sexta-feira, 7 de agosto de 2009

As Bases do Problema



Os Estados Unidos tradicionalmente consideraram o México e a zona que vai de Cuba ao Canal do Panamá como seu perímetro de segurança. Nela instalaram bases militares (como Guantánamo, foto acima) e realizaram intervenções armadas – para proteger interesses econômicos, debelar insurreições, ou repudiar a presença de outras grandes potências em sua área de influência.

Em geral, a América do Sul não foi palco de preocupações tão intensas. A exceção mais notável foi o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, quando o litoral nordestino ganhou importância estratégica para a invasão à África. Durante a Guerra Fria, predominavam os métodos usuais de apoiar regimes firmemente anti-comunistas, mas a presença militar direta era pequena.

Duas mercadorias mudaram o quadro: cocaína e petróleo.

Na década de 1970 a cocaína passou a ter alta demanda nos Estados Unidos. Sua matéria-prima, a folha de coca, é produzida sobretudo na América do Sul, na Colômbia, Peru e Bolívia. A “guerra contra as drogas” lançada por Washington tem como pilares a tentativa de erradicar o cultivo da planta, por meio da destruição dos cocales e os projetos de desenvolvimento alternativo que estimulem os camponeses andinos a se dedicarem a outros produtos, como arroz, palmito ou milho.

Embora as pessoas costumem pensar que os Estados Unidos dependem do Oriente Médio para seu fornecimento de petróleo, isso não é mais verdade desde a Guerra do Golfo. Após o conflito, o governo americano passou a apostar em fontes mais seguras de abastecimento, nas Américas: Canadá, México, Colômbia e Venezuela.

A instalação de bases militares na América do Sul faz parte de um quadro de expansão mais amplo, que começou na Segunda Guerra Mundial. Chalmers Johnson, o mais importante estudioso (e crítico) do assunto, estima que sejam 800 no mundo todo, e que sua manutenção custe mais de US$100 bilhões por ano.



A combinação da ofensiva da Colômbia contra a guerrilha com as tensões políticas na Venezuela levou as Forças Armadas americanas a redefinir sua política de segurança internacional. Os dois países foram incluídos na zona prioritária, junto com México, América Central e Caribe. Tem havido certo fortalecimento do Comando Sul, que se dedica à região – o maior símbolo é a reativação da IV Frota, velho instrumento da Guerra Fria. Mas os recursos são limitados pelas dificuldades econômicas e pela prioridade conferida a muitos, muitos outros lugares, em particular na Ásia.

Nas décadas de 1990 e 2000 o Brasil teve papel destacado como mediador dos conflitos na América do Sul: na guerra entre Peru e Equador, em crises na Bolívia e na Venezuela, nas tensões envolvendo esse país, a Colômbia e o Equador. Com freqüência essa atuação teve mais realce que a dos Estados Unidos, uma vez que desperta menos controvérsias e receios entre os países da região.

Obama tem feito belos discursos sobre a necessidade de não repetir os erros do passado nas relações com a América Latina. Para manter a coerência entre intenção e gesto, deveria propor mecanismos de colaboração para a resolução pacífica de crises. Ampliar a presença militar dos EUA na região irá aumentar o radicalismo e a polarização política em momento no qual um pouco de moderação e espírito de compromisso não fariam mal algum ao continente, em particular às nações andinas.

9 comentários:

Rafaela Rodrigues disse...

A presença militar dos Estados Unidos na América do Sul supõe uma ingerência que, acreditávamos, a administração Obama poria fim.

Não é bem assim que a banda toca, pelo que estamos vendo...

Abs! Rafa.

http://humanrightsjournal.blogspot.com/
http://passodecaranguejo.blogspot.com/

Mauricio Santoro disse...

Pois é, Rafa. Obama havia acenado com outro tipo de política e me decepciona vê-lo recorrendo a uma iniciativa tão ruim para a região.

Abraços

Patricio Iglesias disse...

Meu caro Maurício:
É verdade o que você diz. De todos modos, as intervenções se limitam ao Caribe e, digamos, não é uma mudança do "cordão sanitário" muito grande, menos pensando em experiéncias do passado como a imposição do Gómez na Venezuela.
Saludos!

carlos disse...

caro santoro,

entre o "yes, we can" e departamento de estado com os lobbies armamentistas, vai uma grande distancia que o obama, dificilmente, poderá encurtar.

basta ver a fox e a cnn sobre a proposta do presidente em criar um plano de saúde popular. só não o chamam de santo. outra derrota, na certa. uma pena.

abçs

Pedro disse...

Maurício, de fato a política de Obama para a América do Sul não agrada. A crescente militarização é uma resposta à aproximação Venezuela-Russia, que se traduziu em exercícios militares conjuntos no mar do caribe(!) e na compra de AK-47s para equipar as milícias populares na Venezuela.

Fica feio para a Colômbia, país que boicota sistematicamente qualquer tentativa de organização da região sul da América, invade território estrangeiro (Equador) e agora tenta desequilibrar a balança de poder na América do Sul.

Será que Uribe vai tentar o terceiro mandato? Será que os Americanos vão chamá-lo anti-democrático?

Parabéns pelo post.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos.

Pois é, acompanho de longe o debate sobre o sistema de saúde americano e me impressiona a distância dos EUA nesse aspecto dos países europeus, mesmo do mais liberal, o Reino Unido, que tem o excelente National Health System, fruto dos debates sociais durante a guerra.

Olá, Pedro.

Não creio que a expansão das bases seja uma resposta à aproximação entre Rússia e Venezuela, na verdade vejo esse movimento muito mais como uma resposta russa às alianças que os EUA construíram no Cáucaso.

Os exercícios navais conjuntos no Caribe foram muito modestos, a situação da Marinha russa é bastante complicada e ela tem pouca capacidade de projeção de poder, fora de seu exterior próximo.

Abraços

Mauricio Santoro disse...

Dom Patricio,

respondendo à sua solicitação no outro post, eis minha réplica ao seu comentário:

"Sim, é verdade!" :-)

glaucia disse...

Sem entrar no debate da necesidade de essas bases espalhadas pelo mundo, queria lembrar das terriveis consequencias que essa presença podem causar. Tive a oportunidade de visitar a base de CLARK, nas Filipinas, curiosamente abandonada poucas semanas asntes da explosao do vulcao PINATUBO, em 1991. Chegaram a viver na base 15000 pessoas, entre militares e familiares. O lugar conserva ate hoje bonitos jardins, e casas sem muro, como num verdadeiro suburbio americano. E do outro lado do portao, a cidade de Angels, que vivia para alimentar a Base, hoje nao passa de um povoado miseravel, onde a base da economia é a prostituiçao. Um realidade de contrastes impressionantes.

Mauricio Santoro disse...

Olá, Glaucia.

Muito interessante sua experiência. De fato, o estímulo à prostituição e jogo costuma ocorrer com a concentração dos soldados nas bases, fora outros problemas, como acidentes de trânsito, brigas de bar e até crimes sexuais.

Abraços