segunda-feira, 29 de março de 2010

O Clube do Bangue Bangue



Na semana passada comentei sobre os erros e falhas dos correspondentes de guerra, agora é o momento de ressaltar o papel positivo que a imprensa desempenha em grandes conflitos políticos. Mais especificamente: como um grupo de repórteres fotográficos cobriu com talento e coragem a violência étnica que matou 14 mil pessoas na África do Sul, entre 1990 e 1994, e quase impediu a transição do apartheid para a democracia. O trabalho dos jornalistas foi fundamental para mostrar como elementos do governo, em especial na polícia, estimularam o conflito para tentar sabotar o diálogo. A história é contada no livro autobiográfico “O Clube do Bangue Bangue: instantâneos de uma guerra oculta”, de Greg Marinovich.

Marinovich foi um dos quatro repórteres que formaram o grupo, e ganhou um Pulitzer por sua foto de um homem zulu sendo queimado vivo pela multidão de xhosas numa favela próxima a Johannesburgo. Os outros membros do Clube eram os sul-africanos Kevin Carter, Ken Oosterbroek e o moçambicano João Silva. Todos eram jovens, na faixa dos 20/30 anos, com um histórico de rebeldia e inquietação, sérios problemas familiares e com drogas, extremamente habilidosos no que faziam e com a tendência a se viciar na adrenalina da violência. O talento cobrou uma conta trágica: Carter também ganhou um Pulitzer, pela imagem de um urubu espreitando uma menina faminta no Sudão, mas se matou depois disso, em parte angustiado por não ter ajudado a criança (ele já havia tentado o suicídio anteriormente, por problemas profissionais). Oosterbroek morreu atingido por uma bala perdida num confronto entre militares e gangsters e o próprio Marinovich foi atingido duas vezes, na África do Sul e no Lesoto.



Os quatro amigos cobriam uma guerra particular, que acontecia em seu próprio país, mas num mundo à parte. Nos anos finais do apartheid, as favelas e periferias negras estouraram em choques armados entre milícias que apoiavam o Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, e os paramilitares zulus que tentavam um acordo de última hora com o apartheid para extrair privilégios em sua província originária, Natal. O conflito tinha dimensões étnicas, mas também refletia o choque rural/urbano, pois se tratava dos migrantes zulus atacando os grupos mais antigos nas favelas, usando como base os albergues para trabalhadores do campo . O governo – ou ao menos seus elementos mais extremistas - usou os zulus para tentar desacreditar Mandela e muitos temeram que a situação na África do Sul degenerasse num massacre comparável ao da Bósnia e de Ruanda. Foi por um fio: o chefe zulu só concordou participar nas eleições democráticas poucos dias antes da votação.

A polícia do apartheid protegia as milícias zulus e em alguns casos fazia ela mesma o trabalho sujo de assassinar os partidários do Congresso Nacional Africano. O trabalho do Clube do Bangue Bangue foi importante para denunciar os abusos que ocorriam então, embora a real escala do envolvimento governamental só tenha se tornado conhecida no fim da década de 1990, pelos trabalhos da Comissão de Verdade e Reconciliação. Aliás, o arcebispo Desmond Tutu, que a presidiu, assina o prefácio do livro.



Marinovich é um cronista excepcional da violência estúpida que presenciou, mas também relata de forma emocionante o despertar político do país, e de sua própria consciência, à medida que o filho de imigrantes croatas se torna mais próximo das comunidades negras, que até então ele conhecia apenas como empregados e serventes. Além da importância como documento histórico, seu livro é uma ótima análise sobre a criação de uma cultura de desconfiança com relação ao Estado que permeia muito da atual onda de criminalidade na África do Sul.

Os amigos fotojornalistas foram ironizados pela imprensa local como os “papparazzi do bangue bangue”, mais tarde mudados para “clube” a pedido deles mesmos. Marinovich é bastante direto ao relatar como ficaram viciados na emoção da guerra, e como a transição para a democracia deixou muitos deprimidos, e os impulsionou a buscar adrenalina em outras situações de conflito: ex-Iugoslávia, Somália, Sudão, Israel/Palestina. Uma tremenda história, que está sendo adaptada ao cinema. Tem tudo para render um grande filme.

3 comentários:

Mário Machado disse...

É sempre bom ver que há quem consiga fazer boas coberturas, mesmo com um peso pessoal tão grande.

Eu já fiz esse exercício de elucubração sobre como eu me portaria num cenário de conflito, mas a verdade é que nesse particular só a prática diz como será.

Esse livros deveriam ser obrigatórios nos primeiros semestres de rel por que o que há de futuros colegas que acham a guerra o "máximo" é assustador.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Mário.

O livro é muito bom, entre outras coisas, porque mostra como cada jornalista reage de uma maneira ao conflito. Alguns enlouquecem. Outros desistem da cobertura, por não aguentarem o impacto das mortes e da violência. Mas nenhum passa inalterado pela experiência.

Abraços

Gracy Laport disse...

Livro fantástico! Nos dá a inquietação de que precisamos para nos pensarmos dentro deste mundo e dentro da importância de nossa profissão.