sexta-feira, 28 de março de 2008

Mugabe em Xeque



O Zimbábue é um pequeno país africano, mas sua importância política ultrapassa em muito suas dimensões territoriais. Nele se trava uma batalha trágica pela democracia no continente, porque o protagonista do autoritarismo é também o homem que liderou a luta contra o apartheid local. Enfim, já tratei de Robert Mugabe em outro post, agora escrevo sobre as eleições e a situação geral do país, com o pensamento em amigas que lá nasceram, e hoje vivem na África do Sul, como a maioria de seus compatriotas de classe média.

Com hiperinflação que talvez chegue a 100.000% ao ano, o Zimbábue virou um laboratório a céu aberto para a inacreditável capacidade humana de se adaptar às circunstâncias mais dolorosas, e seguir vivendo apesar de tudo. Uma pedinte nas ruas da capital Harare resume o cenário: “Mugabe foi o herói da luta de libertação, mas agora há uma luta ainda maior, pela sobrevivência, e ele está nos matando”.

Mugabe convocou eleições presidenciais para o próximo sábado. É consenso que fraudou os resultados da última disputa, em 2002, mas a novidade desta vez é que apareceu um candidato que dividiu o oficialismo: o ex-ministro Simba Makoni, que aparentemente conta com o apoio silencioso de lideranças militares e políticas que não desejam esperar a morte do idoso Mugabe (84 anos) e temem o colapso total do país. Além disso, há o candidato da oposição, o sindicalista Morgan Tsvangirai, que quase foi assassinado após ser espancado pelos capangas do presidente.

O governo baniu os observadores dos países ricos, mas permitiu aqueles ligados à organizações regionais africanas, como a SADC. Ninguém sabe o que acontecerá no caso de fraudes generalizadas,que provavelmente irão ocorrer. Poderia ocorrer uma situação parecida com a do Quênia, com matanças e perseguições entre as facções rivais.



Desdobramento bizarro da crise é o “videogame humanitário” Simbabwe (foto acima). Trata-se de um “simulador de país” no qual o jogador assume o papel de um ditador que precisa esmagar a oposição e escapar das sanções internacionais. Não estou muito certo se é a melhor idéia para divulgar temas de direitos humanos, embora haja jogos bem interessantes, no qual se encarna uma família de fazendeiros ou crianças em busca de educação. Soa mais divertido do que distribuir panfletos ou escrever blogs.

8 comentários:

Tiago disse...

O Fábio Zanini, da Folha de SP, está fazendo um périplo pela África e agora está no Zimbabwe, acompanhando as eleições.

Vale uma olhada:

http://penaafrica.folha.blog.uol.com.br/

Mauricio Santoro disse...

O blog é ótimo, Tiago!
Muito obrigado pela dica!

Abraços

André Góes disse...

Salve!

Não sei se já falei com você, mas na biografia do Bob Marley, "Queimando Tudo", há uma narrativa bem legal sobre o Mugabe e sua relação com o jamaicano!

Abç

Mauricio Santoro disse...

Olá, André.

Você me contou sim, e fiquei surpreso. Mas depois parei para pensar e vi que fazia sentido, porque nos anos 70 e 80, Mugabe e o Zimbábue foram heróis para o movimento negro, em toda a parte.

Vi nas livrarias um livro sobre o Zimbábue que parece muito bom, é um relato sobre o país escrito por um jornalista de lá. Devo ler pela próxima semana.

Abraços

Sergio Leo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sergio Leo disse...

É incrível como esse tipo de ssunto desperta pouco interesse no Brasil; é uma experiência interessantíssima, o que acontece lá, e é uma bela lembrança essa sua, da divisão no oficialismo. Pelo jeito, abriu espaço para o sindicalista candidato da oposição. A questão é saber se ele vai levar. A coisa parece quente por lá...

barb michelen disse...

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Mauricio Santoro disse...

Grande Sergio,

é um país pequeno e pouco importante para o Brasil, mas impressiona como a imprensa de língua inglesa (em particular os jornais britânicos) dão atenção à disputa.

As notícias até agora falam da derrota arrasadora de Mugabe, mas também de fraudes em grande escala. Tensão no país, com medo de um conflito como o do Quênia, mas também a possibilidade de renúncia do presidente.

Vamos torcer para que as coisas melhorem...