terça-feira, 25 de agosto de 2009

Joaquim Nabuco



Pode parecer estranho, mas o Congresso brasileiro já teve estadistas que davam orgulho ao país.

No fim de semana estive no Rio de Janeiro e aproveitei para visitar a recém-inaugurada exposição sobre Joaquim Nabuco, no Museu Histórico Nacional. O personagem é brilhante, a mostra, apenas correta. Me pergunto se um visitante que pouco conheça Nabuco terá a real dimensão do muito que ele representou para o país, como líder da campanha pela abolição da escravidão, cientista social pioneiro e diplomata de primeira grandeza. Faço a crítica no contexto dos últimos anos, que foram uma festa para nós, admiradores do mestre: foram publicados documentos preciosos como seus diários, a correspondência com o amigo Machado de Assis, estudos e biografias.



Nabuco foi o parlamentar por excelência, quando os debates sobre as grandes questões sociais passavam sobretudo pela tribuna, mais do que pelas ruas e pelos movimentos de massa. Como deputado, Nabuco foi um apóstolo de reformas vindas de cima que pudessem desmontar o sistema perverso que a escravidão havia criado no país. Posição meritória, sem dúvida, mas a exposição deveria mostrar que havia correntes mais populares, que operavam pelo jornalismo (por exemplo, José do Patrocínio), ou mesmo por ações armadas (os caifazes de Antônio Bento). Além, claro, das discussões culturais, como os inesquecíveis poemas de Castro Alves. Pessoalmente, acho que a grande análise do movimento abolicionista brasileiro ainda está por ser escrita. Um déficit sério para o país.

Outro ponto curioso que merecia mais destaque é a interação entre o caráter inquieto de Nabuco e o tipo de política que se fazia na época. O rapaz elegante, filho de um dos mais respeitados estadistas do Partido Liberal, usou técnicas modernas em suas campanhas eleitorais e seus modos de dândi – como ternos brancos e correntes de ouro – levaram até a questionamentos sobre sua opção sexual. Detalhes pitorescos que dão mais sabor a sua história, e que os leitores interessados encontram no excelente perfil escrito por Ângela Alonso para a Companhia das Letras. Aliás, sua vida sentimental é interessantíssima, com a paixão intensa, mas que nunca se concretizou em casamento, por Eufrásia Teixeira Leite, milionária e livre pensadora (ela mesma protagonista de um recém-publicado romance, que ainda não li) e o matrimônio tardio, mas feliz, com uma mulher mais afeita às tradições.



Nabuco era um monarquista leal que tinha ojeriza à República, identificada por ele com os caudilhismos hispânicos que ele detestava. Nos anos iniciais do novo regime, se dedicou a uma produtiva vida intelectual, escrevendo obras clássicas, como “Um Estadista do Império”, sobre seu pai, e “Minha Formação”, obra-prima do gênero. A cena em que descreve como percebeu pela primeira vez o horror da escravidão é uma das mais belas e comoventes da nossa literatura, só comparável, no tema, ao que Machado de Assis realizou.

Mas meu livro favorito de Nabuco foi escrito um pouco antes, ainda durante a campanha da década de 1880 para acabar com a escravidão. “O Abolicionismo” é uma análise estupenda de como esse sistema perverteu a sociedade, a política e a economia do Brasil, e continua a ser um modelo de como conciliar excelência acadêmica, compromisso com causas progressistas e – por que não? – beleza literária e facilidade de entendimento.

Ao fim, Nabuco reconciliou-se em grande estilo com a República, quando seu amigo, o barão do Rio Branco, o convocou para servi-la como diplomata. E foi sem dúvida um dos grandes, como o primeiro embaixador brasileiro em Washington, costurando a “aliança não-escrita” que Brasil e Estados Unidos celebraram no início do século XX.

4 comentários:

Eugenio Hansen, OFS disse...

Paz e bem!

De Joaquim Nabuco
encontrei a melhor frase sobre patriotismo,
qua não cai num ufanismo imbecil
nem no desprezo cego:

"O verdadeiro patriotismo
é o que concilia a pátria
com a humanidade."

Uma frase muito boa pra usarmos
especialmente na semana que vem.

Mauricio Santoro disse...

Caro Eugenio,

Que frase maravilhosa! Eu não a conhecia - em geral costumo citar aquela famosa de Samuel Johnson, sobre o patriotismo como "o último refúgio dos canalhas".

Mas a do Nabuco é muito melhor. Ela me lembra algumas observações do Norbert Elias em "Os Alemães". Obrigado por compartilhá-la conosco.

Abraços

Rosa Lopes disse...

Ola, gostei bastante dos temas que vc levanta e da assiduidade do blog.

Espero poder lê-lo sempre. Abraço.

Mauricio Santoro disse...

Cara Rosa,

Seja sempre bem-vinda, o blog é atualizado com freqüência. O mundo é interessante, mesmo que seja meio torto às vezes.

Abraços