segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Força da Tradição: os mineiros do Chile



Algumas vezes, sobreviver pode ser melhor do que viver.
Fala final do filme italiano "Caros F.. Amigos", de Mario Monicelli

Quando servi no Conselho Nacional de Juventude, conheci uma colega que havia vivido exilada no Chile, nos anos 60, na época do governo do democrata-cristão Eduardo Frei. Ela e o marido haviam fugido da ditadura brasileira e ainda estavam assustados, quando o porteiro do prédio em que moravam foi conversar com os dois. Trazia nas mãos o rascunho de um artigo sobre marxismo no qual o marido trabalhava, e que havia jogado fora. "Isso é de vocês?", ele perguntou. Ambos ficaram um pouco embaraçados, mas o medo se dissipou com o comentário seguinte do porteiro: "É porque não entendi por que você citou Lênin nesta passagem. Há um trecho de Trotski que funcionaria muito melhor." Sempre me lembro da história quando penso na força do movimento trabalhista chileno - uma tradição que vem pelo menos da Frente Popular da década de 1930, sobreviveu aos quase 20 anos da ditadura Pinochet e que se manifestou com intensidade no drama dos mineiros recém-resgatados após mais de dois meses soterrados.

Em condições quase impossíveis de sobrevivência, os 33 mineiros conseguiram se organizar, eleger líder, porta-voz, guia espiritual, dividir comida, remédios e suprimentos, manter a moral e o bom humor em alta e até preparar um fundo para gerir os recursos que começaram a vir com a fama repentina. Seus familiares montaram um aparato impressionante e eficiente para ajudar a imprensa e as equipes de resgate. Para além dos méritos individuais de cada integrante do grupo, um desempenho tão alto não teria sido obtido sem a tradição de mobilização trabalhista desse grupo profissional - sem dúvida, uma das mais ricas da América Latina.

A mineração é uma das principais atividades econômicas do Chile desde o século XIX. A maior parte das minas se concentra nas regiões desérticas ao norte do país, uma área inóspita, que às vezes parece uma paisagem de outro planeta. A concentração de trabalhadores em grandes instalações propiciou o ambiente para um sindicalismo combativo, o norte chileno foi um bastião da esquerda, sobretudo dos comunistas.

O drama dos mineiros soterrados ilustrou vários pontos das dificuldades do setor, como a falta de condições adequadas de segurança, o risco do desemprego e a instabilidade econômica decorrente da oscilação do preço internacional dos minérios. Os tons de pele e as feições dos protagonistas também serviram para lembrar o quanto o Chile é um país de grande população indígena e mestiça, ainda que seu imaginário nacional por vezes não goste disso - uma amiga brasileira perguntou a um taxista em Santiago com qual povo latino-americano os chilenos mais se identificavam e a resposta, após uma pausa pensativa, foi: "Com os ingleses."

Bem, os mineiros ingleses travaram sua última grande batalha na década de 1980, contra Margareth Thatcher, e o sindicalismo europeu enfrenta uma nova onda de protestos e greves gerais, na difícil conjuntura da crise atual. Talvez possam se inspirar nos chilenos. Ao menos o nível do humor melhoraria bastante.

2 comentários:

João Paulo Rodrigues disse...

E essa é uma constante: os mineiros foram a espinha dorsal anti-apartheid na África do Sul, da esquerda boliviana e das alas mais radicais do movimento de trabalhadores norte-americano.
Sria interessate saber como o ogverno chinês lida com os mineiros, já que as condições de trabalho lá são péssimas e não parece estar surgindo maior contestação nas minas daquele país. Ao menos isso não nos chega via grande imprensa.

Mauricio Santoro disse...

Salve, João Paulo.

É verdade, e também são importantes no Peru, onde enfrentam várias dificuldades.

Classes sociais se formam na luta, na construção de cultura e valores em comuns, e não simplesmente em função da posição comum que as pessoas ocupam na economia.

No caso chinês, com os altos níveis de repressão, é de esperar que o desenvolvimento da ação coletiva seja bem mais complicado.

Mas sei que o sindicalismo na China tem feito avanços, sobretudo no setor industrial. O país promulgou recentemente uma nova legislação trabalhista, mais abrangente.

Abraços