quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A Equipe Diplomática de Obama


Para alguém que passou a campanha toda falando sobre mudança, a equipe de política externa de Barack Obama é surpreendemente conservadora. Os principais nomes apontados pelo presidente eleito são figuras respeitadas e tradicionais do establishment americano, a começar pela secretária de Estado, Hilary Clinton, e mantendo o atual secretário de Defesa, Robert Gates.

Muitos compararam a eleição de Obama às duas últimas temporadas da série The West Wing, nas quais um candidato oriundo de uma minoria étnica (latino-americana) saía como azarão no Partido Democrata e vencia um republicano moderado na corrida para a Casa Branca. Na TV, o vitorioso nomeava o derrotado para o cargo de secretário de Estado, sinalizando assim o desejo de governar para além das divisões partidárias. Podemos argumentar que foi mais difícil para Obama triunfar nas primárias democratas do que contra seu oponente republicano (Sarah Palin, claro, ajudou muito), de modo que entregar a condução da diplomacia americana a Hilary Clinton faz bastante sentido.

Não sei bem o que Obama pretende com a manutenção de Gates à frente do Pentágono. Ele é um funcionário de carreira da CIA que chegou a dirigir a organização, e muito respeitado por seu profissionalismo. Talvez garantir alguns meses, ou um ano, de transição tranqüila. Paz sempre relativa, visto que há a promessa de campanha de retirar as tropas do Iraque em 18 meses, além de uma guerra que vai bastante mal no Afeganistão e tensões sérias no Paquistão e no Irã. Além disso, existem problemas graves nas Forças Armadas, como o déficit de jovens oficiais, visto que muitos capitães estão deixando o Exército após cumprirem o período mínimo de alistamento.

Para o cargo de conselheiro de segurança nacional, Obama escolheu o general dos fuzileiros navais James Jones, ex-comandante da OTAN. É um oficial um tanto atípico, conhecido por fazer críticas ferinas às políticas das quais discorda. Ficou conhecida uma de suas declarações, afirmando que os Estados Unidos têm mais pessoas tocando em bandas militares do que em todo o serviço diplomático.

As inovações de Obama vieram no cargo de embaixadora para a ONU, na qual nomeou uma mulher negra, Susan Rice – nenhum parentesco com a atual secretária de Estado. Rice serviu no governo Clinton como uma especialista em África e questões humanitárias e aparentemente levou muito a sério o fiasco americano durante o genocídio em Ruanda. Além disso, Obama elevou a embaixada nas Nações Unidas ao status ministerial, dando à embaixadora assento em seu gabinete. Isso havia ocorrido na década de 1960, na administração Kennedy e um sinal promissor de que Washington voltará a levar a sério os debates multilaterais, quem sabe com um papel mais firme em Darfur e no Congo, dado o perfil de Rice.

Minha curiosidade é saber quem será escolhido para o USTR, ou seja, o principal negociador comercial dos Estados Unidos. É de esperar que teremos um momento bastante protecionista naquele país, com implicações sérias para a OMC.

3 comentários:

aiaiai disse...

Maurício,

Vc rodou, rodou e não disse, mas nas entrelinhas acho que passou um sentimento de "quase" frustração, não? Digo isso porque após o impacto da eleição de um cara tão enérgico e autêntico, eu esperava um pouco mais de audácia. Na área economica a coisa também foi bem conservadora...

Renato Feltrin disse...

Maurício, conforme escrevi em meu blog, continuo achando que a preferência pelo nome da Sra. Clinton fez com que Obama perdesse a presidência - malgrado tenha ganho a eleição.

Mauricio Santoro disse...

Aiaiai,

Sim, é meu sentimento. O que Obama apresentou é um "mais do mesmo" da tradição democrata, num momento em que o mundo apresenta alguns desafios bastante sérios. Change has not come to America, at least in the foreign policy.

Salve, Renato.

De fato, o cargo de Secretário de Estado é provavelmente o mais importante do gabinete de um presidente americano, em particular em períodos de crise internacional. A questão: será que Hilary Clinton dura no posto?

Abraços