sexta-feira, 5 de março de 2010

Pachamama



Os latino-americanos sofremos de um déficit de imagens cinematográficas sobre nosso próprio continente, sobre nossos países, povos e costumes. E são ainda mais raros os olhares brasileiros para as demais nações da região. Por isso, é especialmente importante o lançamento do documentário “Pachamama”, de Eryk Rocha (filho do cineasta Glauber), que narra uma viagem ao Peru e à Bolívia, acompanhando as transformações sociais em curso nos Andes. Aliás, trata-se de uma parceria com o Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos mais dinâmicos e criativos centros de pesquisa a respeito da América Latina.

O filme tem uma brevíssima narração em off, limitada ao início, e no resto do documentário o espectador é estimulado e pensar e refletir por meio de um conjunto de belíssimas imagens que vão da Amazônia às minas de estanho bolivianas, passando pela arquitetura deslumbrante de Cuzco, no Peru, e por manifestações nas ruas de La Paz e El Alto.

Eryk filma as pessoas comuns com grande empatia e respeito, e desse modo temos depoimentos excelentes de uma grande variedade de personagens: ativistas de associações de moradores, índios na fronteira do Peru com o Brasil, velhos camponeses narrando mitos de criação da Terra e condenando o genocídio perpetrado pelos espanhóis, militantes da autonomia das províncias bolivianas, entusiastas de Evo Morales, peruanos descrentes de tudo, crianças fascinadas com a câmera.

Bolívia e Peru têm histórias semelhantes, mas realidades que são hoje muito diversas, e o filme mostra isso com clareza. Os dois países eram parte do Império Inca e foram subjugados pela Espanha por suas riquezas minerais. Após a Independência, foram governados por repúblicas oligárquicas que passaram por convulsões sociais depois de derrotas militares – respectivamente, para o Paraguai e o Chile. A diferença é que a Bolívia teve na Revolução de 1952 um impressionante processo de mudança que até hoje dá frutos, ao passo que as transformações no Peru foram bem mais limitadas e travadas pela violência e pelo autoritarismo, em particular pelos efeitos do terrorismo do Sendero Luminoso e da ditadura de Alberto Fujimori nas décadas de 1980/1990.

Em linhas gerais, o resultado é que os peruanos entrevistados no filme apresentam uma enorme descrença na política e no Estado, em atitudes nihilistas do tipo “tudo está perdido”. Na Bolívia, há uma intensa mobilização política – em torno dos movimentos sociais indígenas e dos grupos regionais que se opõem a eles e querem autonomia do poder central em La Paz. O risco no Peru é a apatia, na Bolívia, a polarização e a violência entre facções opostas. Mesmo assim, impressiona a articulação e clareza com a qual os bolivianos das diversas correntes expõem suas opiniões e defendem suas idéias.

No início do documentário, Eryk Rocha diz que filma os países vizinhos com o objetivo de fazer com que nós, brasileiros, pensemos um pouco sobre nós mesmos, a partir do olhar lançado para outros povos, que nos são próximos. De fato, Bolívia e Peru oferecem um jogo de espelhos para analisar a situação brasileira. O Brasil não tem movimentos sociais tão ativos e dispostos a cobrar resultados do Estado quanto os bolivianos – a maioria das organizações populares chegou a algum tipo de apoio/acomodação ou acordo com o governo Lula. As posições nihilistas dos peruanos encontram muito eco entre os brasileiros, sobretudo quando se trata de corrupção, mas a maioria dos brasileiros têm expectativas muito mais sólidas com relação ao Estado, que por aqui conseguiu construir ilhas de excelência de êxito inegável.

Enfim, bons temas para debates. Aguardo o lançamento do filme em DVD, para que eu possa usá-lo em sala de aula.

13 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei surpreso que você não mencionou que o Peru é substancialmente mais rico que a Bolívia – por vários motivos, entre os quais a Revolução de 1952 e seus ecos, que até hoje assombram o investidor estrangeiro da Bolívia.

Mário Machado disse...

Mas que o Peru é mais rico que a Bolívia é dado.

Sem entrar numa de defender quem sabe se defender muito bem.. é complicado que só abordar tudo em uma postagem.

Mauricio Santoro disse...

