segunda-feira, 8 de março de 2010

Quem Votou em Chávez?



O último número da revista acadêmica Latin American Research Review traz um artigo provocador de Noam Lupu. Doutorando em Princeton, ele analisa os dados eleitorais da última década na Venezuela e concluiu que o país não está polarizado em termos de classes sociais e apoio a Chávez. Pelo contrário, em certas disputas a base de sustentação do chavismo estaria na classe média, e não nos mais pobres. São observações interessantíssimas e que valem a reflexão.

Lupu afirma que somente na eleição presidencial de 1998 – a que conduziu Chávez ao poder pela primeira vez – houve o tipo de polarização ideológica que se costuma associar à Venezuela, com os mais pobres apoiando o chavismo e a classe média e a elite votando na oposição. Ao longo da década seguinte esses números se modificaram. Os muito ricos continuaram a se opor intensamente a Chávez, mas aos poucos o presidente ganhou adeptos na classe média e os perdeu entre os pobres. Lupu observa que o padrão de coalizões multiclassistas caracterizou outros líderes políticos latino-americanos carismáticos e controversos, como Perón.

O cerne do artigo de Lupu é a análise estatística dos resultados eleitorais, mas ele aponta algumas hipóteses para explicar as mudanças na base chavista. Suas observações:

A política econômica de Chávez e alguns de seus programas sociais, em particular na educação, beneficiaram a classe média com empregos, subsídios e bolsas de estudo.

O crescimento do crime e da violência nas favelas e bairros pobres da Venezuela teria levado muitas pessoas pobres a se afastar do presidente (o caso de Petare é emblemático), mesmo que admirem sua personalidade e recebam ajuda dos projetos sociais oficiais.

Me parece que ambas estão corretas, mas incompletas, e que é preciso examinar outras características do chavismo para entender o que ocorre com sua base de apoio. A doutrina ideológica de Chávez é um emaranhado de influências confusas e contraditórias que misturam do socialismo à doutrina social dos católicos de esquerda, mas o fio condutor desse labirinto é o nacionalismo, em especial na defesa de uma identidade latino-americana em oposição aos Estados Unidos. Essas idéias continuam muito forte e de grande apelo emocional em toda a região. Como ilustração, vejam a tabela abaixo, que mensura a opinião pública com respeito aos EUA ao longo da última década. Notem a hostilidade ao país registrada na América Latina, em particular na Argentina:




Não tenho os dados da Venezuela, mas tudo me leva a crer que serão bastante semelhantes às opinões na Argentina.

Outro ponto – e bem mais complexo – é a relação difícil de Chávez com os movimentos sociais e partidos de esquerda da Venezuela, que tem sido marcada por conflitos e rupturas. Apesar de ser um líder político há quase 20 anos, ele não conseguiu organizar um partido político disciplinado, como Perón. As alianças chavistas com as organizações populares me parecem muito mais frágeis, embora eu ressalte minhas informações incompletas sobre o tema. Espero encontrar trabalhos que examinem essas contradições.

2 comentários:

Mário Machado disse...

Eu nunca comprei essas teses classistas, racialistas e de gênero. São sempre simplificações.

Mauricio Santoro disse...

Pois é, e a Venezuela é um caso muito complicado. Vale a pena examinar o que está acontecendo por lá.

abraços