sexta-feira, 6 de abril de 2012

Dilma e Obama: em busca de novas regras para o jogo

A Agência Lusa (Portugal) publicou nesta sexta entrevista comigo a respeito da viagem da presidente Dilma Rousseff para os Estados Unidos. Gostei muito da reportagem e reproduzo o texto abaixo, está melhor organizado do que eu mesmo seria capaz de escrever:

A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, viaja na segunda-feira para os Estados Unidos, num momento em que Washington saúda o crescimento da economia brasileira, apesar das discordâncias em temas cruciais da agenda internacional.

«Há um entusiasmo nos EUA em relação ao que está acontecendo hoje no Brasil, principalmente em termos económicos. Mas eles ficam confusos, muitas vezes irritados, quando o Brasil age de maneira contrária aos seus interesses em temas internacionais», afirmou à Lusa o cientista político Maurício Santoro.

A recente declaração de Dilma Rousseff de que o «tom» com o Irão precisa ser modificado, bem como a rejeição brasileira a uma intervenção militar na Líbia e na Síria, estão entre os temas que deixam os americanos «confusos», de acordo com o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

«Os EUA não conseguem entender que, embora o Brasil tenha essa semelhança muito grande com eles, ainda é um país em desenvolvimento e não uma superpotência. Portanto, a maneira como o Brasil vê o mundo é bastante diversa daquela que se observa nos EUA», compara Santoro.

Os interesses de um país em desenvolvimento - somados à crise mundial que afectou parte de seu mercado consumidor externo – fizeram com que o governo brasileiro perceba os países do Médio Oriente como uma oportunidade económica, enquanto, para os Estados Unidos, se trata de uma questão de segurança nacional.

«Estamos num momento em que as normas internacionais estão sendo ‘rediscutidas’. O que for decidido em relação à Síria ou ao Irão terá um peso muito maior do que simplesmente o destino desses dois países. Irá pautar muito da agenda internacional nos próximos anos», afirma Santoro, ao explicar por que estes temas são defendidos com tanta firmeza pelo Brasil.

Já em termos económicos, enquanto o Governo de Barack Obama olha para o Brasil e sua crescente classe média consumidora com «entusiasmo», o Governo de Dilma Rousseff está atento às possibilidades de cooperação na área de inovação e tecnologia.

Após mais de um século como o principal parceiro económico do Brasil, os Estados Unidos perderam o posto para a China, em 2009. Isso fez com que, já em março de 2011, a visita do Presidente Obama a Brasília fosse vista como uma tentativa de retomar essas relações.

Do lado brasileiro, a maior preocupação está no aumento excessivo do peso dos produtos primários na sua agenda de exportações.

«O produto que o Brasil mais exporta hoje para os EUA é petróleo. E essa tendência é perigosa, porque o preço das ‘commodities’ oscila muito», pondera Santoro.v Para o especialista, uma das medidas brasileiras mais efectivas na direcção de tentar contornar esse quadro é o programa estatal «Ciência Sem Fronteira».

«É uma maneira relativamente barata de como os dois países podem trabalhar juntos, num projecto de cooperação, que servirá para qualificar a sociedade brasileira», analisa.

A prova de que o crescimento económico do Brasil desperta o interesse do gigante norte-americano está no anúncio de facilitação de vistos para os brasileiros, feito no final do ano passado pelo próprio Obama.

«Não foi à toa que quando o Obama anunciou as medidas de facilitação de vistos, ele fez isso em frente ao castelo da Cinderela, na Disney. Se a Florida fosse um país, seria o principal parceiro económico do Brasil. Além disso, hoje, os turistas brasileiros são os que mais gastam em Nova Iorque», destaca.

A melhora das relações bilaterais, no entanto, embora espelhadas em sólidos factores, como o crescimento económico brasileiro e políticas públicas bilaterais, possui um «tecto» - avisa Santoro.

