terça-feira, 22 de abril de 2008

Os Sonhos de Barack Obama



No início da década de 1990, Barack Obama cursava Direito em Harvard e foi eleito editor da famosa revista do curso - o primeiro negro a ocupar o cargo. A novidade teve repercussão nacional, algo que ele atribui "à fome dos Estados Unidos por qualquer sinal otimista da frente de batalha racial" e Obama foi convidado a escrever um livro. O resultado foi Dreams from My Father, que a Editora Gente agora publica no Brasil como "A Origem dos Meus Sonhos" (clique no link para baixar o capítulo 1).

A má tradução do título desvirtua o fio condutor da obra. Ela é a história de um rapaz tentando descobrir quem é, e o que pode esperar da vida, a partir da busca por entender a trajetória extraordinária de seu pai, também chamado Barack Obama. A trama tem ressonância mítica: lembrei da Odisséia, de Têlemaco dizendo que gostaria de ter conhecido o pai, e partindo para encontrar Ulisses.

Obama pai era filho de próspero fazendeiro do Quênia e após juventude um tanto relapsa, conseguiu bolsa de estudos para a Universidade do Havaí. Lá apaixonou-se por uma moça americana, branca, casaram-se e tiveram um filho. Na época, 1960, casamento inter-racial era proibido em metade dos estados dos EUA. Obama deixou a nova família após dois anos, para cursar doutorado em Harvard. Não retornou. Voltou ao Quênia, casou-se outras vezes, teve diversos filhos e seguiu carreira de tecnocrata e alto funcionário do governo, com alguns revezes. Só viu novamente o rebento americano uma única vez, quando o menino tinha 10 anos.

O livro do filho começa pela narrativa de sua infância e juventude, dividida entre o Havaí e a Indonésia, onde morou por algum tempo acompanhando a mãe e o padrasto, natural daquele país: "Cresci sentindo-me bem com a solidão, o lugar mais seguro que conheci". Não é para menos. Seus anos de formação foram marcados pela busca incessante de identidade e o sentimento de estar no meio do caminho entre brancos e negros, pobres e classe média, primeiro e terceiro mundo. A indefinição custou sofrimento e problemas com drogas: "Eu estava tentando crescer para ser um homem negro na América e ninguém à minha volta parecia saber exatamente o que isso significava."



Obama foi para a universidade em Los Angeles e Nova York, e militou no movimento negro. Alguns de seus colegas de turma vinham dos guetos, outros eram de famílias de classe média. Descreve com argúcia os conflitos que os dilaceravam, o desejo dividido entre se integrar ao sonho americano de prosperidade e a consciência das injustiças raciais, junto com o ódio que provocavam. A palavra central é identidade, a angústia do que poderiam ser numa sociedade em que os caminhos tradicionais da fazenda ou da fábrica foram substituídos por um mundo em que "a maneira de viver é comprada numa prateleira ou encontrada numa revista... Cada um de nós escolhia uma fantasia, uma armadura contra a incerteza."

As opções de Obama o levam para Chicago, para trabalhar com ONGs ligadas à organização comunitária entre os negros da paupérrima zona sul da cidade, area detroçada por crime, crise econômica e conflitos raciais. Seu mentor e patrão era um ativista judeu, Marty Kaufman, que lhe dá conselhos valiosos: "Com os sindicatos do jeito que estão, as igrejas são a única estratégia na cidade." Mas Kaufman desperta pouca simpatia humana e não consegue estabelecer vínculos com os negros. Obama narra então seus esforços, frustrações e alegrias no trabalho de base, principalmente nas áreas de habitação, emprego e educação. Seu modelo é o recém-eleito Harold Washington, primeiro prefeito negro de Chicago: "suas realizações pareciam delimitar o que era possível. Seus talentos, seu poder, davam a medida para minhas esperanças". Quantos garotos negros devem se sentir assim ao olhar o Obama de hoje!

A cidade era um poço de polarização política - Nação do Islã, gangues, choques entre negros, italianos, irlandeses, coreanos - e é notável a empatia de Obama em compreender as origens dos ódios, mas sem ceder a eles, logrando manter uma perspectiva mais ampla, de diálogo. Ao mesmo tempo, torna-se um admirador de figuras controversas como reverendo Jeremiah Wright, cujas explosivas declarações raciais deram trabalho ao atual pré-candidato presidencial. Obama ficou tão impressionado com Wright que batizou seu segundo livro com o título de um sermão do reverendo, "A Audácia da Esperança".

A parte final de "A Origem dos Meus Sonhos" é o fechamento de um ciclo. Obama é aceito por Harvard para cursar Direito e se despede de Chicago, aproveitando as férias para conhecer o Quênia e os parentes africanos. Ele busca as origens e descobre coisas incômodas sobre o pai e o avô - como o passado de colaboracionista deste último com o governo colonial britânico - mas também aprende muito sobre si mesmo e suas potencialidades.

O livro tem um breve epílogo, com Obama já formado em Direito, voltando ao trabalho comunitário se casando. No ano seguinte ele foi eleito senador estadual em Illinois e pouco depois foi para o senado nacional - apenas o terceiro negro na história americana a conseguir tal proeza. o resto é História, e está em curso. Espero que apenas no começo.

