quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Coração Vagabundo



Um Caetano Veloso em plena forma artística, mas frágil e inseguro, em especial quanto ao suposto provincianismo de sua arte. Esse é o retrato surpreendente do cantor e compositor no documentário “Coração Vagabundo”, dirigido pelo estreante Fernando Grostein Andrade, de 28 anos. O filme foi realizado na turnê do disco “A Foreign Sound” (no qual Caetano interpreta canções em inglês) a partir de 56 horas de gravações e acompanha apresentações do artista por Brasil, Estados Unidos e Japão.

Em diversos momentos, Caetano revela inseguranças, afirmando ser um provinciano de Santo Amaro, a pequena cidade baiana onde viveu até os 18 anos e pouco à vontade em grandes cidades como Nova York. Queixa-se de não dominar a língua inglesa e de nem mesmo tocar violão corretamente. Os medos do cantor são desmentidos pelos fatos do filme, como o monge budista no interior do Japão que lhe diz o quanto gosta de suas músicas ou o taxista norte-americano que lhe agradece porque só conseguiu compreender a beleza da letra de “Come as you are”, do Nirvana, ao ouvir Caetano cantá-la.

Talvez parte dos problemas do artista fosse fruto do momento difícil em sua vida familiar – o filme foi rodado durante a crise de seu casamento, que culminou em seu divórcio de Paula Lavigne. Uma das cenas do documentário mostra Caetano triste e introspectivo, num belo parque japonês, pedindo para não comentar assuntos íntimos.

Isso não o impede de refletir a respeito de grandes temas artísticos. O diretor Fernando Andrade mostra imagens do famoso show de 1968 em que o cantor briga com a platéia, que o vaia em sua apresentação de “É Proibido Proibir” por ter introduzido elementos do rock em suas canções. Comentando a situação mais de 40 anos depois, Caetano afirma que o Brasil ainda permanece excessivamente voltado para dentro de si mesmo, com dificuldade de aceitar influências culturais estrangeiras. Ele comenta que os Estados Unidos sofrem do mesmo problema, mas que por lá a questão não é tão grave porque artistas do mundo inteiro atuam no país. Ainda assim, declara que não gostaria de morar novamente fora do Brasil e, mencionando o envelhecimento e a possibilidade da morte, frisa que quer ser enterrado em Santo Amaro, junto aos túmulos de seu pai e de sua filha.

Outro destaque de “Coração Vagabundo” é mostrar a forte relação de Caetano com o cinema, ilustrada pela amizade com os diretores Michelangelo Antonioni (sobre quem escreveu uma canção) e Pedro Almodóvar, que chegou a encenar um show do cantor em seu filme “Fale com Ela”.

Caetano tem sido uma figura central na cultura brasileira desde a década de 1960 e “Coração Vagabundo” lança boa luz sobre aspectos importantes de sua personalidade. Que venham outros filmes sobre o cantor e compositor.

2 comentários:

Rosa Lopes disse...

Que maravilha saber q ele est'a mais coerente com o passar dos anos! Sua voz é linda, mas o peso de ser um ser inrrefutável, contestador, inovador, etc, por 4 décadas, dever ser um saco! Um pouco de humildade só melhora o trabalho!

Mauricio Santoro disse...

Pois é, não é a coisa mais fácil do mundo ser um gênio, ainda mais por tanto tempo!

Abraços