
O jornalista Eric Lax entrevista o cineasta Woody Allen desde 1971 e reuniu um panorama desse material em seu livro "
Conversas com Woody Allen", que já entrou para as listas dos mais vendidos no Brasil. Longe da figura neurótica e insegura de seus filmes, o livro retrata o diretor como um artista maduro, competente e auto-confiante. E o mostra com surpreendente ojeriza à comédia, que afirma considerar um gênero menor, revelando seu sonho de ser reconhecido como autor dramático.
Lax organizou o livro a partir de grandes eixos, como "escrever, "direção", "casting" etc. Em cada seção, há trechos de entrevistas realizadas em anos diferentes, de 1971 a 2006. Foi uma escolha feliz do jornalista: assim podemos acompanhar o desenvolvimento do pensamento de Allen sobre cada tema, e impressiona constatar o quanto ele evoluiu como artista ao longo do período, do diretor iniciante que não conseguia montar "Um Assaltante Bem Trapalhão" até o maestro completo dos dias atuais, capaz de dissertar sobre os detalhes técnicos de todo o processo de produção de um filme.
Se você espera novidades sobre os escândalos que abalaram a vida pessoal de Allen, esqueça. Lax é discreto quanto ao tema. Há algumas menções à amizade que o cineasta mantém com a ex-esposa Diane Keaton, de quem contina muito amigo - e, em minha opinião pessoal, a atriz com quem melhor contracena - e referências à tranqüilidade doméstica que desfruta com a companheira atual, Soon-Yi, filha adotiva de sua ex-mulher Mia Farrow. Que, aliás, só é citada em quesitos puramente profissionais, como seu desempenho nas telas.

Contudo, as entrevistas revelam muito sobre o temperamento de Allen, em particular a junção de duas grandes correntes de influências artísticas: a cultura popular americana da primeira metade do século XX (programas de rádio, jazz, comédias de Bob Hope, Charles Chaplin, Buster Keaton) e o cinema europeu dos anos 1950-60 (Bergman, Fellini, Antonioni).
Lax não faz juízos de valor e não analisa as contradições do repertório de Allen, minha avalião é que o cineasta se sai melhor quando joga em seu próprio campo, o das tradições do showbiz americano. Nunca me interessei muito quando ele embarcou na onda dos dramas supostamente suecos, para mim há muito mais poesia em seu trabalho quando ele coloca Manhattan ao som de Gershwin ou faz um coro grego cantar jazz.
No entanto, Allen se refere diversas vezes ao comediante como um "suplicante", uma criança sempre em busca da aprovação dos adultos e rejeita explicitamente o rótulo de "gênio da comédia", afirmando que é pejorativo. Diz com todas as letras que a tragédia é superior. Afirmação surpreendente, pois não faltam exemplos de comediantes clássicos cuja obra é uma profunda análise das contradições da natureza humana, de Aristófanes a Molière, passando evidentemente pelo próprio Allen. Quantos dramas narraram as desventuras do amor com tanta competência e leveza como sua obra-prima, "Annie Hall" (no Brasil, Deus perdoe os tradutores, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa")?
Allen dirigiu cerca de 40 filmes e passou por diversos estilos, sempre experimentando e testando novidades. Há as comédias pastelão do início de sua carreira ("Um Assaltante bem Trapalhão", "Bananas, "Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo", "O Dorminhoco"); dramas influenciados por Bergman ("Interiores", "Setembro", "A Outra"); hinos de amor a Nova York ("Manhattan", "Édipo Arrasado" no filme "Contos de Nova York"); brincadeiras com a cultura popular e arte ("A Era do Rádio", "A Rosa Púrpura do Cairo", "Tiros sobre a Broadway", "Desconstruindo Harry", "Dirigindo no Escuro"), reflexões sobre a crueldade e a ausência de punição para os maus ("Crimes e Pecados", "Macht Point", "O Sonho de Cassandra") e, claro, inúmeras variações sobre os relacionamentos amorosos ("Annie Hall", "Hannah e suas Irmãs", "Todos Dizem Eu Te Amo", "Igual a Tudo na Vida", "Vicky Cristina Barcelona").
A maoiria de seus filmes nos últimos 10 anos não me agradou muito, ainda que em cada um deles houvesse pelo menos algumas cenas ou diálogos que ficam na memória. Evidentemente, minha opinião mudou ao ver "Vicky Cristina Barcelona", desde já um dos meus favoritos no diretor. Allen não é propriamente um sucesso de bilheteria, mas costuma render lucros suficientes para financiar suas produções, orçadas cada uma em cerca de US$15 milhões, ao passo que a média em Hollywood é de quase seis vezes esse valor. A delicada relação custo/benefício basta para que os estúdios continuem a lhe dar carta branca para dirigir. Ainda bem!