"A Origem dos Meus Sonhos" é um livro espetacular. Bem escrito, riquíssimo em observações humanas sobre os mais diversos temas - a situação dos negros nos EUA, as esperanças frustradas da classe média, a natureza da política de base e com comentários pertinentes e originais sobre a Indonésia e o Quênia. Ao mesmo tempo é revelador da personalidade do homem que pode se tornar um dos mais poderosos do mundo. Creio que hoje ele não escreveria um livro tão franco sobre suas inseguranças, fragilidades, medos e vícios. Sorte nossa que ficou este.

9 comentários:

Igor Trabuco disse...

Mau,

Depois dessa resenha, me sinto impelido a comprar o livro e torcer ainda mais pelo moço que decidiu vender esperança em um mercado acostumado a comprar medo.

Seus textos são excepcionais. Dá pena quando chega o final do post...

Abração

Mauricio Santoro disse...

Salve, meu caro.

Estou pensando em me juntar ao João Moreira Salles e lançar um movimento de Diretas Já nas eleições americanas, pois o resultado de lá me importa e muito - nem que seja pelo fato de que planejo cursar um pós-doutorado nos EUA, ao longo do mandato do próximo presidente de lá.

Fico à espera do seu texto!

Abraços

Patricio Iglesias disse...

"Seus textos são excepcionais. Dá pena quando chega o final do post...". Penso o mesmo. :'(
Muito legal. Näo savia tanto sob o Obama.
E respeito à traduçäo do nome, acredito que há piores. "Traduttore Traditore", Näo é?
Saludos!

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Gracias, don Patricio. Dá para escrever alguma semanas só com as traições das traduções brasileiras aos livros e revistas estrangeiros. Será que o mesmo problema acontece na Argentina? Não tive essa sensação.

Abraços

Medella disse...

Opa!

É a primeira vez que visito o seu blog, caí aqui quando enquanto fazia umas pesquisas sobre o "A origem dos meus sonhos".

De início queria dizer que gostei muito do seu texto. É bem amarrado e, como o Igor falou no outro comentário, dá pena quando termina.

Como funcionário da editora que publicou o livro no Brasil (e aqui escrevo como pessoa física!), participei diretamente da escolha do título em português.

Não estou aqui para defender esta tradução (mesmo porque concordo que em muitos casos são realizadas verdadeiras barbáries com os títulos). Mas acho que o motivo pelo qual o título foi traduzido desta forma e a discussão que levou a isso são interessantes.

Se fossemos traduzir o título original "Dreams from my father" literalmente como "Sonhos do meu pai" corríamos o sério risco de fazer entender que o Barack Obama chegou onde está porque era um desejo do seu pai. E não é bem isso que a história conta... O que o título original realmente sugere são os sonhos do autor que tiveram origem na história de seu pai.

Agora, imagine um título desses: "sonhos de Barack Obama que tiveram origem na história de seu pai" rssss

Portanto, a escolha por "A origem dos meus sonhos" (com muita discussão, acredite!) foi baseada neste aspecto da obra.

Voltarei mais vezes!

Forte abraço!

Mauricio Santoro disse...

Olá, Medella.

Entendo o problema da tradução da proposição "from", mas penso que poderia ter sido pensado algo que mantivesse a palavra "pai" no título. Sinceramente, eu preferia a ambigüidade de "Sonhos do Meu Pai" do que "A Origem dos Meus Sonhos".

Em todo caso, as notas explicativas do contexto político americano ficaram muito boas, e esse em geral é um aspecto bastante ruim nas edições brasileiras sobre os livros que tratam do tema.

Abraços

Jackeline da Veiga disse...

Pessoal, prestem bem atenção!
...Não se iludam com Barak Obama!...ele é o anti-cristo.
Isso parece loucura, mas não é...tenho muitas provas de que esse homem veio para dominar o mundo e destruir a humanidade!
Cuidem toda a tragetória de sua vida, ele tem a audácia de dizer que é o messias, muitas de suas palavras e ações, estão escritas na Bíblia, em apocalipse, leiam por favor com muita atenção. Vocês devem analisar as entrelinhas e relacionar!
Eu não estaria falando asneras e perdendo meu tempo me preocupando com vocês,e com esse tipo de assunto, mas comecei as pesquisas a pouco tempo e tenho visto muita coisa acontecer, tenho 17 anos...espero que pensem muito no que estou dizendo, e comecem suas próprias pesquisas! Salvem-se da escuridão e da cegueira que este homem vai colocar sobre suas mentes, para enganá-los ele irá falar muito sobre paz mundial, paz na humanidade, religião, vai querer fazer uma única moeda para o mundo todo, vai unificar as nações...enfim analisem, e não se enganem com sua "verdade"!!!!

Camila Santos disse...

Tive relação de livros, filmes e da Bíblia também, e...me impressionei certamente, teve mesmo algumas relações com a passagem de sua vida.`
É de assustar

Mary Anne Arruda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.