Anônimo,

Todos os países da América do Sul são mais ricos do que a Bolívia, mas isso tem mais a ver com a história do país, desde sempre, do que com a revolução de 1952.

Os recursos naturais bolivianos - prata, estanho, hidrocarbonetos - nunca lograram servir de base para um modelo de crescimento próprio. O Peru, por contraste, foi o centro do império espanhol na América do Sul, embora tenha experimentado o declínio após a Independência, na medida em que Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela cresceram mais.

Abraços

Anônimo disse...

"Todos os países da América do Sul são mais ricos do que a Bolívia, mas isso tem mais a ver com a história do país, desde sempre, do que com a revolução de 1952."

Falso. Tal tese não sobrevive 2 minutos de atencão para os dados (via Historical Statistics for the World Economy: 1-2003 AD, de Angus Maddison).

Em 1950 - antes da revolucão de 1952 - o PIB per capita boliviano era 1919 dólares de 1990, enquanto o do Peru era 20% mais alto (2308).

Já em 1960 - depois da revolucão de 1952 - o PIB per capita boliviano caiu para 1606 enquanto o peruano subiu para 2969 (85% mais alto que o numero da Bolivia).

A realidade dos fatos é que a Revolucão de 1952, por ter ensinado aos bolivianos que o caminho das riquezas passa por roubar investidores estrangeiros, foi o marco da divergência para baixo da Bolivia com relacão aos outros países da região.

Faber disse...

Assisti Pachamama há dois anos, no Festival do Rio, numa premiére, com a presença da equipe técnica. Acabava de vir de uma viagem pelos países retratados no filme e guardava uma grande expectativa em relação ao documentário. É um bom filme pelas imagens que apresenta e pelas reflexões que subsidia, mas um tanto pretensioso a meu ver. Por exemplo, erra na mão ao propôr um ritmo muito lento (muito lento mesmo) num continente que vive tantas transformações.

Mauricio Santoro disse...

Tolice, Anônimo. Os dados que você cita refletem a alta e baixa dos preços do estanho, que à época era o principal produto de exportação da Bolívia.

É como tomar a Venezuela de hoje e dizer que Chávez é um ótimo gestor econômico, por causa do aumento do PIB do país. Ora, o que ocorre é simplesmente um crescimento em função da alta dos preços internacionais. Estatísticas ajudam, mas é preciso conhecer a História.

Por exemplo, as nacionalizações que você tanto condena não foram iniciadas pela Revolução de 1952. Elas começaram com as ditaduras militares na década de 1930, e foram implementadas como reação à derrota para o Paraguai na Guerra do Chaco.


Salve, Faber.

Acho que o ritmo mais lento, reflexivo, foi uma opção do Eryk para tomar uma certa distância do turbilhão de acontecimentos na América do Sul.

Além disso, gostei do olhar do filme sobre o cotidiano, deixando falar as pessoas comuns e sem discursos impressionantes por parte do cineasta.

abraços

Anônimo disse...

“Tolice, Anônimo. Os dados que você cita refletem a alta e baixa dos preços do estanho, que à época era o principal produto de exportação da Bolívia.”

Not really, Mauricio. Estes dados são em preços constantes.

“É como tomar a Venezuela de hoje e dizer que Chávez é um ótimo gestor econômico, por causa do aumento do PIB do país.”

Os números teimosamente discordam de você. Chávez é um péssimo gestor econômico porque APESAR da alta nos preços do petróleo, a Venezuela cresceu MENOS e teve MAIS inflação que a vasta maioria dos países sul-americanos desde que ele é presidente (nos últimos 11 anos) – o que não é nenhuma surpresa, porque seu governo ativamente tem tentado destruir a capacidade produtiva do país, afinal qualquer teorista político de botequim pode atestar que é muito mais fácil ser ditador de um país pobre sem classe média e cuja população dependa do favor estatal do que de um país com uma economia vibrante.

“Por exemplo, as nacionalizações que você tanto condena não foram iniciadas pela Revolução de 1952.”

Está tentando sair pela tangente. A Revolução de 1952 foi o grande marco da história boliviana em termos de ascensão da retórica e prática xenofóbica e de vitimização. Desde 1952, é incontestável que a Bolívia divergiu para baixo dos outros países sul-americanos.