«Há uma tentativa do governo brasileiro de melhorar essa relação que esteve muito deteriorada nos últimos anos, principalmente no segundo mandato do presidente Lula da Silva, mas essa melhora tem um teto. Ela não irá passar da relativa cordialidade que os dois países desfrutam hoje», prevê.

O encontro entre a Presidente brasileira, Dilma Rousseff, e o líder norte-americano, Barack Obama, ocorre no dia 9 de Abril, em Washington.

16 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Boa entrevista! Não só o preço das commodities é instável; também é verdade que elas geralmente têm menos valor agregado do que outros produtos.
Abraços!

Patricio Iglesias

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Boa entrevista! Não só o preço das commodities é instável; também é verdade que elas geralmente têm menos valor agregado do que outros produtos.
Abraços!

Patricio Iglesias

Diogo disse...

Commodities: ruim com elas, PIOR sem elas...

Maurício Santoro disse...

Salve, dom Patricio.

Exatamente. E têm um custo sócio-ambiental muito alto, tanto na indústria petrolífera quanto na mineração.

Abraços

"O" Anonimo disse...

Isso de commodity nao tem valor agregado nao faz sentido economico algum. O Brasil eh mais rico hoje porque nos anos 90 abandonou o setor industrial e investiu mais em setores de commodities. O principal motivo que o crescimento do Brasil deve desacelerar nos anos vindouros eh a tentativa do governo da Dilma, tripulado por totais analfabetos em politica economica, de reviver a industria (o que eh equivalente a taxar o setor dinamico de nossa economia, o de commodities).

Maurício Santoro disse...

O produto que o Brasil mais exporta hoje em dia é o minério de ferro, cuja tonelada vale menos do que um par de tênis, e depende de um mercado instável, dominado pela China. É ruim depender disso.

"O" Anonimo disse...

E dai que a tonelada do minerio de ferro vale menos que um par de tenis?!? Deve valer menos que uma grama de diamantes, nem por isso Sierra Leone eh um pais rico porque produz diamantes.

O Brasil eh mais rico hoje do que era nos anos oitenta porque tivemos a grande felicidade de nos "desindustrializarmos" o que propiciou que nosso investimento fosse focado em setores que dao altos retornos e propiciam que tenhamos um setor publico com recursos para investir nas pessoas e a capacidade de distribuir renda que nao tinhamos durante o periodo em que sofriamos de burrice congenita generalizada e achavamos que subsidiar a industria era o caminho para o desenvolvimento.

Marc Jaguar disse...

Prezado Amigo e Mestre Mauricio

Segue um link interessante do editorial do jornal The Washington Times sobre a visita da Presidente Dilma aos EUA.

Eles nao parecem uito entusiasmados com a presenca dela por lah....

http://www.washingtontimes.com/news/2012/apr/9/obamas-brazilian-model/

Abracos Mauricio!

goncalez

zealfredo disse...

Caro Jaguar,
Trecho do tal editorial: "Ms. Rousseff is an exemplar of the anti-American hard left that is uniting in the developing world to check U.S. power."
Contudo não me parece que o Washington Times seja o veículo mais equilibrado para colher opiniões a respeito da visita da atual presidente brasileira à Washington.
Me parece que o Washington Times está à direita do espectro político dos veículos de Mr. Murdock.
Seria algo como a Veja comentar uma virtual visita de Hugo Chávez à Brasília, ou pior.

zealfredo disse...

Caro Professor Santoro,
Uma vista rápida me faz crer que ""O" Anônimo", que por sua vez é dono do blog A Mão Visível é o professor-doutor doutor Alexandre Schwartsman. Ele é um liberal "puro e duro", digamos assim. Não parecer acreditar em valor agregado, e possivelmente acredite em "vantagens comparativas", ou seja, que uma nação deva se concentrar em produzir soja, café, açúcar, ferro, e, talvez, petróleo.

zealfredo disse...

