sexta-feira, 22 de outubro de 2010

América Latina: a estrela da economia do desenvolvimento?



Nesta semana o ótimo blog de Chris Blattman (professor de Economia e Ciência Política em Yale) publicou um dado interessante, reproduzido na imagem que abre este texto: é uma projeção sobre os países mais abordados nos artigos do Journal of Development Economics, um dos principais periódicos acadêmicos nos estudos sobre desenvolvimento. Como se observa, China e Índia dominam os debates, mas o que chamou a atenção de Blattman é a “sobrerepresentação” da América Latina. A quantidade de pesquisas a respeito da região é bem maior do que se poderia esperar em função de seu peso econômico. Ele e outro blogueiro célebre, Tyler Cowen, perguntam o porquê do interesse tão grande pelo continente em detrimento de áreas mais pobres, como a África. Listam várias hipóteses como proximidade geográfica e semelhança cultural com EUA e Europa, onde estão a maioria dos pesquisadores. É possível, mas acrescentei minha própria resposta.

A disciplina de “economia do desenvolvimento” teve seu surgimento e auge no pós-Segunda Guerra Mundial, entre as décadas de 1940 e 1970. Basicamente, ela procurava ferramentas para aplicar nos países pobres e em rápido processo de industrialização as medidas bem-sucedidas do New Deal americano e da construção dos Estados de Bem-Estar Social na Europa. Naquele período histórico, Ásia e África eram ainda paupérrimas, e a América Latina dominava os debates sobre teoria e prática do desenvolvimento.

Aqueles eram os tempos nos quais a Comissão Econômica da ONU para América Latina e Caribe (CEPAL) influenciava líderes políticos e acadêmicos em todos os países em desenvolvimento, com suas defesas da industrialização planejada pelo Estado, da integração regional e seu apelo de que era possível superar a pobreza e a dependência da exportação de produtos agrícolas e minerais. Politicamente, era o momento em que os EUA buscavam uma alternativa reformista à Revolução Cubana (como a Aliança para o Progresso, do presidente John Kennedy) e apostavam em vertentes como a teoria da modernização em contraponto ao marxismo.

Foi um período raro, no qual acadêmicos latino-americanos de alto gabarito – Raúl Prebisch, Celso Furtado, Aníbal Pinto, Oswaldo Sunkel - dialogavam e influenciavam pesquisadores dos EUA e da Europa, como Albert Hirschman e Albert Fishlow.

A história tem um peso – “path dependence” como dizem os acadêmicos. Como a América Latina foi muito importante no início dos estudos sobre o desenvolvimento, muitos acadêmicos posteriores também se dedicaram à região, dando continuidade e/ou refutando estudos clássicos a respeito do continente. Isso ocorreu apesar das políticas mais promissoras em prol do desenvolvimento virem dos Tigres Asiáticos, como Coréia do Sul, Taiwan e Hong Kong, ou da África ter sido o palco de desastres humanitários muito mais sérios.

Com o ótimo desempenho econômico da América Latina em anos recentes, e as muitas inovações políticas que a região experimenta (por exemplo, o movimento indígena andino) acredito que a tendência irá se fortalecer e que o continente ganhará destaque nos estudos sobre desenvolvimento.

2 comentários:

Cristian Abreu de Quevedo disse...

Me parece que com erros ou acertos, a sobrerepresentação da América Latina e especilamente o Brasil evidenciou-se nas últimas crises econômicas.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Cristian.

Não tenho certeza, porque os dados não apresentam a publicação de acordo com a época. Mas é possível, em especial pelos impactos gigantescos da crise da dívida da década de 1980.

Abraços