segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um Século em Nova York



Virei fã de Marshall Berman quando li “Tudo que é Sólido Desmancha no Ar”, uma jornada fascinante pelas relações entre as metrópoles e a cultura moderna. “Um Século em Nova York – espetáculos em Times Square”, segue linha parecida, para dissertar sobre a história da praça mais famosa da Grande Maçã, onde a Broadway encontra a Rua 42. Local de arte, de consumo e publicidade, passarela para ser visto e para ver. Para usufruir do direito à cidade.

Berman é professor da City University of New York, conhecida de maneira bem-humorada como “Harvard dos pobres” pela mistura de brilhantismo acadêmico e origem humildade de muitos de seus alunos e professores. O próprio Berman se enquadra na classificação, e como sabem os leitores de seus livros anteriores, há sempre algo de autobiográfico em suas obras.

Começa o panorama da Times Square no fim do século XIX – quando a praça ganhou o nome atual, com a construção do prédio-sede do jornal New York Times, e o famoso visual luminoso, com a chegada da eletrificação urbana. E acompanha os altos e baixos até a época atual. O melhor são as análises da Segunda Guerra Mundial e dos anos dourados que se seguiriam – não por acaso, a juventude do autor.



Como os outros livros de Berman, “Um Século em Nova York” não é história clássica e didática, é mais a reunião de ensaios que tratam de um tema comum, com digressões que me parecem variadas e fascinantes, mas que alguns leitores podem achar um tanto confusas. Os textos de que mais gostei foram a narrativa de como judeus e negros criaram a moderna cultura popular da Broadway (tomando como ponto de partida o conto/peça/filme “O Cantor de Jazz”) e uma digressão fascinante sobre os marinheiros em Times Square, que começa com a célebre foto do marujo beijando a enfermeira no dia da vitória na Segunda Guerra Mundial.

Sempre adorei a imagem e aprendi com Berman que o fotógrafo era um refugiado judeu que escapara de Hitler, e que os dois protagonistas nunca foram identificados. A foto ficou como um símbolo de alegria de viver e liberdade, e Berman me convenceu de que há uma longa associação entre marinheiros e democracia, que remonta à Atenas clássica e passa por Gene Kelly em filmes como “Um Dia em Nova York”. O Vietnã levou a questionamentos dessa visão mais idílica das Forças Armadas e a filmes como “A Última Missão” (que embora não seja ambientado em NY tem estrutura parecida, mas um panorama mais sombrio) e até episódios da série Sex and the City desenvolvem variações sobre o tema.

É bem conhecido que Nova York passou por séria crise na década de 1970, com a falência financeira da prefeitura, a falta de ajuda do governo federal (Berman afirma que até hoje tem pesadelos com a voz do presidente Gerald Ford negando o auxílio à cidade) e o aumento exponencial da violência urbana. Os trechos que tratam do tema são bem mais melancólicos, mas há boas observações sobre a pornografia, o submundo e a misoginia no quarteirão conhecido como deuce – que renderam algumas das melhores seqüências do filme “Taxi Driver”, analisado no livro.

Pena apenas que Berman seja tão mau humorado com as reformas em Nova York a partir da década de 1990. Gostaria de conhecer mais sobre o tema e entender os novos significados da cidade após o terrível trauma do 11 de setembro.

2 comentários:

DD disse...

puxa, tudo que é sólido ... tb me marcou muito! Um séc em NY deve ser show. Na lista para qdo eu passar (logo, logo!).

Mudando de assunto, encontrei um site que me fez lembrar de vc por diversas razões, vc o conhece? :
http://seminariogargarella.blogspot.com/

Mauricio Santoro disse...

Olá, Dani.

Não conhecia, mas é bem interessante. Bem que preciso mesmo entender melhor o direito.

abraços