terça-feira, 8 de abril de 2008

Os Protestos Globais por Comida


Em seu livro de memórias, "A Era da Turbulência", Alan Greenspan observa que a ascensão da China e da Ìndia contribuiu muito para manter os níves de inflação baixos na maior parte do planeta durante a primeira década do século XXI. A razão, claro, são os pequenos salários da mão-de-obra dessas duas gigantescas fábricas globais.

Mas agora a corrente começou a se inverter. Numa série de países asiáticos - China, Camboja, Filipinas, Taiwan, Vietnã - os preços do trabalho, da energia e dos materiais de construção estão subindo, levando a um impacto inflacionário internacional. Os casos mais graves dizem respeito ao aumento nos custos dos alimentos, que subiram 80% em três anos já renderam protestos de rua da Argentina à Ucrânia, passando pelo Egito, Indonésia e Taliândia. O Banco Mundial estima que 33 nações podem passar por distúrbios, a maioria na África e na Ásia.

Os países atingidos pelo problema estão implementando uma série de medidas para tentar lidar com a inflação: controle de preços, subsídios e até proibições de exportar alimentos. Para quem conhece a história econômica do século XX, parece um replay das políticas "implore-a-seu-vizinho" que precederam a grande depressão da década de 1930. O secretário-geral da ONU declarou que esta é a pior crise alimentar em uma geração.

Paul Krugman lista as causas do problema: a combinação do crescimento da demanda mundial por comida, em particular pela melhora na dieta dos chineses, o encarecimento dos combustíveis e da energia (com seu impacto para a agricultura) e condições climáticas adversas em grandes produtores de alimentos, como uma terrível seca na Austrália.

Krugman critica as políticas de biocombustíveis por estarem supostamente desestimulando a produção de alimentos. A afirmativa é polêmica, mas ele não está sozinho em sua opinião. O programa dos Estados Unidos de etanol baseado no milho é considerado um desastre, pressiona os preços de galinhas e ovos. As políticas brasileiras também entraram na berlinda. A União Européia recuou em diversas medidas de apoio aos biocombustíveis do Brasil. Diz a reportagem do Valor (só para assinantes):

Segundo avaliação da Comissão Européia, os biocombustíveis sofrem ataques de duas frentes. Do lado ambiental, vem se questionando o seu benefício no combate ao aquecimento global e teme-se que eles estimulem a devastação de florestas. Do lado social, eles estão sendo responsabilizados por parte da expressiva alta dos preços das commodities agrícolas, o que vem elevando a inflação em todo o mundo e ameaça causar fome em países pobres.

Mesmo sem a pressão asiática, a América Latina já abriga dois dos países com mais alta inflação do planeta: Argentina e Venezuela. Embora suas cifras ao redor de 20% anuais não se comparem ao período dramático do fim dos anos 1980, estão entre os poucos casos atuais de inflação acima de dois dígitos - um clube do qual também fazem parte Irã e Zimbábue.

Alguém imagina o que pode acontecer na Venezuela de Chávez se o aumento dos preços de comida levar à fome e ao desabastecimento?

6 comentários:

Patrick disse...

Ou seja, a previsão de Fidel Castro, se cumpriu. Quanto à Venezuela, os problemas de abastecimento têm ocorrido principalmente na rede de mercados subsidiados, destinados à população de baixa renda. Acho que o Valor até publicou uma matéria este ano mostrando que havia sido montada praticamente uma "ponte aérea" para transportar leite em pó de Minas Gerais para lá, nos cargueiros da força aérea venezuelana.

P.S.: a revista Retrato do Brasil publicou uma edição sobre a Venezuela, imagino que você deve ter lido. Muito equilibrada e bem além da superficialidade habitual das matérias sobre a Venezuela. Mostrou os problemas nas cooperativas agrícolas (como a baixa produtividade) e a falta de estrutura dos assentamentos, que em alguns casos ainda são acossados pelos jagunços dos ex-proprietários e pela polícia local.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patrick.

Fidel a esta hora está numa varada do Malecón de Havana, fumando um charuto e olhando o Caribe: "Carajo, Lula, eu te avisei que esse negócio de investir em cana não dava futuro... E por falar em futuro, no seu lugar eu começaria a pensar em um terceiro mandato".

Não vi a reportagem sobre a Venezuela, mas sempre recebo boas informações pelas redes acadêmicas ou pela imprensa.

O sistema de subsídios alimentícios do Chávez está dando muito problemas, inclusive com o pão, que anda escasso. Existe chance concreta de estourar conflitos por lá.

Abraços

Patricia Rangel disse...

e a gente não quer só comida...

Mauricio Santoro disse...

... A gente quer saída, para qualquer parte...

Ainda assim, o convite para o almoço está de pé, vamos nos ver na semana que vem, como você sugeriu.

Beijos

Patrick disse...

Encontrei o enlace para a versão PDF da edição da Retratos do Brasil que eu citei.

Mauricio Santoro disse...

Obrigado, Patrick, farei o download e lerei o texto com calma.

Abraços