sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Em Busca do México



Quando eu morava na Argentina minha turma de pós-graduação recebeu a visita do embaixador do Chile em Buenos Aires, um político socialista que havia morado muitos anos no México, exilado da ditadura de Pinochet. Durante a conversa, fez críticas duríssimas à política externa brasileira com relação à nação azteca, afirmando que o Itamaraty a considerava erroneamente como marionete dos Estados Unidos e ignorava suas tradições: “Sem o México, não existiria América Latina. Se a fronteira dos EUA fosse com um Estado mais frágil, a influência estadunidense impediria o desenvolvimento de uma identidade cultural própria.”

Como eu era o único aluno brasileiro na universidade, me coube a réplica ao diplomata chileno, e basicamente disse que concordava com ele: “Nunca tomaria a pátria de Octavio Paz e Carlos Fuentes como submissa culturalmente a ninguém”. Comentei que o aumento no comércio entre Brasil e México certamente traria mudanças nas estratégias do Itamaraty. Mas a velocidade das transformações me espantaram, já escrevi neste blog sobre a aproximação diplomática entre os dois países e novas leituras reforçaram essa visão.

Primeiro, interessante artigo do internacionalista espanhol Juan Pablo Soriano avalia a guinada latino-americana da política externa do presidente Felipe Calderón e afirma que “Para diversos analistas mexicanos, o Brasil é visto cada vez mais como um exemplo para seu país. Não necesariamente como um modelo a imitar, mas como uma referência do que o México está fazendo e deixando de fazer em política externa, e do que poderia fazer segundo seu projeto nacional e suas capacidades.“

Segundo, comprei no Canadá um excelente estudo publicado pelo Centro de Investigación y Docencia Economica, “En Busca de una Nación Soberana: relaciones internacionales de México, siglos XIX y XX”. É uma coletânea de ensaios sobre a política externa mexicana da independência aos dias atuais, centrada em três eixos: a agenda bilateral com os Estados Unidos, as estratégias para a América Latina e as questões migratórias, que têm sido muito importantes nos últimos 100 anos.



O que me interessa é sobretudo as relações do México com os outros países latino-americanos, história cheia de contradições. A diplomacia mexicana tem como pilar a Doutrina Carranza, de repúdio a qualquer forma de intervenção – o princípio foi formulado quando os EUA atacavam a região de Vera Cruz e o general Pershing caçava Pancho Villa no norte. A postura permanece: até o hoje o México não participa em missões de paz da ONU por considerar que violam a Doutrina Carranza.

Essa também foi a orientação para a curiosa relação do México com Cuba, que o historiador cubano Rafael Rojas chama de “amizade desleal” e é baseada no seguinte acordo: “Durante quase 40 anos, México e Cuba mantiveram um vínculo singular, em que dois regimes não-democráticos compartilhavam valores similares, provenientes de duas revoluções e dois nacionalismos, articulados frente à mesma potência hegemônica: os Estados Unidos. O pacto diplomático entre esses dois autoritarismos consistia em que o México se oporia ao isolamento internacional de Cuba, promovido pelos Estados Unidos, e em troca Cuba não estimularia movimentos da esquerda radical no México.”

Rojas ressalta que o pacto foi rompido a partir dos anos 90: a entrada mexicana no Nafta e o fim do governo do PRI levaram a críticas duras ao regime cubano, com diversas crises entre os dois países.

Contudo, houve diversos momentos na história mexicana em que o princípio da não-intervenção foi abandonado em prol de uma ativa diplomacia na América Latina, em particular no apoio dado aos rebeldes sandinistas na Nicarágua e a liderança do México no Grupo de Contadora, que buscou uma solução negociada para os conflitos da América Central.

Todos os autores que estudam a política externa do México ressaltam que as guinadas pró-América Latina ou pró-Terceiro Mundo também respondem às lutas políticas internas, na medida em que presidentes fazem gestos que tentam seduzir a esquerda. Foi assim quando Luis Echeverría (1970-1976) tentou uma abertura diplomática após os massacres de estudantes nas Olímpiadas de 1968, e em meio à guerra suja que travava contra a extrema-esquerda. Em certa medida Felipe Calderón agora procura legitimar sua conturbada ascensão à presidência aproximando-se da Argentina e do Brasil.

A primeira imagem do post é "O Carregador de Flores", do pintor mexicano Diego Rivera.

4 comentários:

Karin Nery disse...

Olá Maurício,
Interessantíssima a sua última postagem. E por falar em México, lembrei de um filme que assisti, chama-se "Apocalypto". Este foi rodado naquele país, e utilizaram o dialeto da civilização Maia. Bem interessante! Acho que vai gostar. Ah, mudando de assunto... mas falando de cinema ainda...
vc é a única pessoa q vi até hj, além de mim, q gostou do filme "Machuca" (Ah, esta última informação vi no orkut...rs). Ah,Gosto muito de política, e principalmente, de ler artigos e as críticas de pessoas que realmente entendem do assunto. Por isso, continue escrevendo! Att.

Mauricio Santoro disse...

Olá, Karin.

Não cheguei a ver o Apocalypto, mas tenho muita curiosidade pela antiga civilização maia, inclusive espero visitar as ruínas que restam na Guatemala, que dizem ser belíssimas.

Quanto ao Machuca, somos uma legião de fãs silenciosos, porque o filme fez grande sucesso no Chile. Não foi tão badalado aqui no Brasil, mas quem viu, gostou.

Obrigado pelos cumprimentos!

Abraços

Sergio Leo disse...

Caro Santoro, é fato que o México sempre buscou uma política independente; mas o Nafta torna os interesses do país, em matéria de negociações comerciais internacionais, bem diferentes, e em alguns casos opostos aos do Brasil de Lula. Na OMC foi braba a disputa com o então ministro mexicano, o Derbez, pela adesão do México às teses da Europa e dos EUA. O Derbez,depois, candidatou-se a secretário-geral da Organização e perdeu, em parte, devido a anti-candidatura que os brasileiros lançaram.
Acho que há uma tentativa de aproximação, especialmente pelo interesse do México em buscar contrapesos à esmagadora influência americana; mas vê-se enorme falta de entusiasmo na diplonmacia brasileira em aprofundar as relações com o México. Perdi as contas dos discursos otimistas que ouvi em ocasi~´oes de visistas de autoridades mexicanas, discursos esses engavetados mal a autoridade voa de volta ao Hemisfério Norte...

Mauricio Santoro disse...

Salve, Sergio.

Pessoalmente, acho que a aproximação mexicana com a América Latina é muito interessante, mas esbarra nos contrangimentos que você mencionou e também na prioridade que o México dá aos EUA por conta de questões bilaterais importantíssimas, como as migrações.

Nessas leituras que tenho feito, os autores destacam muito o jogo político doméstico, de aproximação com a AL para acalmar a esquerda.

Ando bastante curioso com relação à crise de Oaxaca, nas próximas semanas o IUPERJ deve exibir um filme sobre o assunto, vamos ver o que aprendo com ele.

Abraços