terça-feira, 23 de setembro de 2008

Nacionalismo na América Latina



Nos últimos 25 anos o estudo do nacionalismo passou por rica reformulação, em parte estimulada pela obra-prima “Comunidades Imaginadas”, de Benedict Anderson, e muito também pelo ressurgimento dessas ideologias na Europa, na esteira da queda do comunismo, e da necessidade de entender o lugar que tais correntes de pensamento ocupam nesta época de integração regional e instituições globais. A voga começou a chegar na América Latina e tem rendido pesquisas instigantes, como se pode comprovar pela leitura de “Nacionalismo no Novo Mundo: a formação de Estados-Nação no século XIX“, coletânea organizada pelos historiadores Marco Pamplona e Dan Doyle, que também dirigem a Association for Research on Ethnicity and Nationalism in the Americas.

Embora metade dos artigos digam respeito aos Estados Unidos, me limitarei a comentar os textos sobre a América Latina, e o livro tem ensaios muito bons sobre Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Cuba e México – aliás, Pamplona é organizador de excelente série de livros sobre a independência das nações do continente.



Basicamente, os autores se dividem entre estudar as manifestações da criação da nacionalidade realizadas pela elite (como obras artísticas e literárias) e abordar os processos de construção popular (rebeliões, festas, lutas políticas) que envolveram os pobres, em particular índios e negros. Ambas as abordagens são necessárias e têm seu valor, mas gostei mais dos artigos que seguem o segundo enfoque.

De maneira geral, o país latino-americano que teve algum sucesso em incorporar as etnias discriminadas à nova nacionalidade foi o México, mesmo que de maneira mais simbólica do que concreta, pelo menos até a Revolução do início do século XX - abaixo, mural de Diego Rivera sobre a história mexicana. Os artigos observam o padrão de elites que buscam, quando muito, atrair os mestiços (Bolívia, Brasil, Colômbia), recorrer em massa à imigração européia (Argentina) ou se dividir entre a expressiva participação dos negros nas guerras de independência e a recusa em aceitar o papel da questão racial para a formação da nacionalidade (Cuba).



Os estudiosos do nacionalismo europeu têm ressaltado os papéis primordiais exercidos pela imprensa e pela escola em construir cidadãos e consolidar a imagem de um país unificado, com o culto aos heróis, história, batalhas gloriosas etc. Na América Latina, a Argentina reproduz o modelo de modo impressionante, principalmente como maneira de transformar em argentinos a massa de imigrantes que desembarcavam no porto de Buenos Aires. Nos demais países analisados, a fragilidade do sistema educacional impediu a estratégia escolar, mas há certo consenso de que a imprensa e as festas patrióticas de algum modo cumpriram essas funções. Gostaria de ler mais a respeito, é um ponto que merece pesquisas.

Outra questão da qual senti falta foi a economia do nacionalismo. Que tipo de pensamento os próceres latino-americanos tinham sobre o tema, em época na qual seus países dependiam totalmente do comércio de poucos bens agrícolas ou minerais com a Europa? O próprio sistema tributário do período era muito voltado para as rendas da alfândega, o que rendia disputas intermináveis na Argentina, por exemplo. Em que medidas tais circunstâncias influenciaram e restringiram a doutrina dos novos Estados?

Esta primeira década do século XXI tem sido marcada por governos latino-americanos fortemente nacionalistas e embora eu seja simpático a muitas dessas manifestações, há um lado sombrio que aparece com freqüência, e tem conseqüência tanto em medidas econômicas nocivas quanto em retóricas estridentes e choques de fronteira, às vezes beirando o militarismo e a guerra. Felizmente não somos os Bálcãs ou o Cáucaso, mas penso que está na hora de refletir mais demoradamente sobre os significados do nacionalismo para as relações entre os países da região, em particular diante dos processos de integração que se multiplicam por aqui. Fiquei entusiasmado pela leitura de “States and Power in Africa”, de Jeffrey Herbst, que tem abordagem semelhante e nada impede pesquisa assim na América Latina.

5 comentários:

Jonas disse...

Com certeza, um tópico ainda muito atual. Sobre o nacionalismo latino-americano, gosto do Blood and Debt: War and the nation-state in Latin America, do Miguel Angel Centeno. No tocante à África, o Crawford Young tem trabalhado bastante o assunto. Disponível na internet, há Revisiting Nationalism and Ethnicity in Africa (http://repositories.cdlib.org/international/asc/jscmls/Nationalism/). Seu livro The African colonial state in comparative perspective também é interessante. Numa perspectiva um tanto diferente, focando mais em questões de legitimidade e com um cariz mais quantitativo, recomendaria o Pierre Englebert (http://www.politics.pomona.edu/penglebert/). Abraço

Mauricio Santoro disse...

Caro Jonas,

Também gosto do livro do Centeno, é um trabalho muito interessante e que levanta a bola da guerra e da formação do Estado na América Latina, algo que precisa ser melhor compreendido.

Já ouvi elogios aos livros do Young, mas ainda não os conheço. Mais um para a wish list, obrigado pela dica.

Abraços

SAM disse...

É como você diz: há formas diferentes de nacionalismo.

Acredito que quando o nacionalismo é saudável e nos dá um senso de pertença e uma relação afetiva com um grupo de pares, ele é útil e permite o nosso crescimento e nos catalisa numa procura de sentido coletivo das nossas existências.

Mas quando ele é desenfreado, doentio é, como me parece que você disse, um caminho para a belicosidade.

Acredito que algum dia, tais sentimentos nacionalistas venham mesmo a ser substituídos por uma espécie de patriotismo mais abrangente, supranacional e transnacional. Já não se trataria, nesse caso, de estima ou respeito pela nação e participação em suas manifestações culturais, mas uma forma de amor pelo planeta no seu todo e pela humanidade inteira, envisionando não só a tolerância mas o verdadeiro respeito por todas as manifestações culturais mundo afora.

Depois de alcançados esses nacionalismos nos vários países latino-americanos, fortalecendo essa tal auto-estima nacional, acredito que serão esses mesmos países que, pelas características inerentes aos seus povos (afabilidade e multiculturalidade), poderão dar o exemplo do tal patriotismo mundial aos demais.

Um abraço.

Mauricio Santoro disse...

Olá, Sam.

Ando um pouco pessimista com relação ao nacionalismo latino-americano, mas gosto da idéia de Habermas sobre um "patriotismo constitucional" e democrático.

Abraços

Anônimo disse...

O Nacionalismo é a morte segura para o comunismo anti-nacional e apatrida! Morte ao comunismo!
Nacionalismo ou Barbárie!