Por outro lado, ele fala muito em seu blog sobre o valor da educação.
Há dois "posts" com gráficos sobre educação por lá: um sobre a educação superior em uma série de países, e outro sobre a diferença do crescimento do PIB per capita entre Brasil e Coreia do Sul e a relação disso com a educação.
Mas me parece que sem as "indústrias fraquejantes" de que ele fala, logo estaríamos exportando ferro, soja, café, petróleo, e, obviamente, brasileiros.
Ou ele acha que as mega-tentaculares-corporações coreanas, que tem indústrias, surgiram sem amplo apoio do estado coreano?

zealfredo disse...

Claro que isso é uma longa discussão, Professor Santoro, mas eu também acho que se formos ficar trocando uma tonelada de ferro por um par de tênis não teremos desenvolvimento algum.
[ ]

"O" Anonimo disse...

zealfredo, não consigo deixar de achar curioso que apesar de você morar no Brasil e ter presenciado a grande melhoria em nossos indicadores sociais e qualidade de vida que aconteceu após termos nos livrado dos níveis idiotas de proteção à industria que tínhamos até o final dos anos oitenta, e ainda assim não fazer a conexão entre causa e efeito.

É triste, mas sua visão de mundo é a dominante. Quantas vezes mais vamos ter que viver o ciclo de protecionismo à indústria, concntração de renda, deterioração das contas fiscais e externas para satisfazer o fetiche industrialista? Aparentemente pelo menos mais uma vez, já que o nosso governo decidiu reviver os anos Geisel.

zealfredo disse...

Caro "O" Anônimo,
Fico honrado que tenha se dignado a responder a meus comentários.
Concordo com você que não há desenvolvimento sem responsabilidade fiscal, e que educação é muito importante.
E me parece que o Brasil está alcançando agora os níveis educacionais alcançados pelos vizinhos Uruguai e Argentina há mais de um século.
Dito isso, fico me perguntando que providẽncias você tomaria para que o Brasil voltasse a se aproximar do PIB per capital sul-coreano, em um virtual governo de "O" Anônimo.
Imagino que tal virtual governo teria grande responsabilidade fiscal e investiria pesado em educação, mas como seria isso? Aumento de impostos? Sobre quem? e como isso redundaria em desenvolvimento econômico e social?

"O" Anonimo disse...

Caro zealfredo, eu diria que o cavalo branco já passou com a sela nas costas, e nós não montamos. Já era. Se quisermos ter a renda per capita da Coréia do Sul, só torcendo para eles regredirem ou o preço do minério de ferro e soja subirem astronomicamente.

Hoje em dia, o principal impedimento de longo prazo para nosso crescimento é o setor público que taxa e distribui mais do que qualquer outro país emergente. Eu não consigo ver um cenário em que o sistema político brasileiro desmonta a máquina de transferir renda dos trabalhadores ativos para os inativos (quando digo inativos, falo dos aposentados, não do Bolsa-Família porque BF é um programa de tamanho quase insignificante).

Nós também perdemos a oportunidade de integrar nossa indústria com a linha de produção global quando nos anos setenta e principalmente oitenta, escolhemos ser protecionistas (também pode ser que mesmo que não fossemos protecionistas, nossa distância do centro da economia mundial inviabilizaria uma maior integração e nossas vantagens comparativas jogam contra).

Marc Jaguar disse...

Prezado Ze Alfredo

Postei o link de um veiculo de informacoes aqui dos EUA que publicou um editorial criticando de maneira precisa as incongruencias da politica externa brasileira em relacao aos EUA.
O editorial nao mente ao comentar o passado da presidente Dilma e nem a sua opcao ideologica.
Atacar os EUA e se calar diante do que se passa em Cuba e na Venezuela eh algo que depoe contra a imagem de isencao que o Brasil sempre desfrutou no cenario internacional.

A proposito, sou admirador da Revista Veja e reconheco e aplaudo o trabalho de seus profissionais.
Imprensa que nao incomoda quem estah no poder eh adesista e certamente estah na folha de pagamento oficial, ainda que de forma indireta.