domingo, 3 de junho de 2007

Venezuela: regras do jogo



O conflito entre Chávez e a emissora RCTV ilumina as perversas regras do jogo entre governos e empresas de comunicação na América Latina. Um sistema em que as concessões são dadas pelo Estado a um oligopólio de grandes conglomerados só pode resultar em corrupção e conluio destes com as autoridades ou então na violência praticada pelos atuais inquilinos do poder político contra aqueles que lhes contrariam.

A liberdade de expressão é um valor muito nobre, qualidade nem sempre presente entre os que a defendem. Na Venezuela isso é claro. Chávez tentou um golpe militar em 1992. Falhou, foi preso, depois anistiado, criou um movimento político e foi eleito democraticamente em 1998. A oposição tentou derrubá-lo com um golpe militar em 2002. As TVs participaram ativamente da intentona anti-democrática, ocultando informações e mentindo ao público. Mas tanto no caso do presidente quanto entre seus opositores, a adesão à democracia se dá apenas na medida em que o sistema atende a seus interesses imediatos. Não existe donzela na casa de tolerância da política venezuelana.

Tampocou na brasileira. É curioso ver os magnatas de comunicação do Brasil subitamente convertidos à causa da liberdade de expressão. Não me refiro sequer ao apoio que sempre prestam às ditaduras de plantão em nosso país, mas em algo bem mais recente. No ano passado tivemos um debate sobre TV digital. Os movimentos sociais queriam a escolha de um padrão que permitisse mais canais disponíveis para associações comunitárias, redes locais. Enfim, pluralidade de vozes. Claro que venceu o oposto, que concentra o poder comunicacional nas mesmas grandes empresas habituais. Que agora se descobriram defensoras da liberdade de expressão. Tocante e comovedor. Tomara que comecem também a praticá-la, se isso não for pedir muito.

Hipocrisias à parte, o que quer Chávez ao tirar do ar a RCTV? O presidente venezuelano está há quase dez anos no Palácio Miraflores. Tempo suficiente para desgastar até mandatários menos propensos ao conflito do que ele. Vem tentando institucionalizar seu movimento político, criando um partido que dê um pouco mais de estabilidade a suas propostas. E o faz num cenário econômico mais difícil: os preços do petróleo já caíram significativamente com relação ao momento de alta máxima, no início da guerra do Iraque. A cojuntura complicada explica as nacionalizações que Chávez promove em vários setores da economia, a ofensiva contra a imprensa repete seu padrão de buscar inimigos e aumentar seu poder às custas dessa confrontação. Parece o primeiro período de Perón (1946-1955) mas há limites para a estratégia. Chega o momento em que tantas disputas deixam o governo isolado e frágil diante da oposição.

O que torna a situação de Chávez mais difícil do que a de Perón é que o mundo contemporâneo é muito mais sensível às questões ligadas à democracia e direitos humanos do que há cinco décadas. A soberania não é um escudo atrás do qual os governantes possam esconder-se de seus erros, ela é antes uma série de compromissos assumidos por cada país - com sua população e com a comunidade internacional. Não à toa o presidente da Venezuela tem entrado em confronto com uma série de parlamentos (Chile, Brasil, União Européia) e instituições multilaterais (OEA, ONU).

7 comentários:

Paulo Gontijo disse...

Maurício,
duas questões muito graves também tem sido pouco exploradas. O crescimento exponencial da violência no governo Chavez e o aumento da inflação. Neste , chegou ao ponto do presidente ameaçar estatizar supermercados para tabelar preços. Tabelamento de preços te lembra algo?
Abs
Paulo

Marcus disse...

Concordo inteiramente com o seu post, mas vim aqui só pra avisar que coloquei um link naquele post seu sobre cinema brasileiro, que deve lhe interessar.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Paulo.

Puxa, eu falava da questão da violência outro dia em aula, a Venezuela é um dos piores países do continente nesse aspecto, está no nível da Colômbia e do Brasil.

Congelamento de preços certamente me lembra algo. Plus ça change, plus c´est la même chose.

Olá, Marcus.

Não foi o site do Inácio Araújo? Já o coloquei na lista de favoritos.

Abraços

Igor disse...

É irônico que Chávez tenha atacado justamente o Senado brasileiro, quando a ratificação da entrada da Venezuela no Mercosul ainda depende da aprovação do Congresso daqui e de seus congrssistas-donzelas....

Não vou entrar no mérito da honra de nossos ilustres senadores, senão vou ter que deixar a caixa de comentários em branco, afinal só vislumbro o vazio quando penso no assunto.

Mas a atitude de Chávez é muito preocupante. Que canais de comunicação sempre ficam nas mãos dos mesmos já é uma máxima antiga, aqui, na Venezuela, nos EUA ou na Europa. Espero só que as medidas autoritárias daqui a pouco não se voltem para a internet! Imagina se Chávito resolver censurar os sites de oposição a ele, vai ser um Deus nos acuda virtual!!

Paulo Gontijo disse...

Um detalhe interessante foi que o Chávez acabou com o senado na Venezuela. Se não me engano, o congresso lá é unicameral agora.

Alessandro disse...

Chávez é um ditador de merda, refil de Fidel Castro até na retórica (?!) irada contra o Tio Sam. Violência em alta, inflação idem, 70% da população do país contra o fechamento da RCTV, ameaças a outras emissoras. Fora as inúmeras ingerências na política externa de outros países, levando (mais) instabilidade a um continente já pouquíssimo estável. E aqui? Lula disse apenas que ele "cuida do Brasil e Chávez, da Venezuela". Porra, se isso não é lavar as mãos e se eximir de condenar o autoritarismo do 'parceiro', não sei que diabos é. Devia logo ter dito que achou bacana a medida do coronel-golpista e pensa em fazer alguma coisa semelhante - essa Veja bombardeando o amigão Renan, onde já se viu? Sobre o Ibama, por exemplo, o Iluminado já disse que o fecharia, se pudesse. Maravilha. Ulalá.

PS: Quantos idiotas aparecerão para defender o democrata Chávez? Muitos, decerto. Plínio, Alvaro e Montaner são mesmo os gênios da raça.

Mauricio Santoro disse...

Salve, meus caros.

Li nos jornais desta terça a notícia sobre a mobilização do PSDB e do DEM (pois é, agora até a UDN-Arena-PDS-PFL é pró-democracia...) para impedir a entrada da Venezuela como membro pleno no Mercosul.

Não sei se até que ponto a ação anda, porque os interesses econômicos do Brasil na Venezuela são muito grandes. Mexe com Petrobras, com Odebrecht... E o Congresso brasileiro não é papagaio dos EUA, esse nível de submissão nossos parlamentares só conhecem com empreiteiras. A ver.

Outro fato do dia de ontem foi a discussão na OEA, com o bate-boca entre Condoleeza e o chanceler da Venezuela. A coisa esquentou e acho que não pára por aí.

Mesmo que Chávez consiga manter a RCTV fora do ar, o desgaste político que ele sofreu foi enorme, não compensa os eventuais ganhos que ele tenha nas disputas internas.

Abraços