domingo, 22 de abril de 2007

Roma



Por conta do trabalho na tese, tenho passado mais tempo em casa. Costumo intercalar a escrita com algum filme na TV a cabo mas nos últimos dias assisti aos DVDs da primeira temporada da série "Roma", co-produção da HBO e da BBC. Eu havia visto os dois episódios iniciais e adorado. O resto só reforçou essa opinião.

"Roma" é ambientada nos anos finais da República, um dos períodos mais conturbados da história daquela civilização. A austera cidade-Estado dos primeiros séculos conquistara um enorme império que se estendia da Espanha à Turquia, mas nesse processo o poder se concentrara nas mãos dos aristocratas e a economia passou a depender cada vez mais do trabalho escravo e do latifúndio. Os conflitos sociais estouraram por toda parte: nobres x plebeus, italianos x romanos, escravos x homens livres... Era questão de tempo até aparecer um homem forte que centralizasse as instituições do Estado. Sila, Catilina e César tentaram, coube a Otávio realizar o feito e se tornar imperador.

A primeira temporada conta a guerra civil entre César e o Senado (na foto, uma animada contenda parlamentar entre os dois partidos), a segunda foca na luta por sua herança política entre seu aliado Marco Antônio e seu sobrinho-neto Otávio. A intriga em Roma é excelente, em particular nos episódios escritos pelo produtor da série, Bruno Heller. Meu favorito é o segundo, no qual César toma a decisão de atravessar o rio Rubicão e entrar na Itália com suas legiões, um crime gravíssimo pela lei romana.

A grande sacada da série é fazer o espectador entrar na história acompanhando dois personagens do povo, soldados da 13a Legião de César. Lúcio Voreno é o centurião exemplar, cidadão-modelo da República, que por seu prestígio junto à tropa é arrastado a contragosto para o esquema de favores e apoios políticos de César, a quem considera um aventureiro perigoso. Tito Pullo é o soldado fanfarrão, amante das mulheres, bebida, jogo e de uma boa briga. Os dois são unidos por uma forte amizade e enfrentam perigos que os levam das guerras na Gália, Grécia e Egito às disputas nas ruas de Roma.

Os conflitos pessoais dos dois soldados - a esposa infiel de Lúcio e a busca de Tito por um amor que preencha o vazio de sua vida - são intercalados com as tramas das famílias nobres de Roma, em particular a guerra de morte travada entre a sobrinha de César, Átia, e a ex-amante do líder, Servília.

As legendas da HBO são cheias de problemas e traduzem errado o nome de alguns personagens históricos (por exemplo, o rígido defensor dos valores éticos da antiga Roma chama-se Catão e não Cato) além de perderem aspectos importantes da trama, como a linguagem vulgar e agressiva dos soldados. Nada que realmente comprometa o produto final, mas poderia ser melhor cuidado.

Anteontem revi "Spartacus", também em DVD, cuja trama se passa cerca de 25 anos antes do início da série. O filme é realmente magistral e emocionante. Da fina ironia dos atores ingleses que interpretam os aristocratas romanos à beleza do enredo romântico, passando pelo épico politico da luta dos escravos. Foi o primeiro filme romano que não tinha mensagem religiosa e se concentrava simplesmente na questão da liberdade e da dignidade. O excelente roteiro é de Dalton Trumbo, escritor que encabeçava a lista negra de Hollywood, acusado de comunista. Ele salpicou referências muito interessantes ao McCarthismo no filme, como o momento em que o general calhorda que persegue Spartacus anuncia ter listas de "cidadãos desleais" em cada cidade da Itália. Genial.

2 comentários:

Marcus disse...

Essa coisa de legendas mal feitas... pfff, nem reclamo mais, já me conformei que alguns tradutores não têm interesse em conhecer sobre o que estão escrevendo.

Tem tradutores amadores nos sites de compartilhamento de arquivos, trabalhando de graça, que fazem legendas melhores que as profissionais. Inclusive ao adaptar o coloquialismo e a linguagem de baixo calão do original.

Eu li o livro do Joachim Fest que serviu de base ao roteiro do Trumbo sobre Spartacus. Excelente.

Mauricio Santoro disse...

Ave, Marcus.


O livro que inspirou Spartacus é do Howard Fast (Joachim Fest é um excelente historiador alemão). Eu o li há muitos anos, não me recordo direito dos detalhes. Lembro apenas de que gostei, mas achei o filme muitíssimo melhor do que o romance.

Abraços