segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

A Culpa é do Fidel



Julie Gavras é filha do cineasta Costa Gavras e dirigiu e roteirizou o belíssimo “A Culpa é do Fidel”, que conta de maneira bem-humorada, inteligente e sensível a história de uma menina que vê seu mundo virar de pernas para o ar quando seus pais se tornam ativistas políticos de esquerda, na França dos anos 70. Embora o filme seja baseado num romance italiano, aposto que há muito de autobiográfico na trama.

A família De la Mesa vive confortavelmente em Paris, mas a paz esconde as inquietações do pai (interpretado por um ator italiano do qual gosto muito, Stefano Accorsi), um espanhol que não consegue lidar com o apoio que sua aristocrática estirpe dá a Franco. Ele se aflige com um forte sentimento de culpa quando seu cunhado anti-fascista é assassinado e resolve fazer algo. Como estamos em 1970, as coisas estão acontecendo é no Chile e papai e mamãe De la Mesa se tornam militantes em defesa de Salvador Allende e de outras causas progressistas, como o direito ao aborto.

A menina Anna precisa então entender uma série de fatos novos e inesperados que se sucedem em sua vida, como a alta rotatividade de suas babás (todas refugiadas de regimes de direita) e as reuniões inifinitas que passam a acontecer no apartamento da família, com tipos barbudos de discursos esquisitos, caixas cheias de papéis, brigas dos pais com os avós e o contraste entre seu cotidiano e a rotina do rígido colégio de freiras onde ela é educada.

O filme é de uma delicadeza e de uma poesia cotidiana digna dos melhores momentos de mestres como Ettore Scola. As situações vividas pela família são impagáveis e a carinha de enfezada de Anna já vale o ingresso. Para além da diversão, “A Culpa é do Fidel” trata de maneira muito bonita dos conflitos entre valores, ideais, afetos e a vidinha de classe média e faz uma bela discussão sobre o que significa ser solidário.

Os personagens cometem erros, hesitam, metem os pés pelas mãos e machucam as pessoas que amam. Mas são capazes de mudar. Ao fim, transformaram-se em novas pessoas, se defrontaram com aspectos negativos de si mesmos e do mundo e cresceram com a experiência, expandindo seus horizontes. E nós, maravilhados, saímos da sessão com a admiração por essa talentosa cineasta, para se acompanhar com atenção. Neste dia dedicado à solidariedade, fica esta dica. Feliz Natal a todos vocês.

10 comentários:

Anônimo disse...

Olá Maurício, acabei de ver o filme de Julie Gravas e incorfomada com as críticas de direita que têm saído na mídia acabei encontrando seu blog! Parabéns pelo seu texto, o filme é lindo mesmo! Que bom que alguém sensível escreveu sobre!
Abraços,
Cris Miranda

Mauricio Santoro disse...

Salve, Cris.

Ainda não li críticas negativas ao filme, a maioria das avaliações o colocou em alta categoria. Achei um trabalho belíssimo e a última cena, da menina na escola, é simplesmente um primor.

Abraços

Guilherme disse...

Realmente, Mauricio! Falou tudo sobre o filme: belíssimo!
O filme vale até 2 ingressos!

Parabens pela resenha! =D

Mauricio Santoro disse...

Vale sim, Guilherme, e mais a pipoca. Um bom filme não acaba junto com a sessão, as cenas e emoções permanecem conosco.

Abraços

Mila Oliveira disse...

Adorei o filme. Muito interessante os questionamentos da Anna sobre seus valores, suas dúvidas sobre o "estar sempre certo", suas impressões sobre a sociedade, etc.

Teresa disse...

Encontrei o seu blog porque procurei análises ao filme "Por culpa de Fidel". E a sua análise vem ao encontro do que achei dele, um filme inteligente e delicioso...
Na minha cidade, Braga, passa apenas como "filme de culto", apenas uma vez por dia e durante uma semana, com uma audência reduzida. Mesmo assim, obrigada a quem os passa!

Obrigada T.

Mauricio Santoro disse...

Olá, Teresa.

Não é tão diferente deste lado do Atlântico. Estive aí em Braga em 2002, um amigo fraterno estudou na Universidade do Minho.

Abraços

Renam disse...

Maurício,

Parabéns pelo texto. Muito bom!

Tive impressões parecidas.

Se for escrever algo sobre o filme, citarei o seu texto para evitar repetir o que já foi dito. Aviso aqui se isso acontecer.

Um abraço,

Renam Brandão

Lair disse...

Maurício, você leu a opinião do Luiz Fernando Gallego, do site "Críticos.com.br"?
Para ele, o roteiro do filme é muito ruim e a diretora conduz o filme com "competência artesanal mediana".

Bruna disse...

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