sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Navalha Peruana



Esta década tem sido de democratização e crescimento no Peru, talvez o melhor momento na história do país em muito tempo. Mas nas últimas semanas conflitos entre indígenas e policiais na Amazônia mostraram o quanto a prosperidade peruana se equilibra no fio da navalha.

Alan García foi eleito presidente em 2006 com promessas de modernização e de afastamento ideológico de Venezuela, Bolívia e Equador, que chamou de “economias primitivas”. Era provável que essa postura acabasse por levá-lo a conflitos com os movimentos sociais, muitos dos quais são simpáticos às transformações que ocorrem nos vizinhos andinos. García assinou um acordo de livre comércio com os Estados Unidos que implicou em mudanças amplas na legislação e nas políticas públicas peruanas, com impacto em áreas como propriedade da terra, meio ambiente e direitos trabalhistas.



O tratado significou a necessidade do Peru mudar seu marco regulatório de investimentos e foram justamente essas mudanças, ao envolverem a abertura de terras indígenas na Amazônia à exploração de petróleo e gás e extração de madeira, que geraram os conflitos das últimas semanas. Os choques foram impulsionados pela falta de confiança da opinião pública nas negociações conduzidas pelo governo, em 2008 todo o gabinete ministerial do presidente García renunciou em meio a denúncias de corrupção com as petroleiras estrangeiras.

Os indígenas bloquearam estradas e ocuparam instalações governamentais, como usinas de geração de eletricidade, e a tentativa de desalojá-los resultou em cerca de 50 mortes, tanto entre os manifestantes quando entre os policiais. Foram os piores episódios de violência no país desde o auge dos combates contra o Sendero (1980-1992), e o presidente reagiu decretando toque de recolher na região norte, acusando os indígenas de subversivos que querem destruir a democracia. Vários líderes indígenas foram presos, outros fugiram ou desapareceram, e há relatos de cadáveres sendo atirados de helicópteros do governo em fossas comuns.

Tudo se parece muito aos anos de guerra suja, mas o Peru de hoje é uma sociedade bem mais aberta, com movimentos sociais fortes e conectados com suas contrapartes internacionais, sobretudo nos vizinhos andinos. Tampouco é possível para o governo ressuscitar o argumento da segurança nacional da época do Sendero (García chegou a mencionar a influência do “comunismo internacional”!), pois os protestos indígenas têm a simpatia de boa parte da população.

O Congresso suspendeu deputados opositores que participaram de protestos em defesa dos manifestantes indígenas, mas os parlamentares também aprovaram a anulação das leis que deram origem ao conflitoo. Uma ministra renunciou, o primeiro-ministro disse que fará o mesmo e o governo anunciou a criação de uma Mesa de Diálogo para tentar lidar com as tensões. Torço para que tenha sucesso.

2 comentários:

MauricioPC disse...

Só para fazer uma observação: para aqueles que ficaram tristes com a autorização para a exploração das regiões indígenas vale lembrar que o mesmo fato ocorre no sul da Argentina, na região dos Glaciares. Desanimador também ouvir que essas restrições à exploração nestas regiões terão "repercussões negativas no desenvolvimento econômico".

Aqueles que tem vontade de conhecer os glaciares Argentinos/Chilenos é bom apertar o passo!

Mauricio Santoro disse...

Olá, xará.

Não conheço bem o marco legal para a região dos glaciares, mas quando morei na Argentina havia uma enorme preocupação dos ambientalistas quanto à exploração dos recursos naturais do local, em particular da água.

Abraços