segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Cidade dos Homens


Os atores Douglas Silva e Darlan Cunha, mais conhecidos por seus personagens Acerola e Laranjinha, cresceram sob o olhar do público. Os dois se destacaram desde crianças por pequenas participações em “Cidade de Deus” e por estrelar o curta “Palace II”, produzido pela mesma equipe do filme. Daí foram para o seriado de TV “Cidade dos Homens”, que por quatro anos os mostrou na pele de dois adolescentes moradores de uma favela do Rio de Janeiro. O olhar bem-humorado sobre o cotidiano carioca rendeu vários prêmios internacionais ao programa e transformou Douglas e Darlan em astros. O filme “Cidade dos Homens” é um fecho digno para o seriado e faz pensar sobre o Brasil.

No enredo, os dois amigos inseparáveis estão completando 18 anos e precisam se defrontar com as responsabilidades da vida adulta. Acerola tem que aprender a ser pai, e enfrenta a perspectiva de passar um ano separado da mulher, que quer ir a São Paulo e economizar dinheiro num emprego que lhe oferecem por lá. Laranjinha pensa cada vez mais no pai que nunca conheceu e pede a ajuda do amigo para descobrir quem ele é.

O filme seria excelente caso se concentrasse nessa trama, mas o roteiro envolve uma guerra de traficantes pelo controle da favela onde vivem os dois jovens, num conflito que os coloca em lados opostos pela intricada rede de lealdades familiares e pessoais. Embora a narrativa desse enfrentamento seja muito boa, acaba por desviar o foco do filme daquilo que é mais importante, o forte laço de afeto que mantém os dois amigos unidos apesar de todas as circunstâncias adversas.

Penso também que é um problema típico dos filmes brasileiros, nos quais bem-intencionados e progressistas cineastas de classe média são incapazes de retratar os pobres, sobretudo se moradores de favelas, sem falar de violência. Como observa meu irmão: “Se você vir um pobre num filme brasileiro, pode olhar no relógio: em menos de cinco minutos vai acontecer um crime!”.

Ao fim, o que redime “Cidade dos Homens” é a bela homenagem à amizade, mãe da esperança. Acerola e Laranjinha são um pouco amigos de todos nós, nestes anos tão difíceis para o Rio de Janeiro. Eles conquistaram nossa simpatia com sua maneira atrapalhada, mas sempre simpática e de bom coração, de lidar com os problemas da vida. Há muito neles de personagens picarescos clássicos da literatura brasileira, como o Leonardo de Memórias de um Sargento de Milícias, ou mesmo do Macunaíma de Mário de Andrade. O belo final do filme me lembrou bastante os desfechos das aventuras de Carlitos, com a emoção de quem não tem escolha senão seguir adiante apostando que o dia de amanhã será melhor.

2 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Aqui também as "villas" säo asociadas ao crime. Como se nas classes médias e altas todos foram honestos!
Saludos

Mauricio Santoro disse...

Sim, meu caro, quanto mais conhecemos Brasil e Argentina, mas vemos as semelhanças entre ambos...

Abraços