o nosso para ter subnucs é claro para mim também.

Quanto ao Paquistão é novidade para mim Maurício, por que o governo de Islamabad apoia os arqui-rivais talibans, sempre foi um aliado dos EUA, e ainda seu serviço secreto é acusado de dar logística a guerrilha sunita Jundollah (acho que esse ano foram acusados formalmente depois de um atentado).

Procurei outros artigos, mas esse o analista indo tem quase a mesma idéia que eu...apesar de parecer "romantica"
seria um mundo melhor...claro sem armas nucleares, na India, Paquistão e Irã...quem sabe em Israel também
http://beta.thehindu.com/opinion/lead/article389895.ece?homepage=true

abs,

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Eu concordo com vcs que o Irã quer a bomba atômica, mas que existem bons argumentos internos para tecnologia de fins pacíficos.

Todo país precisará investir em tecnologia nuclear para fins pacíficos.

Agora que o governo deles quer para ter bombas e o nosso para ter subnucs é claro para mim também.

Quanto ao Paquistão é novidade para mim Maurício, por que o governo de Islamabad apoia os arqui-rivais talibans, sempre foi um aliado dos EUA, e ainda seu serviço secreto é acusado de dar logística a guerrilha sunita Jundollah (acho que esse ano foram acusados formalmente depois de um atentado).

Procurei outros artigos, mas esse o analista indo tem quase a mesma idéia que eu...apesar de parecer "romantica"
seria um mundo melhor...claro sem armas nucleares, na India, Paquistão e Irã...quem sabe em Israel também
http://beta.thehindu.com/opinion/lead/article389895.ece?homepage=true

abs,

brunomlopes disse...

Mauricio,

antes do primeiro choque do petróleo a Opep era quase uma Rainha da Inglaterra, já que o mercado internacional de venda de petróleo era praticamente de concorrência perfeita.

Marcelo,

o Irã não quer economizar petróleo. Eles subsidiam os derivados (gasolina, diesel) para consumo interno há décadas, e não querem acabar com essa política. Chegam a importar derivados, o que é pago pelas enormes exportacões de petróleo cru.

E é difícil vender gás natural para o mercado externo, há pouco tempo a tecnologia do GNL começou a ser desenvolvida. Ele quer a bomba nuclear, simples assim. Venham me falar de geopolítica e outras coisas, mas me sinto desconfortável em ver o meu país apoiando um governo que quer a bomba nuclear e se esconde atrás de desculpas esfarrapadas.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Marcelo.

Sim, o Paquistão tem alianças absolutamente contraditórias: EUA, China, Irã, Coréia do Norte, Talibãs. Em grande medida porque sua elite dirigente é incrivelmente fragmentada, entre Forças Armadas, serviço de inteligência, partidos, etnias, fundamentalistas religiosos, líderes tribais. A porção ocidental tentou genocidar o lado oriental do país, resultando em sua secessão como Bangladesh.

Bruno,

A Opep só teve peso político como grupo de pressão após 1973, mas era importante como fórum de debates entre os grandes produtores, e os conflitos entre o Irã do xá e a Arábia Saudita marcaram época.

A monarquia do Golfo, bem mais conservadora, queria segurar a produção, entre outras razões porque temia os impactos de um afluxo muito acelerado de dinheiro sobre a frágil estrutura de equilíbrio entre a família real e os clérigos wahabitas.

A julgar pelo que os aiatolás aprontaram com o xá, os sauditas tinham lá suas razões...

zealfredo disse...

Caro professor,

Você vê alguma vantagem para o Brasil no caso de assinatura do protocolo adicional ao TNP?
E que tal estas notícias (ou seriam boatos?) de que os Estados Unidos estariam convencendo a Argentina a também assinar este protocolo adicional?