Novamente, o que é de se esperar: a receita de espantar o capital estrangeiro e fechar um país pequeno nunca deu certo em lugar nenhum – hisória e economia incontestavelmente mostram que um movimento revolucionário que exproprie investidores estrangeiros e feche um país vai gerar a consequência no longo prazo de empobrecê-lo relativamente a seus vizinhos e pares.

Anônimo disse...

Interessante a abordagem

Vitor Taveira disse...

Interessante a abordagem do post. Estou curioso para ver o documentario, embora já tenha ouvido alguns comentários críticos em relação à condução do filme. Acho que se um ritmo acelerado condiria mais com a velocidade das mudanças políticas, este seria contraditório com a própria dinâmica da vida indígena, que tem um tempo distinto do frenesí capitalista. O campones andino é desconfiado e não sai falando a qualquer câmera que se poste à sua frente. Talvez o diretor queira apenas refletir o tempo da cultura andina e nao da politica sul-americana.

Sem dúvidas trata-se de uma cultura muito interessante e quase nunca retratada pelo cinema brasileiro

É notótio que os povos indígenas bolivianos, especialmente no altiplano, passam por um período de grande crença na política e que a situção peruana é quase oposta já que o governo do país não é nada animador. Mas vale ressaltar que os indígenas se levantaram e mostraram força ano passado após um massacre provomido por forças policias a indios da amazonia peruana. Eles têm suas frentes e estão organizados em luta por seus direitos.

Anônimo disse...

“Mas vale ressaltar que os indígenas se levantaram e mostraram força ano passado após um massacre provomido por forças policias a indios da amazonia peruana.”

Caro Vitor, essa sua versão dos acontecimentos pode até ser acreditada pelo leitor médio da Carta Maior, mas a vasta maioria dos peruanos vêm os acontecimentos de forma diferente.

Os fatos como entendidos pela vasta maioria dos peruanos são o seguinte: os indígenas capturaram 12 policiais, renderam suas armas, amarraram-nos e cortaram seus pescoços a sangue frio.

Em resumo: o movimento indígena peruano declarou seu suicídio político. Antes do massacre dos 12 policiais, havia uma possibilidade remota de algum político como Morales chegar ao poder no Peru. Hoje não mais.

Vitor disse...

Anônimo,
Eu estava passando pelo Perú na época do acontecido e a repercussão foi muito grande na mídia de lá... aqui, obviamente nao saiu quase nada.
Aquela crise mostrou um tanto da falta de habilidade politica e menosprezo do governo do García em relacao ao movimento indígena.
Sem entrar no mérito da questão, tudo poderia ser resolvido mais diplomaticamente se os povos nativos fossem ao menos consultados sobre a questão da exploraçao mineral na amazonia.

O líder indígena daquela rebelião ganhou bastante destaque e a oposição parlamentar tentou desgastar ao máximo o governo García. Afinal fui embora do país e não acompanhei de perto como tudo terminou.
Não sei como está a conjuntura politica la mas talvez o Humala ainda seja um forte candidato a presidencia em 2011, algo entre uma mistura de chavez com morales à peruana

Anônimo disse...

“Não sei como está a conjuntura politica la mas talvez o Humala ainda seja um forte candidato a presidencia em 2011, algo entre uma mistura de chavez com morales à peruana”

Caro Vitor,

Eu sigo a política do Peru a meia distância. A candidatura do Humala simplesmente morreu junto com os 12 policiais assassinados a sangue frio pelos manifestantes indígenas. O repúdio da vasta maioria dos peruanos pelo movimento indígena pode causar até algo que nunca aconteceu antes naquele país: um prefeito de Lima se tornou um candidato competitivo para a eleição presidencial.

Mauricio Santoro disse...

Oi, Vitor.

As pessoas entrevistadas no filme em geral são citadinos, com uma ou outra excessão, como um velho camponês peruano que narra alguns mitos indígenas.

O documentário é uma ótima iniciativa, mas faz falta uma cobertura mais presente da imprensa brasileira, para acompanhar os acontecimentos no Peru e os desdobramentos das sucessivas crises políticas que ocorrem no país.

abraços