segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cooperação Triangular


Na semana passada, fui a um excelente simpósio sobre cooperação triangular, no Ministério das Relações Exteriores. O conceito é relativamente recente, significa uma parceria que envolve um doador tradicional como EUA, União Europeia, Japão e uma grande nação em desenvolvimento (Brasil, China, Índia, México, África do Sul), para auxiliar um terceiro Estado. A ideia é reunir no mesmo formato os recursos financeiros dos sócios mais prósperos com a experiência política e cultural dos emergentes, mais próxima da realidade dos países mais pobres do mundo.

(Há outras definições de cooperação triangular que não levam em conta o intercâmbio Norte/Sul, mas foi este o conceito abordado no simpósio.)

O Brasil tem tradição considerável em cooperação internacional, certas ações empreendidas por Vargas na década de 1930 já podem ser consideradas nessa categoria. O padrão atual é de ações centradas em recursos humanos, como a ida de técnicos brasileiros para treinar especialistas em outros países. A maior parte das atividades acontece na América Latina e Caribe (por exemplo, Haiti) ou na África (em especial, claro, os países de língua portuguesa). Mas há pólos ocasionais na Ásia, como Timor Leste, Líbano e os territórios palestinos.

A participação brasileira na cooperação triangular tem sido muito solicitada, porque nas palavras de uma autoridade europeia, o país se consolidou como um “policy leader”, isto é, uma nação que se tornou referência em determinadas áreas de politicas públicas, como combate à fome, tratamento de AIDS, desenvolvimento agrícola, biocombustíveis etc. Infelizmente, a legislação nacional ainda não está adequada a estas novas necessidades, os especialistas na área se queixam das dificuldades burocráticas que praticamente impedem, por exemplo, a doação de equipamentos científicos.

Outro ponto importante, que já começa a ser analisado pelos pesquisadores universitários, é a a multiplicação dos atores governamentais envolvidos na diplomacia - a horizontalização da política externa, como dizem Cássio França e Michelle Sanchez, dois ótimos colegas com quem tive o prazer de trabalhar. De fato, há muitos órgãos públicos envolvidos na diplomacia: ministérios, Forças Armadas, empresas como BNDES, Embrapa e Caixa Econômica Federal (em desenvolvimento urbano e inclusão bancária), e organizações do sistema S, como o Sebrae, que faz um excelente trabalho com pequenas firmas. É uma bela agenda para acadêmicos em busca de temas originais e de relevância prática.

Um desafio igualmente importante é pensar a colaboração entre Estado e sociedade. Minha experiência de trabalho em ONGs envolvidas com cooperação na América Latina e na África foi muito enriquecedora, e meu trabalho mais recente como funcionário governamental tem me dado várias ideias. Inclusive a possibilidade de fazer a crítica de erros que cometi em projetos anteriores, como abordar muitos países e temas ao mesmo tempo.

A situação atual também pode ser o ponto de partida para um debate que se tornará mais importante para as políticas públicas brasileiras, e diz respeito ao conhecimento sobre as regiões onde se dará a cooperação. E aos objetivos das parcerias. Para além de questões óbvias, como aumentar a influência em áreas estratégicas para o país, e prestar ajuda humanitária em situações de crise, parcerias internacionais melhoraram a qualificação dos técnicos do Brasil, que ganham experiências novas e aprendem a lidar com outras culturas, climas, terrenos etc. Tudo isso reverte positivamente para o país. Aliás, o tradicional jogo de cintura nacional é uma belíssima característica para esse tipo de atividade.

12 comentários:

Carlos disse...

caro santoro,

taí um conceito em política externa que não conhecia, triangulação.
essa aula, aprendi mesmo, e vejo que o nosso itamaraty está no rumo adequado de nosso peso internacional.

parabéns.

Mauricio Santoro disse...

Também aprendo diariamente, Carlos.

O blog é uma tentativa de passar a outras pessoas um pouco do que vivo por aqui, e acho que existe muito mais espaço para que imprensa e universidade falem mais a respeito deste "admirável mundo novo" das relações internacionais.

Abraços

Diogo Slov disse...

Santoro, esse teu post me deu um puta insight pra dissertação de mestrado. Sou graduado em relações internacionais mas faço mestrado em economia, acho que esse conceito de triangulação é um jeito interessante de eu trazer um pouco mais de RI pra dialogar com o que eu estou aprendendo atualmente.

Valeu!

Mauricio Santoro disse...

Legal, Diogo, bola para frente, que precisamos de enfoques acadêmicos inovadores para entender estas novas tendências!

Abraços

Jonas disse...

Prezado Maurício,
bela discussão sobre um assunto que desconhecia mas penso ser bastante importante. Já trabalho há algum tempo com cooperação internacional em Moçambique, e são claras as dificuldades nas relações entre os doadores tradicionais e os países receptores da ajuda, os quais, entre outros, estão em clara desvantagem em termos de poder de barganha. A inserção de um terceiro elemento pode ajudar a equilibrar a balança.
Contudo, tenho minhas dúvidas sobre as capacidades dos técnicos brasileiros para lidar com assuntos relacionados à África. A realidade africana pode até ser mais próxima da latino-americana em relação à europeia(no caso do Brasil, a África do Sul é bastante semelhante), mas há diferenças fundamentais entre as duas regiões, e muitos técnicos brasileiros que conheço têm dificuldades em adaptar seus modelos mentais ao novo contexto.
Abraço,
Jonas.

Mário Machado disse...

Você acha que há espaço para ação paradiplomática nesse formmato de cooperação internacional, já que municipios tem muita experiencia em micro-gerência desses prjetos.

Tem alguma literatura pra indicar, assunto me parece muito bom pra análisar.

Abraços,

Mauricio Santoro disse...

Salve, Jonas.

Por acaso, também estou levantando dados sobre Moçambique. Existem algumas áreas onde os técnicos brasileiros são muito competentes para lidar com a África, em particular na agricultura e na saúde.

Olá, Mário.

Sem dúvida! Acho que há um espaço aberto para as relações entre municípios e regiões, sobretudo nos projetos em parceria com a União Europeia e a China.

Abraços

Carla disse...

Mauricio,

O link coloca no "Sebrae" não está funcionando ou eu que não soube fazer algo direito?

Tenho interesse em desenvolver algo da relação Sebrae X Pol.Ext.Bra. no mestrado....

Abraço,Carla

Anônimo disse...

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